Ashraf Haidari: “Brasil tem a chave para estabilizar o Afeganistão”
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Ashraf Haidari: “Brasil tem a chave para estabilizar o Afeganistão”

adrianacarranca

20 Outubro 2010 | 06h03

Leia a íntegra da entrevista com Ashraf Haidari, encarregado de negócios para o Brasil e consultor político da Embaixada do Afeganistão em Washington.


Foto: Ashraf Haidari/ Embaixada do Afeganistão em Washington

Adriana Carranca*
Na quinta-feira, a Otan e os Estados Unidos admitiram, pela primeira vez, terem iniciado conversas de paz com o Taleban. O anúnicio foi feito após o comando do grupo radical islâmico clamar publicamente o controle de 75% do território afegão e de todas estradas do país. Para o encarregado de negócios da Embaixada do Afeganistão em Washington, Ashraf Haidari, nem um lado nem o outro da guerra, mas “o Brasil tem a chave para estabilizar o Afeganistão”. E ela está na agricultura e na mineração.

A pedido do governo afegão, o Brasil entrará no mercado trilionário de exploração das reservas minerais, ainda intocadas, descobertas no país em junho. A reserva de lítio, metal usado em bateriais, laptops e celular, podem chegar a U$ 3 trilhões, a maior do mundo. O Afeganistão também quer a presença do Brasil no agronegócio.


Quase 80% da população afegã vive em áreas rurais. E é nesses vilarejos que o Taleban recruta seus soldados. “Se não garantirmos aos camponeses um ganho de vida legítimo, a desilusão e o descrédito no governo ganharão mais peso e, por falta de opção, também o suporte deles ao Taleban”, diz Haidari.
A seguir, trechos da entrevista, por telefone:

Por que o Brasil?
O Brasil está numa posição única para ajudar o Afeganistão. Ao contrário de outras nações em território afegão, é também um país em desenvolvimento, tem impressionado a comunidade internacional com um explosivo crescimento e é hoje uma nação reconhecida por sua liderança global.

O acordo bilateral inclui o comércio entre os países?
Essa é a proposta! Não queremos apenas que o Brasil ajude o Afeganistão. Buscamos também investimentos do setor privado, ou parcerias público-privadas com o governo afegão e com o empresariado. Muitos empresários afegãos importam produtos brasileiros através dos países do Golfo e nós esperamos que eles possam expandir os negócios. Recebemos a delegação brasileira (coordenada pelo diretor da Agência Brasileira de Cooperação, do Itamaraty, ministro Marco Farani) em Cabul para mostrar ao Brasil as oportunidades existentes no Afeganistão.

Em que áreas o sr. enxerga oportunidades?
O Brasil não apenas tem experiência, mas expertise, em agronegócios e mineração. Do lado afegão, nós queremos parcerias com o Brasil para acessar a nossa riqueza natural, então há oportunidades na extração e exportação das reservas minerais. Na agricultura, a chave está na qualidade da pesquisa do Brasil. Inovações da Embrapa tornaram cultiváveis terras secas, antes improdutivas, com sementes melhoradas, métodos de irrigação, auxílio financeiro e técnico aos camponeses. Avanços permitiram reduzir custos, aumentar a produção por hectare, proteger recursos naturais e, com isso, melhorar a auto-suficiência do Brasil. O Cerrado brasileiro se tornou tão produtivo quanto o meio oeste americano. Nós temos problemas similares, com chuvas imprevisíveis (o Afeganistão vive a maior seca dos últimos 30 anos), e apenas 15% do solo arável.

O sr. falou em agronegócios…
No Afeganistão, 50% do PIB e 80% das exportações vinham da agricultura, mas desde 1978 (quando se deu a invasão soviética), a produção caiu, em média, 3,5% ao ano. Com a saída do Taleban, em 2001, algum progresso foi conquistado. Mas nós hoje produzimos apenas a metade, por acre, do que países vizinhos. Falta infraestrutura, os 24 centros de pesquisa do Ministério da Agricultura permanecem fechados e 40% do sistema de irrigação está fora de operação. É difícil para os agricultores afegãos ter acesso a crédito e ao mercado. Por isso, não temos agronegócios. O Brasil, ao contrário disso, desenvolveu um impressionante setor de agronegócios e é um dos maiores produtores do mundo hoje.

Seria suficiente para substituir o cultivo de papoula?
A maioria cultiva o necessário para sobreviver. E aqueles que conseguiram chegar ao mercado externo foi através da papoula, matéria-prima para ópio e heroína. Precisamos mudar essa lógica. E a maneira de conseguir isso é com a ajuda da tecnologia que o Brasil detém para aumentar as terras produtivas, a capacidade de cultivo por acre e a qualidade dos produtos afegãos – romã, maçã, uva e amêndoa. Esses itens já começam a encontrar espaço para exportação nos estados do Golfo, na Índia e até Europa, mas precisamos aumentar drasticamente a produção. E adicionar valor aos produtos agrícolas afegãos. O Brasil pode ajudar nisso, já que é o 5º maior produtor de alimentos processados do mundo. A Embrapa também tem experiência no trabalho coordenado com o Departamento de Agricultura dos EUA e organizações como a FAO na África, e essas mesmas agências estão no Afeganistão.

Como começaram as conversas entre Brasil e Afeganistão?
Muitos não sabem disso, mas durante o reinado de Mohammad Nader Shah, do Afeganistão, quando o Brasil tinha Getúlio Vargas como presidente, representantes de ambos países assinaram um tratado de amizade, em 1933, na Turquia. Após o colapso do regime soviético não tivemos relações até 2006. Foi quando o Brasil participou, pela primeira vez, da Conferência Internacional sobre Afeganistão, em Londres, e o chanceler Celso Amorim mostrou interesse em cooperar com a comunidade internacional no Afeganistão. Isso levou ao acordo de cooperação técnica (em vigor a partir de 2009) entre os dois países. A primeira delegação brasileira acaba de voltar de Cabul e os ministros afegãos de Minas e da Agricultura programam visita oficial ao Brasil em 2011.

O Brasil pode ajudar no processo de paz?
Nossa relação com o Brasil não será à custa da relação com a Otan. Mas o Brasil pode ter a chave para estabilizar o Afeganistão, por sua posição no cenário mundial, por sua experiência no desenvolvimento e na redução da pobreza, por sua política externa e o papel na ajuda a outros países sub-desenvolvidos, especialmente na África. O Brasil não é somente um líder regional, mas global. E nós apoiamos que o país ocupe uma vaga permanente no Conselho de Segurança da ONU.

A aproximação do Brasil com países islâmicos, como o Irã, tem alguma influência?
De forma alguma. Nossa opção pelo Brasil é totalmente independente. Mas acreditamos que o Brasil tem um esforço positivo e construtivo nas relações internacionais, por seu comprometimento na cooperação Sul-Sul e com os países menos desenvolvidos. O presidente Hamid Karzai, em um de seus discursos, certa vez mencionou inspirar-se no exemplo do presidente Lula e em como um homem que veio da pobreza se tornou uma personalidade reconhecida mundialmente.

* Entrevista publicada, em parte, na edição impressa do Estado em 20/10/2010