Do front da luta contra a Aids: como Mandela lidou com a morte do filho e a epidemia do HIV na África
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Do front da luta contra a Aids: como Mandela lidou com a morte do filho e a epidemia do HIV na África

adrianacarranca

11 Dezembro 2013 | 23h53

“Meu filho morreu de Aids”, disse Nelson Mandela em uma coletiva de imprensa na tarde da morte de seu primogênito, fruto do primeiro casamento com Evelyn Mase. Era o último filho homem de Mandela ainda vivo – o caçula morreu em um acidente de carro quando o líder sul-africano ainda estava preso.

Makgatho Lewanika Mandela, advogado e pai de quatro filhos, perdeu a luta contra a Aids no dia 6 de janeiro de 2005, aos 54 anos. Naqueles tempos, 5,6 milhões de sul-africanos portadores do vírus HIV viviam seu próprio apartheid, segregados ou com medo de serem descobertos.

Durante seu governo, Mandela pouco fez pela Aids – havia outras prioridades que considerava mais urgentes, ele próprio teria confessado mais tarde. Além disso, a Aids era um tabu. Mas a doença do filho mudou a sua perspectiva e Mandela foi uma das primeiras figuras públicas da África do Sul a admitir a doença na família, o que representou uma guinada na forma como os sul-africanos lidavam com os infectados. O governo já não podia mais ignorar a epidemia à sua porta. Ele se tornou um dos principais ativistas pela universalização do tratamento e distribuição de antirretrovirais.


O mundo acordou para a epidemia do vírus HIV. Mas a Aids ainda é a principal causa de morte na África subsaariana. Mata mais do que a soma de todas as guerras ou a fome. Só compete em letalidade com outras epidemias, como a da malária e da diarreia – doenças facilmente evitáveis, mas que a miséria condena à morte.

Das 35,3 milhões de pessoas que vivem com o vírus HIV hoje, 25 milhões estão na África subsaariana. Isso significa que 71% de todos os infectados no mundo vivem na região, embora ela concentre apenas 12% da população mundial. O número de pessoas vivendo com o vírus HIV hoje na África subsaariana – 25 milhões – é o mesmo que a estimativa de africanos feitos escravos ao longo de quatro séculos – como a escravidão, a doença leva predominantemente pessoas em idade ativa, entre 15 e 49 anos. A África do Sul de Mandela ainda concentra o maior número de infectados no mundo (4,3 milhões de pessoas). Tem também o maior programa de distribuição de remédios. Mas há outros problemas que afetam diretamente a letalidade da doença nessa parte do mundo.

Na África subsaariana a falta de estradas dificulta a distribuição dos remédios – em muitos lugares, a impossibilita. Se os recebem, os moradores não têm como conservá-los porque não há energia elétrica na maior parte dos países da região. As longas distâncias e a falta de transporte tornam inviável o acesso diário aos postos de saúde, quando existem. E quando existem, são insuficientes, precários e concentrados nos centros urbanos. Muitos só procuram um médico quando os sintomas já lhes são insuportáveis e, então, é tarde demais. Na África subsaariana não se morre, portanto, disso ou daquilo, mas da falta de tudo – até mesmo de uma chance de ter acesso a um tratamento que está disponível, mas não chega a todos. Morre-se de miséria.

Foto: Eric Miller/MSF