Do front da luta contra a pobreza: o último desejo de Mandela
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Do front da luta contra a pobreza: o último desejo de Mandela

adrianacarranca

07 Dezembro 2013 | 11h48

É com um adeus que recomeço este blog. O adeus a um homem que passou seus 95 anos – quase 30 deles preso em uma cela – no front de uma longa luta por justiça social, do primeiro menino da tribo Tembo a frequentar a escola no empobrecido vilarejo de Qunu ao primeiro presidente negro da África do Sul. Foi também em um adeus que o vi iluminar a Trafalgar Square em uma cinzenta manhã de Londres. Nelson Mandela anunciara poucos meses antes sua aposentadoria e se despedia oficialmente da vida pública. Antes disso, porém, o Nobel da Paz que unificou um país dilacerado pelo racismo pondo fim ao apartheid, tinha um último desejo.

Em um discurso emocionado, Mandela convocou os líderes dos países ricos a fazer do fim da pobreza um movimento igual ao da luta pela abolição da escravidão e contra o apartheid. Lembrou também que, como a escravidão e o apartheid, a pobreza não é algo natural.Foi criada pelos homens e pode ser vencida e erradicada por ação dos homens. Suas palavras eram tão simples quanto revolucionárias, porque davam nova perspectiva à pobreza. Dizemos de um ou outro que nasceu pobre, como se isso fosse condição genética, quando só se pode nascer gente. A pobreza é fabricada, tal qual uma roupa de mau gosto – não se nasce com ela.

Nos últimos 30 anos, 700 milhões de pessoas no mundo despiram-se dela, mas 1,2 bilhão sobrevive aos trapos com menos de US$ 1,25 (R$ 2,50) por dia – o corte do

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para definir a extrema pobreza. Não que o primeiro grupo tenha enriquecido.  A metade do mundo ainda vive com menos de US$ 2 diários ou US$ 60 (R$ 120) mensais, menos de um quinto do salário mínimo brasileiro.


“Neste novo século, milhões de pessoas nos países mais pobres do mundo permanecem aprisionadas, escravizadas, acorrentadas. Estão presas na armadilha da pobreza. É hora de libertá-las. Enquanto a pobreza persistir, não haverá liberdade verdadeira”, disse Mandela. A maioria está em sua África. O Banco Mundial coloca 35 países em sua lista dos chamados países de baixa renda. Destes, 25 são africanos. Nos países de renda média ou alta, a pobreza extrema caiu à metade desde 1981, resultado alavancado, sobretudo, pela China. Nos países de baixa renda, no entanto, 103 milhões de pessoas encorparam o bolo dos miseráveis. Estes países concentram um terço de todos os miseráveis do mundo, a segunda fatia está na Índia e a terceira espalhada por outros países.

Em abril, o Comitê de Desenvolvimento do Banco Mundial colocou como objetivo acabar com a pobreza extrema até 2030. A fórmula é conhecida, precisa vontade política. A economia precisa crescer para sustentar investimentos em infraestrutura e isso depende de investimentos privados, mas desde que o comércio internacional tenha regras justas. “O sentimento antimercado não é amigável à redução da pobreza. Tampouco o fundamentalismo do livre mercado”, escreveu Jeffrey Sachs, o consultor da ONU para os Objetivos do Desenvolvimento do Milênio.

Talvez a maior contribuição de Mandela tenha sido ensinar o perdão. A África do Sul estava à beira de uma sangrenta guerra civil quando ele deixou a prisão, em 1990 – quase três décadas de sua vida lhe tinham sido roubadas. Mas Mandela escolheu o caminho da reconciliação. Em 1993, chegava ao fim o apartheid. No mesmo ano, ganhou o Nobel da Paz. No ano seguinte, venceu a primeira eleição multirracial da África do Sul e se tornou o primeiro presidente negro do país. Ele ensinou os sul-africanos a deixar o apartheid na história e a olhar para frente.

Embora os avanços sejam irrefutáveis no campo dos direitos civis e políticos, seus críticos o acusam de ter feito concessões demais em troca disso. A minoria branca no poder permitiu aos negros votar, mas manteve o controle dos bancos, das empresas, das minas e da agricultura. As terras roubadas pelos colonizadores nunca foram devolvidas aos sul-africanos. A África do Sul é o país do continente com maior número de bilionários – somente um deles é negro (Patrice Motsepe, o primeiro negro a ser contratado pelo maior escritório de advocacia sul-africano, o Bowman Gilfillan, em 1994, e hoje um magnata do ouro que doou no ano passado a metade de sua fortuna, estimada em US$ 20 bilhões, para a caridade).

Na ultima década, seis dos 10 países com maior crescimento econômico estavam na África, beneficiada pelo aumento no preço mundial de commodities e investimentos estrangeiros, principalmente da China. Mas a África do Sul permanece um dos países mais desiguais do mundo, onde um branco ganha em média seis vezes mais do que um negro e um em cada três negros está desempregado enquanto para os brancos a taxa de desemprego é de um em vinte. Ricos estão ficando mais ricos e pobres tão ou mais pobres. O Banco de Desenvolvimento Africano diz que o crescimento econômico da África é um crescimento “sem emprego” e Soweto, onde os negros foram massacrados nos protestos de 1976, jovens voltaram a entrar em confrontos recentes com a polícia em manifestações por emprego e serviços públicos decentes. O legado de Mandela está sendo colocado em risco pela desigualdade, as tensões sociais, as fraturas no Congresso Nacional Africano, os escândalos nos governos que o sucederam.  O continente continua dominado por autocratas corruptos e sanguinários.

Mandela transformou um sistema de apartheid em uma democracia multirracial e se tornou um ícone da luta pela justiça e paz. Mas se despede sem ter seu último desejo atendido. “Enquanto a pobreza, a injustiça e a desigualdade bruta persistirem em nosso mundo, nenhum de nós pode realmente descansar.”

Fotos: Reuters