Depois de atentado que matou colega, jornalistas afegãos decidem boicotar o Taleban
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Depois de atentado que matou colega, jornalistas afegãos decidem boicotar o Taleban

adrianacarranca

23 Março 2014 | 08h04

Sardar Ahmad era um jornalista dedicado que, como eu e muitos colegas afegãos, acreditava genuinamente no papel da profissão em transformar o país e o mundo. Nos muitos anos de cobertura da guerra no Afeganistão, vi muitos deles morrerem, desaparecerem, perderem o rumo de suas vidas diante da fatalidade de uma guerra estrangeira que escolheu seu país como campo de batalha. Mas a morte de Sardar tocou a todos mais profundamente.

Ele foi morto a tiros com a mulher e dois dos três filhos (na foto) – o caçula continua internado em estado grave – durante um jantar em família para celebrar a chegada do novo ano persa (nowruz) em um atentado do Taleban contra o Hotel Serena, um cinco estrelas cuja luxuosidade me parece obscena para os padrões locais. Não costuma ser frequentado por afegãos, mas por estrangeiros abastados como diplomatas e funcionários de empresas de segurança que só fizeram enriquecer com a guerra afegã. Mas aquela era a primeira noite de um novo ano e Sardar queria proporcionar à família algo especial.

Não me parece razoável que exista um limite aceitável da violência – uma morte é sempre irreparável. Mas, para quem vive essa realidade cotidiana, os limites são outros. Morre-se nos conflitos e os afegãos aprenderam a aceitar isso. No início da ofensiva liderada pelos EUA, que se tornaria sua mais longa guerra, os afegãos estavam até mesmo dispostos a admitir as mortes como um dano colateral de uma campanha que libertaria seu país do regime medieval e brutal do Taleban e o transformaria em uma versão asiática do sonho americano.


No ano em que os EUA se preparam para deixar o país, ponto fim à guerra (para americanos, embora não para os afegãos), o Taleban está apenas mais forte e bárbaro, tendo adotado táticas da Al-Qaeda para espalhar o terror entre a população. Antes de 2001, não havia homens-bomba afegãos e o suicídio era uma saída considerada inaceitável, um pecado, uma vez que só Alá pode dar ou tirar a vida, de acordo com sua crença. Não havia um terrorista afegão nos aviões que atingiram as Torres Gêmeas e o Pentágono no 11 de Setembro; não havia terroristas afegãos, ponto. Ao contrário disso, os afegãos sempre foram as vítimas da brutalidade de invasores: britânicos, soviéticos, americanos, só para citar os mais recentes. O Grande Jogo, a Guerra Fria, a independência do Paquistão da Índia, a luta contra o terrorismo global foram guerras travadas no território afegão por potências com agendas que nada tinham a ver com o Afeganistão.

Em todos esses anos, a barbárie fez parte do cotidiano afegão, mas ainda assim havia no inconsciente coletivo um limite do que era considerado aceitável ou suportável, regras não ditas e uma elas era matar deliberadamente crianças. Muitas delas foram pegas no fogo cruzado dessa guerra sem fim, nos muitos atentados a bomba – estavam no lugar errado na hora errada. Mas, imaginar que atiradores miraram suas pistolas na direção das duas crianças da foto acima (desde os atentados, não consigo tirar seus olhares da memória) e deliberadamente apertaram o gatilho para matá-las levou a guerra, na visão dos afegãos, a um patamar de barbárie que eles não podem e não estão dispostos a aceitar. Não há nada mais a ser discutido, preservado, defendido, lamentado. Eles chegaram no fundo do poço. Conversei com muitos colegas nos últimos dois dias e restou neles apenas um sentimento de derrota. Os afegãos se sentem traídos, abatidos, sem esperança. Não resta mais nada. Eles estão arrasados.

Com a morte de Bin Laden e o cartão verde para bombardear os esconderijos da Al-Qaeda na fronteira com aviões não tripulados (drones), a Casa Branca não vê mais por que ficar – e continuar perdendo soldados a um custo político altíssimo.  Mas o que os EUA ignoram é que eles falharam com os afegãos e, embora não seja possível prever os efeitos disso no longo prazo, a história serve de alerta. O embrião da Al-Qaeda foi gerado no Afeganistão depois que os jihadistas financiados pela CIA derrotaram os soviéticos e os EUA perderam o interesse no país, deixando-o para trás com milhões e milhões de dólares em armamento, o que levou a uma guerra civil e à ascensão do Taleban. Os jihadistas estrangeiros, enquanto isso, voltaram para casa treinados, fortalecidos e dispostos a fundar califados islâmicos na Ásia, África e em todo o Oriente Médio, fazendo florescer o terrorismo internacional.

A nova guerra, a miséria, a ignorância, a falta de esperança que prevalece no Afeganistão após mais de uma década de investimentos estrangeiros no país produziram dezenas, talvez centenas de terroristas afegãos que não existiam antes. Seus planos futuros são incertos.  Mas o mundo certamente não está mais seguro depois da guerra.

Os quatro terroristas que mataram Sardar Ahmad, sua família e outras sete pessoas tinham idades entre 19 e 23 anos e sabiam que iam morrer. Sua missão era atirar no maior número de pessoas antes de serem mortos pelas forças de segurança.

Reação. O grupo de jornalistas que correu para o hospital ao saber do atentado contra Sardar, apenas para receber a confirmação de sua morte, prometeu boicotar o Taleban por tempo indeterminado, recusando-se a escrever notícias relacionadas ao grupo, em uma medida simples, mas emblemática. “O Taleban promove estes ataques, que são injustificáveis, com o único propósito de ter cobertura de imprensa e projetar o terror entre afegãos. Por isso, os jornalistas no Afeganistão, em uma decisão coletiva, decidiram boicotar a cobertura relacionada ao Taleban”, dizia o comunicado assinado por cerca de 50 colegas, no qual também pedem ao Taleban que explique qual a sua justificativa para atirar em “crianças inocentes à queima roupa”. É quase como se aceitassem a morte do colega, mas não a de seus filhos, não durante um jantar em família. “É estranho desejar isso, mas eu queria que você tivesse morrido no exercício da profissão. Eu queria que o tivessem matado primeiro, que você não tivesse sido obrigado a ver seus filhos morrerem antes de você”, escreveu um amigo jornalista.

O Taleban assumiu a responsabilidade sobre o atentado, mas no comunicado distribuído aos jornalistas não menciona a morte de crianças ou mesmo de afegãos. No lugar disso, afirma que o atentado “metódico” matou 22 (exagerando o número, como sempre o faz) “invasores estrangeiros e fantoches de oficiais de alto-escalão.”

Sardar era um jornalista querido pelos amigos, competente e combativo. Participou da campanha pela libertação de colegas da Al Jazeera detidos no Egito e contra a morte de outros jornalistas afegãos antes dele. Ao contrário de muitos que tentam desesperadamente emigrar, amedrontados com a volta do Taleban e a falta de perspectiva de um futuro melhor, Sardar não pretendia deixar o país.

Sardar tinha 40 anos. Sua última matéria foi sobre o leão Marjan, mantido por um empresário afegão no telhado de sua casa e encontrado quase morto por policiais, após denúncias de maus tratos, e levado ao zoológico de Cabul. “O nome Marjan foi uma homenagem ao famoso leão, parcialmente cego (após ser atingido por uma granada), que viveu no zoológico de Cabul tornando-se um símbolo da sobrevivência nacional do Afeganistão após atravessar golpes, invasões, guerra civil e o regime linha-dura do Taleban.”