Do front da guerra no Afeganistão: quem são os Talebans com quem o presidente Karzai negocia?
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Do front da guerra no Afeganistão: quem são os Talebans com quem o presidente Karzai negocia?

adrianacarranca

07 Fevereiro 2014 | 10h40

O comandante do Taleban Sayed Mohamed Akbar Agha me recebeu em Cabul em uma tarde ensolarada de maio de 2012. Com a barba muito longa e preta, o colete na mesma cor e o turbante em tons de cinza escuro, não se preocupava em esconder a identidade. Embora estivesse em prisão domiciliar, não eram soldados ou policiais os que faziam a segurança de sua mansão de dois andares, mas homens de sua milícia particular, entre eles dois filhos. A sala de paredes salmão era decorada com tapetes de motivos islâmicos, produzidos no vilarejo onde nasceu na Província de Kandahar, o berço do Taleban, e cortinas de cetim com pingentes de brilhante. Refletiam os raios de sol que invadiam a janela com vista para uma ampla piscina e jardim. Homens como Agha enriqueceram durante a década da guerra, desde a invasão dos EUA em 2001, com a venda de papoula para a produção de heroína, exportada para os mercados americano, europeu e asiático, que financia a insurgência e luxos privados como o casarão onde vive com as duas mulheres e sua prole – Palácios do Ópio, como os afegãos os chamam.

 

 


Foto: O carro de Agha e a fachada de sua mansão em Cabul

Levada por um de seus filhos na ponta de uma Kalashnikov, encontrei Agha no sofá bordado nos mesmos tons da cortina, pernas dobradas e os pés descalços sobre o estofado. Sentava-se como se estivesse no chão, como o faz quando se reúne com os anciãos de sua tribo. Agha é do mesmo clã Saldozai, da tribo dos Polpozai, de que faz parte o presidente Hamid Karzai. Há uma irmandade entre eles, apesar de opositores políticos – o que na lógica tribal afegã tem muito menos importância do que os laços de sangue.

Agha acabara de sair da prisão para ajudar a mediar negociações de paz com o Taleban, que estavam no início. Nossa conversa foi interrompida várias vezes por telefonemas em que parecia negociar a libertação de aliados presos em Kandahar. Dias depois, 470 prisioneiros escaparam da prisão de Sarposa, naquela província. Muitos deles, insurgentes perigosos acusados de organizar diretamente ataques contra as forças de coalizão lideradas pelos EUA no sul do Afeganistão.

As negociações de paz e a libertação de prisioneiros voltaram às manchetes essa semana, com a notícia de que o presidente Karzai vem mantendo negociações secretas com o Taleban. Que Karzai mantém conversas privadas com homens como Agha não é novo, tampouco as demandas dos insurgentes. Desde o início das negociações, quando me encontrei com Agha, os talebans exigiam a retirada completa das tropas americanas do país e a libertação de presos. Com respaldo dos EUA, foi formado então o Conselho de Paz, com a participação de outros comandantes do grupo, que como Agha já transitavam livremente pelos corredores do poder em Cabul, além de representantes de grupos étnicos, políticos, senhores da guerra. Desde então, seus integrantes menos alinhados com os talebans foram assassinados às dezenas e nunca se chegou a acordo algum.

Em junho do ano passado, Agha viajou a Doha, no Qatar, para inaugurar o novo escritório político do Taleban. Um representante da Casa Branca viajou algumas vezes a Doha para se reunir com ele e seu primo, que chefiam o escritório, mas a tentativa de avançar nas negociações foi novamente infrutífera – simplesmente porque a demanda dos radicais sempre foi a saída dos EUA e eles estavam fortes o suficiente, organizando atentados às dezenas, para barganhar. Frustrado com a mediação dos EUA, não é de se surpreender que Karzai esteja tentando negociar diretamente uma saída. Tampouco é de se espantar que, em meio a isso, esteja tentando adiar a assinatura de um acordo de segurança com os EUA, que manteria pelo menos 10 mil tropas americanas no país após 2014. Ou que tenha, como o fez na semana passado, anunciado a libertação de mais uma leva de insurgentes presos em Bagram, a ex-prisão militar americana passada à administração de Cabul em março. A retirada completa dos EUA e a libertação de prisioneiros do grupo sempre foram e continuam sendo as exigências dos talebans, que Karzai parece agora mais disposto a cumprir. Para ele, retomar boas relações com os talebans pode ser uma questão de sobrevivência – e não apenas política. 

As dúvidas sobre as negociações são de outra natureza.

