Cruz Vermelha recruta brasileiros para atuar em zonas de guerra
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Cruz Vermelha recruta brasileiros para atuar em zonas de guerra

adrianacarranca

25 Maio 2015 | 10h51

CICVFoto: Gherardo Pontrandolfi, diretor global de recursos humanos do CICV. Crédito: Fabio Serfaty/CICV

O aumento do número e conflitos em todo o mundo e a exigência de operações cada vez maiores e mais complexas para garantir o acesso da ajuda humanitária a territórios dominados por grupos como o Estado Islâmico levou o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) a buscar profissionais no Brasil. Na quinta-feira, o diretor global de recursos humanos do CICV, Gherardo Pontrandolfi, desembarcou em São Paulo com a missão de convencer mais brasileiros a ingressar no trabalho humanitário.

Por não estar envolvido em guerras, o Brasil é percebido no exterior como um país neutro, o que ajuda a garantir a percepção de neutralidade da organização em campo, segundo Pontrandolfi, que trabalha já 16 anos na organização e já chefiou equipes em países como Afeganistão, Sudão e Kosovo. Brasileiros são aceitos com mais facilidade e correm menos riscos do que americanos e europeus, que se tornaram alvos de terroristas e grupos armados nos países onde seus governos têm envolvimento político ou militar, como Síria e Iraque.

É a primeira vez que o esforço de recrutamento é feito no Brasil. O CICV tem hoje 2600 funcionários estrangeiros, dos quais 1700 em trabalho de campo em 79 países, a maioria em situação de conflito – apenas 14 dos funcionários são brasileiros.


A seguir trechos da entrevista:

Por que recrutar no Brasil?

Um dos motivos é que o CICV é uma organização global, que opera de forma independente e neutra. Para nós, não apenas agir dessa forma, mas sermos percebidos assim é crucial. Dependemos disso para ter acesso às zonas de conflitos. Por isso, precisamos ter em nossas equipes pessoas de todas as nacionalidades. Se trabalharmos apenas com colegas vindos de culturas específicas, principalmente dos países da Europa, de onde é a maioria dos funcionários, ou dos EUA, continuaremos tendo problemas na percepção de neutralidade e até no envio desses profissionais para o campo. Os brasileiros têm o benefício de vir de um país pacífico, sem envolvimento em nenhum conflito, e percebido de forma positiva. Brasileiros são bem-vindos em todas as partes e isso é uma vantagem muito grande.

Que qualidades o senhor vê nos profissionais brasileiros?

A primeira é a qualificação. Há universidades muito boas no Brasil, especialmente nas áreas que buscamos. Eles também têm conhecimento de línguas – saber inglês é pré-condição para trabalhar com o CICV. A boa qualificação e o fato de o Brasil ter uma imagem boa lá fora são pontos fundamentais, além de nossas ambições de termos uma organização verdadeiramente global. Mas há algo ainda mais importante: eu trabalhei com alguns dos colegas brasileiros no CICV e como chefe das operações o que eu mais apreciava neles era a capacidade de se adaptar a contextos e culturas diferentes. Os brasileiros respeitam os costumes nas sociedades em que estão inseridos, relacionam-se com os estrangeiros sem fazer julgamentos. Isso é fundamental, porque para o CICV é muito importante ser capaz de trabalhar com pessoas de diferentes culturas e ter a confiança delas. O que estamos buscando para nossa organização são pessoas com esse espírito verdadeiramente humanitário. E acho que os brasileiros, em geral, têm isso.

Como garantir a segurança das equipes em campo?

