Colômbia tem a maior população de deslocados do mundo, por causa dos conflitos
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Colômbia tem a maior população de deslocados do mundo, por causa dos conflitos

adrianacarranca

12 Setembro 2014 | 14h09

Os conflitos na Colômbia já obrigaram 5,7 milhões de colombianos a deixar suas casas, fugindo da violência dos grupos armados. É a maior população de deslocados do mundo, segundo o Alto Comissariado da ONU para Refugiados (Acnur). A Síria vem em segundo lugar, com 2,9 milhões de deslocados internos.

É um conflito antigo, o colombiano. Mas nem por isso menos ativo. Eram 4,9 milhões de deslocados em 2012. Em dois anos, quase 1 milhão de pessoas engrossaram as estatísticas. Pessoas que muitas vezes fogem deixando tudo o que têm para os criminosos.


Embora o índice de homicídios seja o menor desde os anos 90, com 30,8 mortes por 100 mil habitantes, a Colômbia ainda está entre os dez países com as maiores taxas desse crime. Enquanto a capital, Bogotá, celebra os menores índices, cidades como a portuária Buenaventura, no Valle del Cauca, tem o dobro da média nacional de homicídios.

É de Buenaventura a refugiada Dina Vensa, que fugiu há pouco para o Brasil com o filho, de 17 anos, após o cunhado, da mesma idade, ser morto, segundo ela, por guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) envolvidos com o narcotráfico. Sabia que ela e o filho seriam as próximas vítimas. Além dos deslocados internos, a violência já obrigou 400 mil colombianos a buscar refúgio fora do país.
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Fundadas em 1964, as Farc são a guerrilha há mais tempo em operação. E a mais exposta. Desde 2012, o governo colombiano negocia a desmobilização das Farc em Cuba, mas os conflitos na Colômbia envolvem dezenas de outros grupos: paramilitares, narcotraficantes, grileiros de terras e outros criminosos comuns.
Para expulsar guerrilheiros de esquerda, paramilitares de direita promoveram uma série de massacres, desaparecimentos forçados, assassinatos. A desmobilização de 30 mil deles ocorreu no governo do ex-presidente Álvaro Uribe, sob promessa de não serem presos. A lei mudou em 2006 para a pena máxima de oito anos, mas somente alguns deles foram condenados. Muitos se envolveram com o narcotráfico.
A face das principais vítimas desses grupos na Colômbia é negra, pobre e do sexo feminino. Mais de 80% dos que tiveram de deixar suas casas no país são mulheres. A metade delas diz já ter sofrido algum tipo de violência por parte de grupos armados. Os crimes contra mulheres incluem sequestro, tortura, estupro, escravidão sexual, assassinatos.

“A violência afeta as mulheres particularmente na Colômbia. Os estupros, os esquartejamentos se tornaram arma de guerra para demarcar território e servem para humilhar a gangue rival”, disse por telefone a colombiana Gloria Amparo Arboleda Murillo (acima), da ONG Rede Borboletas. Ela trabalha na defesa das vítimas do conflito armado em Buenaventura, que abriga o maior porto da Colômbia e é disputada pelos narcotraficantes. Somente no primeiro semestre deste ano, 11 mulheres foram mortas na cidade.

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A Rede Borboletas é a ganhadora do Prêmio Nansen para Refugiados 2014, espécie de Nobel humanitário, anunciado hoje em Genebra pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur).

São mulheres como Luz Dary Santiesteban (acima), forçada a fugir de Punt Ardita, inserido na floresta da província de Choco, após um ataque de um grupo armado contra seu vilarejo. Queriam expulsar a população de lá e tomar suas terras. Luz recomeçou a vida com os quatro filhos vendendo galinhas em La Gloria, um bairro afro-colombiano de Buenaventura, com barracos de madeira e sem água canalizada , onde se tornou líder comunitária. Descontentes com o que fazia, os criminosos passaram a intimidá-la. Um dia, invadiram sua casa e a violentaram. Antes de sair, prometeram voltar e fazer o mesmo com a filha de 10 anos. “Você pode reconstruir a vida. Mas nunca esquece aquele momento”, diz.

Dessa vez, porém, ela decidiu não fugir. A forma que Luz encontrou de fazer as pazes com o passado foi unindo-se a mulheres em situação semelhante. São elas que formam a Rede Borboletas. As voluntárias percorrem os bairros mais perigosos de Buenaventura oferecendo às vítimas da violência cuidados médicos e psicológicos, e orientação sobre como denunciar os criminosos. Embora não tenham a proteção especial do governo, a visibilidade que ganharam com o trabalho em rede e a denúncia sistemática dos criminosos à Justiça serviu-lhes de escudo, ainda que frágil. Nos últimos quatro anos, mais de 1 mil mulheres passaram pela ONG. “Só o fato de o governo admitir a gravidade da situação em Buenaventura e passar a registrar os assassinatos, antes anônimos, já é um avanço para nós”, disse Glória.

Criado em 1994, o Prêmio Nansen reconhece o trabalho de organizações que lidam com refugiados. A ONG recebe R$ 100 mil para financiar um projeto que complemente seu trabalho.