Antes dos ataques à Embaixada dos EUA e à sede da Otan, em Cabul, terroristas fizeram contato com grupo no Paquistão
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Antes dos ataques à Embaixada dos EUA e à sede da Otan, em Cabul, terroristas fizeram contato com grupo no Paquistão

adrianacarranca

13 Setembro 2011 | 19h59

Citando várias fontes diferentes, jornalistas afegãos informavam em suas páginas na Internet, blogs e no Twitter sobre evidências de que a autoria dos ataques contra a Embaixada dos EUA e o quartel general da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), hoje, em Cabul, era de responsabilidade da rede Haqqani, grupo baseado no Paquistão e supostamente aliado do Taleban. Os terroristas teriam feito contato por telefone com o comando do grupo no Paquistão antes de iniciar os ataques. “Temos evidências suficientes em mãos para afirmar que a rede Haqqani está por trás dos ataques de hoje (em Cabul). E eles estão por trás do ataque com um caminhão bomba contra uma base americana em Wardak”, disse um agente de segurança afegão ao repórter Bilal Sarwary, da BBC.

O fato é que a insurgência no Afeganistão já não é coesa. E isso é um perigo. Há hoje muitos grupos envolvidos na insurgência afegã, como a rede Haqqani, o recente Taleban paquistanês (independente do grupo afegão) e o Hezb Islami, de Gulbudin Hekmatiar, um ex-comandante mujaheddin que lutou contra os soviéticos com armas e treinamento da CIA, recebidos via serviço secreto do Paquistão, o ISI, e protagonizou a mais sangrenta batalha, em Cabul, no subsequente conflito civil contra as forças do tajique Ahmad Shah Massoud.

Enquanto as forças de coalizão se ocupavam dos Taleban – para não dizer de Saddam Hussein no Iraque, para onde o dinheiro e os esforços militares dos EUA se voltaram em 2003 – esses grupos se fortaleceram no Paquistão na última década sem que nada – ou quase nada – fosse feito. Muitos deles surgiram ainda na época da luta contra os soviéticos sob a tutela do ISI, mas hoje estão se tornando muito mais independentes e realizando uma série de ataques contra o próprio Paquistão – hoje mesmo, o Taleban paquistanês atacou um ônibus escolar, matando quatro crianças e o motorista, em represália contra líderes tribais que se uniram para combater a presença dos militantes, em ascensão, nos arredores de Peshawar – estive lá em maio e o clima já era bem tenso.


Mas os EUA continuam negligenciando o país vizinho, que vive uma profunda crise interna depois da morte de Bin Laden em uma operação secreta americana na cidade paquistanesa de Abbottabad. O governo civil, tido pelos paquistaneses como ineficiente e corrupto, preferiu deixar tudo nas costas dos militares, que se achavam no controle, mas foram desmoralizados e humilhados pela operação americana que não conseguiram sequer prever. Ao mesmo tempo, têm tido dificuldades em lidar com os próprios militantes que criaram. A população já miserável, enquanto isso, empobrece mais e mais – a instabilidade política e a violência afugentam investidores estrangeiros para bem longe. Isso ajuda a fazer do Paquistão solo fértil para o terrorismo. E não se pode esquecer que se trata de uma potência nuclear.

O país recebeu na última década mais de U$ 20 bilhões dos cofres americanos para “ajudar” os EUA a combater o terrorismo. Cortar a assistência agora, com tantas redes terroristas se fortalecendo dentro do país, não é uma decisão fácil – significaria menos recursos para o combater esses insurgentes que têm um forte apelo antiamericano, e com quem os EUA terão fatalmente de lidar mais tarde.

Os EUA podem até usar a desculpa da morte de Bin Laden para deixar o Afeganistão. Mas a pergunta é: o que farão com o Paquistão?