“Brasil deve usar Olimpíadas 2016 para reduzir desigualdades”, diz Obama
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“Brasil deve usar Olimpíadas 2016 para reduzir desigualdades”, diz Obama

adrianacarranca

10 Novembro 2009 | 18h38

Auma Obama é uma mulher cativante. Tive a chance de conversar com ela, para uma entrevista publicada pelo Estado, durante evento esportivo em São Paulo e saí de lá convencida sobre o poder para a transformação social. Acadêmica, formada em letras na Alemanha, com PhD em linguística, fluente em inglês, alemão, swahili e luo, idioma da tribo onde nasceu, e ativista social, a irmã do presidente americano Barack Obama trabalha para incluir crianças e jovens dos países mais miseráveis da África, entre os quais a Ruanda e o Congo, usando atividades esportivas como ferramenta.

Vaidosa com seu cabelo rastafári, essa queniana que esconde a idade veio ao Brasil mostrar o trabalho que faz como consultora da ONG Care e diretora da Rede Esportes para Mudança Social.

Filha de Barack Hussein Obama Sr. com a primeira mulher, Auma conheceu o caçula quando ele lhe escreveu após a morte do pai, em 1982. Os dois se encontraram em Chicago e, mais tarde, ela o acompanhou à Kogelo, o vilarejo natal dos Obama, no Quênia, como conta Barack em seu livro Dreams from My Father (A Origem dos meus Sonhos, no Brasil). Auma participou intensamente da campanha do irmão e ouviu dele agradecimento especial no discurso da vitória. Auma mesmo evita falar no irmão.

Veja aqui a íntegra da entrevista:

O que você achou do Rio vencer Chicago para sediar as Olimpíadas 2016, apesar do lobby do presidente Barack Obama?
(Risos) É uma competição, então, só nos resta parabenizar o vencedor.

Alguns avaliam que o Rio e o Brasil não mereciam sediar a Copa do Mundo 2014 e as Olimpíadas por causa da violência e corrupção…
Aos críticos eu diria que, uma vez escolhido o Rio para sediar a Copa e os Jogos, eles devem agora canalizar sua energia para garantir que os dois eventos tragam benefícios de longo prazo para o Brasil. Sobre corrupção… Veja, as regras já existem e estão aí, só não são cumpridas, por isso se chama corrupção. Então, condicionar os investimentos a mais leis e regras não vai prevenir a corrupção e acho que tira o foco daquilo que importa, que é o esporte. O que o governo brasileiro tem de fazer agora é concentrar os esforços para provar ao mundo que está preparado para sediar um evento desse porte e aproveitar os investimentos para trazer benefícios de longo prazo ao País.

Como?
O Brasil é uma nação de amantes do esporte. Nos vemos o que acontece nos jogos de futebol, quando todos se juntam nos estádios e as desigualdades desaparecem. Quando se trata de esporte, o Brasil se torna uma só nação. E um evento internacional desse porte aumenta a auto-estima das pessoas, motiva crianças, jovens, adultos, comunidades inteiras. Agora, o que não podemos é criar uma grande expectativa e depois do evento tudo voltar ao normal. Se o governo for esperto, irá canalizar esses investimentos para reduzir as desigualdades. O esporte é isso: participação e inclusão. Entidades de base que trabalham diariamente com esportes e as crianças e jovens das comunidades carentes devem ser envolvidos na organização. Primeiro, porque eles vivem na pele a carência dos investimentos em esporte e sabem o valor que isso tem. Depois, podem encontrar soluções para que os milhões a serem investidos nos Jogos sejam destinados a infra-estrutura, que mais tarde poderá ser colocada à disposição das comunidades.

Por que trabalhar com esportes?
Porque nós precisamos atrair as crianças e garantir que eles continuem voltando e o esporte é uma excelente ferramenta para isso. O atrativo é a garantia de poder jogar e brincar, o que é um luxo para muitas crianças pobres, sem espaço nas comunidades. Com isso, conseguimos que passem os dias com a gente. A partir daí criamos um vínculo e eles próprios começam a se transformar. Passam a cuidar da própria saúde, por exemplo. Meninos de rua que atendemos largaram as drogas porque queriam melhorar sua performance no esporte. As famílias passam a vir aos jogos, então, é uma forma de engajar toda a comunidade e acabamos unindo esses eventos esportivos a palestras e campanhas sobre assuntos como HIV. Devagarinho vamos mudando a vida deles e não há nada com maior potencial de transformação economicamente tão eficaz quanto o esporte. Para música, você precisa de instrumentos. Para teaatro, de um espaço adequado e audiência. No esporte, principalmente o futebol, tudo o que você precisa é uma bola de plástico.

A parcela do orçamento público destinada aos esportes deve ser obrigatória, como são saúde e educação no Brasil?
Seria uma legislação difícil de seguir. Mas, acho que os governos devem acordar para o fato de que o esporte é uma ferramenta de educação e saúde.

Como é ser uma Obama hoje?
A minha vida mudou completamente. Vamos ser honestos, você não estaria aqui me entrevistando se eu não fosse uma Obama… Então, tento canalizar essa atenção toda e a visibilidade que passei a ter para o meu trabalho. Por outro lado, é uma responsabilidade muito grande porque onde quer que eu vá, as pessoas querem ouvir a minha opinião e eu acabo fazendo papel de porta-voz das organizações que represento. E isso é complicado, então, eu tento controlar o número de entrevistas.

Como foi para você ver Barack Obama chegar à presidência dos EUA?
Eu não gostaria de responder perguntas nessa linha. O que isso tem a ver com meu trabalho?

É o primeiro afro-descendente a assumir a presidência da nação mais poderosa do mundo. Isso tem a ver com direito de igualdade, oportunidade, desenvolvimento…
É, nesse sentido, eu concordo com você. O meu irmão é um exemplo de que, se você trabalhar duro e se preparar, pode ser o que quiser, até presidente dos EUA. Essa mensagem é muito poderosa, um estímulo grande para as crianças e jovens pobres do mundo inteiro.

Como é a sua relação com o presidente Obama?
Como a de quaisquer irmãos. Ele está lá, trabalhando, enquanto eu estou dando essa entrevista. Às vezes nos telefonamos. Outras nos visitamos. Somos irmãos.

Ele apoia o seu trabalho?
Claro. Muito. Assim como eu, Barack sabe que as crianças são o futuro de uma nação, coisa que muitos adultos se esquecem.

De onde vem essa inspiração dos Obama para mudar o mundo?
Meu pai era um homem de muitos princípios, que trabalhou para o governo no Quênia e viu muitas coisas erradas. Então, eu cresci acompanhando as frustrações dele, mas, ao mesmo, tempo vendo-o manter firmemente suas convicções e nos encourajando a fazer o mesmo. Era um homem de grande caráter, que tratava a todos de forma igual, fosse um governante ou morador de rua. Ele dizia: Não se deve avaliar um livro pela capa.