Do front da guerra no Afeganistão: um amargo déjà vu
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Do front da guerra no Afeganistão: um amargo déjà vu

adrianacarranca

24 Janeiro 2014 | 13h42

A sensação é de um amargo déjà vu. A informação começa a aparecer, em pedaços, nas redes sociais. Procuro as páginas de colegas que podem estar no local dos acontecimentos. Será? Outro? De novo? Recebo sms, emails, mensagens de chat. “Você viu?” Há chamadas perdidas no meu celular. Minha mãe telefona: “Você conhecia esse restaurante?” Sim, eu conhecia. Abro os sites de notícias. Procuro entre as palavras os nomes de amigos e conhecidos, como  em um ritual macabro. Mas os mortos ainda estão sendo contados.

Foi assim com o lugar onde me hospedei na primeira viagem a Cabul, o Safi Landmark, explodido por oito suicidas meses após minha estadia, em 2008; o supermercado Finest, onde eu passava todas as manhãs para comprar algo para comer durante o dia de trabalho, alvo de um atentado que matou oito pessoas em janeiro de 2011, seis delas da mesma família; o Hotel Intercontinental, talvez o último resquício dos anos 1950 e 1960 em Cabul, anos de paz, quando turistas tomavam sol na piscina da cobertura com vista para a Hindu Kush e movimentavam o comércio de prataria e tapetes magníficos da Chicken Street. Eu gostava de terminar os dias de trabalho no salão de chá decadente, mas com boa Internet para uma jornalista, e não ia embora sem antes olhar a vista do topo: a silhueta das montanhas nevadas tocando o céu mais estrelado que eu já vi; Cabul aos seus pés, iluminada pelos candeeiros das casas. Nove homens-bomba invadiram o hotel em junho de 2011, matando 12 afegãos. Foi assim também com o hotel e restaurante nas margens do Lago Qargha, onde afegãos se reuniam com suas famílias nos fins de tarde e sábados de descanso, um lugar de rara tranquilidade a poucos minutos do centro caótico de Cabul. Em junho de 2012, terroristas invadiram o lugar e mantiveram reféns durante onze horas de confrontos com soldados afegãos, ao fim do que explodiram tudo. Eu tinha estado lá um mês antes.

Mas o último atentado, ao restaurante libanês La Taverna Du Liban, na semana passada, teve algo de mais trágico e melancólico. O La Taverna era um espaço de rara convivência entre estrangeiros e afegãos, em um lugar claramente segregado. Em meio a toda a miséria, os escombros, a violência, em meio a toda tragédia do Afeganistão, uma das coisas que mais me chocara em minha primeira visita, e nas seguintes, era a segregação de afegãos e estrangeiros no país.


Cabul vive um sistema de apartheid. Diplomatas, funcionários das organizações humanitárias e expatriados em geral moram em condomínios protegidos por muros altíssimos, arame farpado, blocos de cimento e seguranças armados atrás de barricadas de sacos de areia, quarteirões aos quais afegãos não têm acesso. Eles têm de desviar desse aparato caminhando pelo meio dos carros. Nas festas de estrangeiros, raramente há afegãos. Eles não frequentam a casa um de outro, raramente têm alguma relação fora do horário do expediente. Não se visitam nos casamentos, aniversários, nascimentos ou funerais, salvo raríssimas exceções. Vivem romances tão improváveis quanto fugazes, mas não assumem compromisso nem se casam. Sequer dividem a mesa dos restaurantes.

Fiquei chocada ao aprender que para entrar nos poucos restaurantes da cidade frequentados por estrangeiros era preciso provar ser um deles mostrando o passaporte, como um posto de imigração informal. E afegãos não eram bem-vindos no próprio país.