Primeiro, se Kazai está de fato disposto a um acordo que instaure a paz e permita a seu sucessor governar em um ambiente relativamente estável – as eleições presidenciais estão marcadas para abril – ou se busca o apoio para manter forte influência na política após 2014, o que não seria possível sem o respaldo de uma força armada. Todos os seus opositores à frente de facções, a maioria definida por etnia, mantêm milicias próprias prontas para desafiar o governo central. São os mesmos que se degladiaram em uma guerra civil sangrenta após a retirada das tropas soviéticas. Dado o desgaste da relação entre Karzai e o presidente americano Barack Obama e o fato de que os EUA querem se livrar da responsabilidade sobre o Afeganistão, é improvável que o apoio que busca venha da Casa Branca. Por segurança, os EUA certamente tentarão influenciar os resultados das eleições de forma a deixar no poder um aliado , mas tudo indica que não seria mais alguém ligado a Karzai. Embora não esteja claro ainda quem terá o apoio dos EUA, o candidato favorito por enquanto é Abdullah Abdullah, o principal opositor de Karzai, que ficou em segundo lugar nas eleições de 2009 – votação mergulhada em um lamaçal de denúncias de fraudes que levaram Karzai ao segundo mandato. Há também Ashraf Ghani, ex-ministro das Finanças e agora opositor de Karzai, um acadêmico e tecnocrata que viveu nos EUA e tem boas relações com a Casa Branca.

Que Karzai pretende manter alguma influência na política após 2014, é certo. A nova mansão que o presidente está construindo para viver, grudada aos muros do palácio presidencial, é talvez o sinal mais visível, como mostrou Matthew Rosenberg, do New York Times. Há outros. Dois dos candidatos com chances de vencer as eleições são seu irmão mais velho, Qayyum Karzai – um homem de negócios obscuro, que certamente dependeria do caçula para governar -, Zalmai Rassoul, consultor de segurança e assessor mais próximo de Karzai, e o ex-ministro da Defesa do presidente, Abdul Rahim Wardak.

A outra dúvida importante é sobre se de fato os talebans com quem o presidente negocia têm algum poder de decisão e podem dar garantias reais de paz e estabilidade. Naquela entrevista, Agha me disse que o líder caolho do grupo, mulá Omar, está vivo e continua “atravessando a fronteira entre Paquistão e Afeganistão quando bem entende”. Agha se coloca como representante de mulá Omar nas negociações e diz que nada é feito sem a aprovação do chefe. Mas não existe qualquer prova disso, nem mesmo de que mulá Omar esteja vivo. Ele não é visto desde 2003, quando teria aparecido em uma mesquita em Quetta, do lado paquistanês da fronteira, segundo moradores locais. Todos os anos, o Taleban emite um comunidade atribuído ao líder, mas é certo que não tenha ele próprio escrito o documento, já que mulá Omar sempre foi analfabeto; nunca foram divulgadas gravações suas em áudio e vídeo, como ocorrera com Bin Laden, ou há pistas oficiais de seu paradeiro.

Os que chegaram mais perto do comando do Taleban na última década, como o jornalista Anand Gopal, que vive no Afeganistão desde o início da guerra e lançará em breve um livro sobre mulá Omar, desconfiam que o líder esteja em “prisão domiciliar” em Karachi, no Paquistão, mantido pelo serviço de inteligência paquistanês (ISI), que busca maior influência regional e um governo aliado no Afeganistão contra a arqui-inimiga Índia. Não é novidade para ninguém que o Paquistão se tornou santuário de terroristas do Taleban e seus aliados da Al-Qaeda – Bin Laden foi morto pelos EUA em Abbottabad, sede da Academia Militar do Paquistão, em 2011.

Aí paira outra dúvida importante sobre as negociações: o papel do Paquistão. O número 2 do Taleban, Adbul Baradar foi preso pelo ISI em Karachi, em 2010, quando se acreditava que ele estaria servindo de garoto-recado de mulá Omar e intermediando em nome do líder conversas com Karzai. Baradar foi mantido incomunicável desde sua prisão, apesar dos pedidos da Casa Branca e do presidente afegão de ter acesso a ele. O Paquistão é acusado de isolar a ala moderada do Taleban que estaria disposta a um acordo de paz direto com Karzai, sem a interferência paquistanesa, o que também ajuda a explicar por que as negociações vêm sendo mantidas em segredo, embora não sejam exatamente novidade.

Agha me contava naquela entrevista como tinha saudades de Bin Laden, em suas palavras, o jovem jihadista destemido que deixou a vida confortável de milionário para se juntar aos mujahedin afegãos, a quem o comandante Taleban se refere como “príncipe saudita”. “Estávamos juntos no front em Kandahar e lutamos contra os soviéticos até o último homem. Ele continua vivo na mente dos que se sentem oprimidos”, me disse Agha, nostálgico. Antes de o filho entrar na sala com sua Kalashnikov e anunciar o fim da entrevista, ele concluiu: “Se você olhar para a história, verá que os britânicos tentaram, os soviéticos também e, agora, os americanos, mas nenhum deles venceu nesse território. Os EUA não têm outra alternativa a não ser negociar. Somos um povo ingovernável.”

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Fotos: ADRIANA CARRANCA