Essa é a pergunta mais difícil e importante de responder. Nós sempre temos de fazer um balanço entre riscos e efetividade. Nosso objetivo é prover ajuda sem intermediários, para garantir independência e neutralidade. Então, temos de ter acesso aos locais em combate. E chegamos muito perto das linhas de combate. Às vezes, temos de cruzá-las. Para isso, em lugares como Afeganistão ou Síria, temos colegas que não fazem nada além de manter contato com todos os grupos armados envolvidos nos conflitos, sejam exércitos oficiais ou grupos rebeldes, porque temos de assegurar que todos saibam quem somos e respeitem o que fazemos. Precisamos garantir que nossas equipes não sejam surpreendidas sob o fogo cruzado quando se movimentam de um campo a outro. Então, tentamos obter nos países em conflitos garantias de segurança para que nossos funcionários possam levar ajuda da forma mais segura possível. Além disso, nós treinamos nossos funcionários para trabalhar em situações de guerra. Por isso, não trabalhamos com voluntários não pagos, mas profissionais que ficarão conosco por longo tempo e ganharão experiência nessas situações, algo que só se pode obter em capo. Nosso contrato mínimo é de um ano.

Está mais perigoso mandar equipes para o campo?

Sim. Nós tomamos medidas para minimizar os riscos, e somos relativamente bem sucedidos nisso, mas não quero dar a impressão de que nada acontece conosco. Nós temos incidentes. É o outro lado da moeda de trabalhar em ambientes de conflito. Mesmo com o melhor treinamento, as melhores medidas, o melhor ambiente possível, há casos em que a ajuda humanitária não é bem-vinda e os agentes humanitários são alvo ou podem simplesmente estar no lugar errado na hora errada. Quem trabalha para o CVCV tem de aceitar isso. Conflito significa perigo. Por outro lado, é importante dizer que não estamos procurando por heróis destemidos ou pessoas em busca de aventuras. Queremos pessoas emocionalmente engajadas com o trabalho humanitário, motivadas pela preocupação com o outro e conscientes do perigo. Segurança para nós é crucial. A pior coisa que pode acontecer é um incidente que nos obrigue a deixar o lugar e suspender a ajuda à população.

Que mudanças o senhor percebe na natureza dos conflitos ao longo do tempo?

Os conflitos se tornaram uma praga e não vejo perspectiva de melhoras no curto prazo. Se você olhar para a história, na 2ª Guerra Mundial, tínhamos dois lados opositores, um bloco de países se opondo a outro. Já não há quase guerras assim. No lugar disso, temos muito mais conflitos disseminados por várias áreas e com a participação de grupos armados diferentes. Não se trata de operações militares de um ou outro estado e isso faz com que o nosso trabalho certamente seja muito mais complicado hoje do que nunca, porque temos de conhecer e ser conhecidos por todos esses grupos para podermos negociar com eles e, assim, garantir que as leis humanitárias internacionais, que devem ser seguidas por todos os envolvidos nas guerras, sejam cumpridas.

É possível negociar com grupos como o Estado Islâmico?

Estamos em partes do Iraque e Síria com delegações internacionais e colegas nacionais e também com as sociedades Crescente Vermelho locais. Temos obviamente contado com grupos armados e o Estado Islâmico é um deles. Não posso entrar em detalhes sobre como essas negociações se dão, mas posso dizer que o CICV está nestes países há anos e vem interagindo com os grupos armados ao longo do tempo. Ë claro que quando se trata de um grupo novo, é mais desafiador, porque a dinâmica que observamos neles é que, no começo, seus integrantes realizam ações muito radicais, porque querem se tornar conhecidos da comunidade internacional. Mas, quando um grupo armado passa a controlar um naco do território, com o tempo ele tem de prover serviços para a população local. É aí que entramos. Para nós, isso é uma oportunidade de nos engajarmos com eles e começarmos a negociar bases humanitárias.

Há algum lugar onde o CICV não consegue operar hoje?

Não países inteiros. Mas no Iraque, Síria, Afeganistão temos áreas que não podem ser acessadas por funcionários estrangeiros. E isso muda dia a dia, porque a natureza dos conflitos é muito instável. Fronteiras surgem e desaparecem, grupos armados se movimentos, novas estruturas de comando se estabelecem. Ter acesso às zonas de conflito é uma luta constante e diária.