Certa vez fiz questão de levar comigo o jornalista afegão que havia me ajudado em um dia longo e desgastante de trabalho. Foi preciso pedir autorização para a sua entrada e ele foi sabatinado por homens armados na porta, numa das cenas mais humilhantes que vi. A mesma cena se repetiu quando convidei Wahida, uma afegã pobre e analfabeta, vítima de um atentado terrorista, que eu tinha entrevistado anos antes e pretendia rever, para um chá no jardim da pousada onde eu estava hospedada. Tive de ir à porta autorizar sua entrada e flagrei um guarda tentando expulsá-la com o cano de uma AK-47.

Os restaurantes de estrangeiros alegavam que o motivo para não receber afegãos era a proibição sobre a venda de álcool para muçulmanos. Fosse isso, que não vendessem álcool a ninguém. Mas aquela era uma desculpa esfarrapada. Quando convidados a visitar o escritório ou a casa de afegãos, estrangeiros não poderiam ser melhor recebidos. Eles fazem tudo para agradar os convidados. Até mesmo oferecer um copo de cerveja ou uma taça de vinho, comprados com dificuldade inimaginável para qualquer expatriado e mesmo quando eles mesmos não bebiam. Os afegãos estavam sempre prontos para se mostrar abertos e receptivos.

 

Um território neutro na guerra

A primeira vez que estive no Taverna du Liban sentei à mesa com um jornalista afegão, uma austríaca e dois indianos. Foi mais ou menos assim todas as vezes que voltei ao restaurante. Percebia-se logo que ali havia um clima diferente. Talvez por ser libanês, Kamal Hamade parecia conseguir fazer a ponte entre estrangeiros e afegãos, muçulmanos e cristãos. Seu restaurante era como um território neutro na guerra.

Havia portas de metal pesado e seguranças armados no hall de entrada, mas estava sempre aberto a todos. Foi no mínimo estranha a sensação de ver fotos de mesas e cadeiras reviradas, sangue e estilhaços no chão. Me lembrei o astral bom que tinha a casa, em grande parte pela mistura de gente, mas também pela hospitalidade de Kamal, sempre presente e sorrindo. Teimava em levar à mesa porções extra de falafel e o famoso bolo de chocolate, pequenos mimos que faziam com que os clientes continuassem voltando sempre. Servia vinho em pequenos copos de chá e cerveja em canecas de cappuccino, com espuma extra para ajudar no disfarce – que não enganava ninguém. Estrangeiros se sentiam acolhidos, afegãos achavam graça. Era um lugar de rara coexistência.

Na ultima sexta-feira, homens-bomba explodiram a entrada do La Taverna dando passagem a atiradores que foram matando um a um os que restavam vivos após a explosão. Kamal morreu ao tentar proteger os clientes, colocando-se na frente deles como um escudo humano.

No total, 21 pessoas foram mortas, entre elas 13 estrangeiros. Explosões raramente provocam reações no Afeganistão, como se fossem parte de um cotidiano inevitável. Matam majoritariamente afegãos. Ao longo dos anos de guerra, eles foram se resignando cada vez mais ao próprio destino, encarado como fatalidade, quando não é. Foi diferente com o La Taverna. No dia seguinte ao atentado, jovens afegãos tomaram a rua do restaurante, em protesto. Traziam cartazes com mensagens como: “nós estamos contra o terrorismo”, “paz é o que queremos” ou “nós venceremos, o terrorismo perderá”. Eram como gritos de socorro. Este ano de 2014 marca o fim da guerra para os EUA. Não se sabe se o será também para os afegãos. Naquele dia, eles deixaram flores em homenagem aos conterrâneos e amigos estrangeiros mortos no ataque. Queriam mais uma vez dizer que os estrangeiros são bem-vindos, mostrar desesperadamente que não corroboravam com aquela insanidade. Não havia expatriados no protesto. As organizações internacionais tinham imposto um toque de recolher e eles voltaram à proteção dos muros altos dos condomínios.

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A imagem é do fotógrafo brasileiro Maurício Lima, do New York Times, que procura sempre estar entre os afegãos.