Os cristãos do Quênia e o menino de Jesus
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Os cristãos do Quênia e o menino de Jesus

adrianacarranca

08 Abril 2015 | 21h08

Cada vez que um novo massacre acontece na África, como o ataque do grupo somali Al Shabab que deixou 147 cristãos mortos em uma universidade do Quênia, nos perguntamos por que o mundo ignora os mortos africanos. Por que nenhuma hashtag se tornou tão viral quanto #jesuischarlie, usada aos milhões após o ataque contra a sede do jornal satírico francês Charlie Hebdo, que deixou 17 mortos? Pelo menos 3 milhões de pessoas foram às ruas em solidariedade às vítimas do ataque em Paris. Por que a opinião pública não reagiu da mesma forma quando, na mesma semana, 2 mil nigerianos foram mortos pelos terroristas do Boko Haram?

Em um artigo do espanhol El País, que menciona análise de Jacoba Urist na The Atlantic, a distância geográfica é apontada como um dos motivos. Tendemos a ser menos solidários com o que ocorre em um lugar distante, num contexto que nos é pouco familiar ou desconhecemos, com pessoas com as quais não nos identificamos. Não enxergamos neles nós mesmos.

Mas o que dizer, então, quando a tragédia está bem aqui, do nosso lado, como a morte do menino de Jesus, o Eduardo, filho de Maria e José, abatido aos 10 anos com um tiro na cabeça, na véspera da sexta-feira santa? O tiro foi disparado da arma de um policial, durante operação no Complexo do Alemão, um conjunto de favelas na zona norte do Rio. Por que a hashtag #PaznoAlemão, criada pelos moradores, não se tornou viral? Por que os que fizeram ecoar o panelaço de suas janelas e varandas não se uniram aos que ali vivem e, como eles, hastearam bandeiras brancas em protesto contra a violência que no Brasil mata mais do que em qualquer zona de guerra?


Talvez porque essas mortes ocorram num lugar tão distante e pouco familiar quanto Quênia ou Nigéria. Mais de 80% dos 56 mil assassinatos no Brasil em 2012 ocorreram nas favelas e periferias, nos guetos onde o Brasil é mais África –  77% dos mortos eram negros, segundo a Anistia Internacional.

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Subi o Complexo do Alemão, dominado pelo tráfico, em 2009. Comigo estava o jornalista sudanês Daoud Hari, que escapou de um ataque contra seu vilarejo quando a guerra entre muçulmanos e cristãos no Sudão ganhava ares de genocídio. No ataque, ele perdeu o irmão caçula. Na laje de uma casa, no ponto mais alto do Alemão, de onde se podia avistar todo o conjunto de favelas, ele disse: pelo jeito, todo lugar pobre tem muitas pipas e muitas armas. Passamos um dia inteiro no complexo. Não vimos um policial sequer, nem mesmo à distância (na ocasião, o projeto de UPPs ainda não existia). Os traficantes sabiam da nossa presença. Mais do que isso: eles haviam “autorizado” nossa entrada no complexo. Eles eram a autoridade nas vielas do morro, onde viaturas, ambulâncias, carros de bombeiros, caminhões de lixo não chegavam – não só o tráfico impedia o acesso do poder público, mas a arquitetura improvisada e o descaso. O Estado não existia. A única recomendação de segurança que tivemos foi: “se a polícia subir o morro, sai de perto das janelas e corre para dentro, porque eles chegam atirando”.

Em 2010, com ajuda das Forças Armadas, a polícia retomou o controle das áreas dominadas pelo tráfico. Oito UPPs começaram a funcionar no Complexo do Alemão. Um teleférico, para levar os moradores ao topo do morro, foi inaugurado com fanfarra pelo governo. Outras obras públias foram prometidas. Moradores comemoraram a debandada dos traficantes.

Quatro anos depois, o narcotráfico voltou a reinar e moradores pedem a retirada dos policiais. O que deu errado? Há questões evidentes como recursos insuficientes e falta de treinamento adequado da polícia. O Ministério Público registrou nos últimos dois anos mais de mil denúncias de policiais sobre as condições de trabalho precárias nas UPPs.

Mas não só isso. Por que, em quatro anos, os policiais não conseguiram conquistar a população local? Nos relatos de moradores, fica claro que as UPPs continuaram sendo um corpo estranho dentro das comunidades e os policiais, vigilantes distantes. Nunca houve integração real entre eles, não se construiu uma relação de confiança com a população, mas de medo. Houve constantes denúncias de violência policial, abuso de poder e comportamento excessivamente repressivo, que em nada lembram o conceito do policiamento comunitário. A polícia continuou a subir o morro “atirando”, como me disse aquele morador em 2009, antes da chegada das UPPs.

Essa relação fica clara na reação do comando das UPPs aos recentes acontecimentos no Complexo do Alemão. No lugar de melhorar o policiamento e a relação com aqueles a quem deve proteger, a polícia se protege. Depois das mortes e protestos do fim de semana, o major Marcelo Cortage declarou à Folha que substituirá os contâiners onde funcionam as unidades no morro (das quais os policiais raramente saem) por cabines blindadas, e criará “pontos de fortificação, que irão funcionar como trincheiras” no Alemão. Onde está o caráter comunitário desse tipo de policiamento?
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Um policial que acompanhava à distância o protesto no Complexo do Alemão, no último domingo, disse esperar o dia em que os moradores sairão às ruas pedindo “fora traficantes”. Seu comentário foi um desabafo diante do grito dos manifestantes de “fora UPPs”. Mas a pergunta que ele deveria fazer é: por que a situação chegou a tal ponto que os moradores preferem estar sob o terror do tráfico do que a proteção da polícia?

Talvez porque os policiais não os vejam como cidadãos que devem ser protegidos, mas gente da qual a sociedade – ou a parcela que vive no asfalto, como dizem – deve ser protegida. Talvez porque os moradores vejam nos olhos desses policiais a mesma estranheza, distanciamento e indiferença com que enxergamos a África.

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