Como é o treinamento para trabalhar em zonas de conflito?

Além da parte teórica em Genebra ou na Colômbia, no caso de pessoas recrutadas na América do Sul, e de treinamentos específicos para os que visitarão prisões ou trabalharão com vítimas desaparecidas, temos um centro de formação em um campo nos arredores de Genebra, na Suíça, onde fazemos simulações de uma situação de guerra. Você entra num cenário de um país imaginário em conflito, há tiros (não com balas reais, é claro) e explosões. Funcionários do CICV agem como atores, na maioria das vezes repetindo situações que já viveram em realidade, como sequestros, o que ajuda a tornar o treinamento mais real. Enquanto isso, um grupo de observadores avalia como as pessoas reagem a essas situações e ensinam como reagir corretamente. É uma parte muito importante do treinamento porque é isso o que enfrentarão em campo e temos de trazê-los o mais próximo possível da realidade para que estejam preparados.

No Afeganistão, quatro funcionários do CICV foram sequestrados. Dias depois, eles foram liberados e o Talibã pediu desculpas publicamente, alegando não saber que eram funcionários do CICV. Como é negociar e manter relações contínuas com grupos que, em última instância, são responsáveis pelas violações contra as vítimas que a organização atende?

É uma pergunta muito importante. Dialogar com grupos armados, e você nomeou um grupo importante deles no Afeganistão, é parte do nosso trabalho. Se queremos prover assistência e proteção para vítimas de conflitos armados, obviamente temos de negociar com todos os envolvidos neste conflito. Faz parte do nosso mandato.  Não poupamos esforços para convencer todas as partes dos conflitos de que eles devem poupar civis e agentes humanitários de ataques e permitir acesso às áreas afetadas de forma segura. Obviamente, não temos outro meio de fazer isso se não dialogar. Nós não somos um exército, não podemos impor nada a ninguém.

Cerca de 80% do sustento do CICV vêm de governos, muitas vezes envolvidos nos conflitos. Como garantir a neutralidade e a independência da organização?

É muito importante que as pessoas entendam o que estamos fazendo em campo. Somos muito transparentes sobre nossas ações e gastos. Tudo é tornado público no site da organização. Não escondemos nosso orçamento ou as fontes de financiamento de ninguém. É muito importante também deixar claro que não cumprimos ordens de nenhum país sobre o que devemos fazer em campo e como. Nós fazemos o que é melhor para a população civil. Isso nos dá também flexibilidade, que outras organizações não têm, de financiar operações que estão fora do foco de atenção da comunidade internacional – países como República Centro Africana, Mali, Sudão do Sul. Quando há atenção da mídia, os fundos aparecem e outras organizações também estarão em campo fazendo o trabalho. Mas o CICV, por ser financiado por muitos países em todo o mundo, pode estar onde já não há atenção da mídia. Nossa ambição é conseguir que todos os países no mundo ajudem a financiar as operações do CICV, para termos ainda mais independência e flexibilidade.

O governo brasileiro contribui com a organização?

Não. Houve ajuda apenas em 2010, para o atendimento das vítimas do terremoto no Haiti. Mas seria muito bem-vindo o financiamento do Brasil, por ser um país neutro.

A Cruz Vermelha no Brasil se envolveu em um escândalo de corrupção. Como o senhor responde a isso?

As sociedades nacionais do Crescente Vermelho ou Cruz Vermelha são entidades independentes, assim como a Federação, com financiamento e recrutamento próprios. Elas compõem a maior organização humanitária do mundo e é claro que é difícil controlar todas essas entidades, sob o guarda-chuva do CICV, justamente porque são independentes. Mas não podemos nos eximir dos erros que cometem porque operamos sob o mesmo símbolo e esses escândalos afetam a nossa imagem. Então, o CICV está ciente dos problemas na Cruz Vermelha local e contribui com a federação para que esses problemas sejam esclarecidos e solucionados o mais rápido possível.