Do front da mudança climática: como o calor que você está sentindo pode provocar uma guerra
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Do front da mudança climática: como o calor que você está sentindo pode provocar uma guerra

adrianacarranca

27 Fevereiro 2014 | 17h57

Eu derretia dentro do carro parado na Avenida Vinte e Três de Maio quando li pichado em um viaduto: “Você não está preso no trânsito, você é o trânsito.” É daquelas frases simples que elucidam. Poucas vezes enxergamos um problema da sociedade como sendo parte dele. Pois bem, uma ala respeitável de cientistas defende há décadas que o calor que você e eu estamos sentindo hoje é provocado pelo efeito do homem. Este verão tórrido deveria ser suficiente para convencer até os mais desconfiados de que vivemos tempos de efeito estufa. Nove capitais do Brasil tiveram o mês de fevereiro mais quente desde que se tem registro. As altas temperaturas transformaram as nossas cidades em saunas e as águas do Atlântico em uma banheira de imersão. 

A Organização Meteorológica Mundial (OMM) apontou o calor no Hemisfério Sul como uma das maiores anomalias climáticas dos nossos tempos. Argentina e África do Sul bateram recordes de temperatura neste verão, a Austrália teve seu ano mais quente, em 2013, e um recorde de incêndios nas matas. Enquanto isso, no Norte, ondas de frio provocaram mortes nos EUA e inundações sem precedentes na Grã-Bretanha, onde quatro dos cinco anos com mais chuvas foram registrados na última década. Na média, 2013 foi o sexto ano mais quente desde que começaram as medições em 1850, segundo a OMM. Dos 10 anos mais quentes de todos os tempos, nove são deste século. 

O Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC na sigla em inglês) concluiu, com base em evidências científicas disponíveis, que é “95% provável” que a maior parte do aumento da temperatura média global desde meados do século 20 se deve a emissões de gases de efeito estufa, desmatamento e outras atividades humanas.

O que isso tem a ver com guerras? Climas extremos provocam secas, inundações, nevascas que, por sua vez, levam à maior escassez de recursos e ao aumento no preços dos alimentos. Em última instância, a escassez de recursos causa o deslocamento de populações inteiras para outras regiões onde disputarão as riquezas naturais com os povos já assentados, o que muitas vezes leva a conflitos.


Estudo publicado na revista Science aponta uma associação histórica entre mudanças climáticas e conflitos violentos, seja entre indivíduos ou grupos. Seguindo o padrão encontrado em mais de 60 estudos analisados, os pesquisadores da Universidade da Califórnia, em Berkeley, preveem que o crescimento da temperatura global pode levar a um aumento de 50% no número de conflitos até 2050.

As autoridades podem dar motivos mais nobres – se é que pode haver alguma – para as guerras, mas a verdade é que a maior parte dos conflitos é provocada pela luta por recursos: petróleo, terras, água, ouro, diamantes. O Congo (ex-Zaire) não nos deixa mentir. O conflito entre o norte muçulmano e o sul cristão no Sudão, que provocou a divisão do país, nunca foi essencialmente religioso, mas uma luta pela sobrevivência e o acesso ao petróleo que corre no subterrâneo daquelas terras. O Iraque, soube-se depois da invasão americana em 2003, não tinha afinal armas de destruição em massa, mas petróleo.

  

Um dos autores do estudo publicado pela Science, Solomon Hsiang, lembra que a civilização maia entrou em colapso após longos períodos de seca, assim como, segundo ele, grande parte das dinastias da China. Segundo outro estudo de Hsiang, publicado em 2011 na revista Nature, o El Nino teve algum grau de responsabilidade em pelo menos 21% dos conflitos entre 1950 e 2004, Sudão e Ruanda entre eles.

Mas não é só isso.

Documento

, da Universidade de Iowa, encontrou ligação de causa e efeito entre temperaturas altas e violência na vida cotidiana. Segundo o estudo, o calor causa maior agressividade. Para nós que enfrentamos esse calorão não é difícil acreditar que seja verdade. Há uma correlação, revela o estudo, entre o calor e até mesmo o uso da força por policiais, a violência doméstica, brigas entre vizinhos ou no trânsito, como naquele tarde escaldante na Vinte e Três de Maio.

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Foto: Lynsey Addario/ The New York Times