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Do front do Brasil: por que o espanto com os Black Blocs?

adrianacarranca

12 Fevereiro 2014 | 12h04

Este ano, dois países registraram mortes de jornalistas: Iraque e Brasil. Pode-se argumentar que o ano mal começou – embora já tenha chegado ao fim para o cinegrafista da TV Bandeirantes Santiago Andrade, morto ao ser atingido por um rojão durante a cobertura de protestos no dia 6, no Rio. Vejamos, então, 2013: o Brasil foi o sexto do mundo com maior número de jornalistas assassinados, atrás apenas da Síria, Iraque, Egito, Paquistão e Somália. São países em guerra; o Egito vive um golpe e o ressurgimento dos ataques com bombas no rastro da confusão deixada pela Primavera Árabe, e o Paquistão, um regime militar velado e o terrorismo devastador.

Ataques à imprensa e a morte de jornalistas são o termômetro de uma sociedade doente, reflexo de  uma democracia disfuncional ou de democracia nenhuma. O que dizer então do Brasil? As mortes recentes de jornalistas não foram pontuais. Em 2012, fomos o quarto país mais letal para jornalistas, atrás de Síria, Somália e Paquistão. E em 2011, o terceiro ao lado do México, perdendo apenas para o Paquistão e, empatados, Iraque e Líbia. Em todos esses anos, foi mais perigoso fazer coberturas no Brasil do que no Afeganistão, Congo, Iêmen, Mali, República Centro-Africana e outros quase 190 países. É assim há pelo menos vinte anos, segundo dados do Comitê para Proteção de Jornalistas.

O relatório 2014 do CPJ sobre Ataques à Imprensa, que acaba de ser divulgado, coloca o Brasil também entre os dez países mais impunes do mundo, onde a falta de solução dos crimes e de responsabilização de criminosos é crescente.

Eu posso ouvir alguém dizer que o ataque contra Santiago Andrade não tinha como alvo a imprensa. O relatório do CPJ registra as mortes de jornalistas no exercício da profissão. Na Síria ou Iraque, para citar apenas alguns, os repórteres morrem em ataques diretos para silenciá-los, mas em maior número durante coberturas em que são atingidos por tiros ou bombas, como Andrade, vítimas da violência generalizada, que não é menos letal no Brasil. É, aliás, mais letal que no Afeganistão. Sua morte é o retrato de uma guerra particular que os brasileiros ainda não conseguem enxergar com clareza. Quando confrontados com tragédias como a morte do cinegrafista, corremos em busca de casualidades para explicar o inexplicável. Afinal, somos um povo pacífico, não somos? A realidade é que não, não somos e já faz tempo.


Andrade morreu nas mãos da sociedade civil. Tim Lopes, nas de traficantes. Eduardo Faustini, repórter investigativo da TV Globo, há anos não pode mostrar o rosto e vive sob proteção armada para poder continuar nos trazendo suas reportagens brilhantes sobre as falcatruas do poder público, como fraudes nas licitações de um hospital ou a máfia das sepulturas nos cemitérios do Rio. André Caramante, o colega que aliás acaba de sair da Folha de S. Paulo, teve de se exilar após receber ameaças pela publicação de uma reportagem  com o título “Ex-chefe da Rota vira político e prega a violência no Facebook”. Reproduzia os posts que o coronel reformado da Polícia Militar Paulo Adriano Lopes Lucinda Telhada, então candidato a vereador, publicava “para veicular relatos de supostos confrontos com civis (sempre chamando-os de ‘vagabundos’)”. A página estava lá para quem quisesse ler, mas a matéria bastou para que Caramante fosse perseguido e ameaçado de morte. Telhada foi o quinto vereador mais votado em São Paulo.

No Brasil, o Estado mata, as forças de segurança matam e, percebemos agora, os que se dizem contra tudo isso matam também. Os traficantes matam e a polícia pacificadora mata (quem não se lembra do caso Amarildo?). No país do futebol, sede da Copa do Mundo este ano, os torcedores matam. E um jogo pode terminar com um jogador morto e um juiz esquartejado, como ocorreu em agosto em Centro do Meio, vilarejo de 200 famílias no Maranhão. “A cultura da faca e da revanche” no interior do Brasil, como definiu o New York Timesmotivada pelo “desespero e a raiva” e “a desconfiança que fervilha do policiamento inadequado e do acesso desigual à Justiça”, onde “o derramamento de sangue é superado com derramamento de sangue”.

Estudo do Centro Brasileiro de Estudos Latino-Americanos, no Rio, coloca o Brasil como o sétimo país mais violento do mundo, não só contra jornalistas. A posição é alavancada principalmente pelos “assassinatos de impulso” – uma discussão no trânsito, uma briga entre vizinhos. Vivemos em um estado de brutalidade generalizada, aceitamos a violência institucionalizada, muitas vezes a apoiamos. Por que o espanto com os Black Blocs?