Do front do Afeganistão: dois livros para entender a mais longa guerra dos EUA, que chega ao fim este ano
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Do front do Afeganistão: dois livros para entender a mais longa guerra dos EUA, que chega ao fim este ano

adrianacarranca

10 Fevereiro 2014 | 13h45

Este ano marca o fim da guerra no Afeganistão, com a retirada das tropas americanas de combate até dezembro. Em seu mais recente livro, Little America – The War within the War for Afghanistan (ainda sem tradução), o correspondente do Washington Post para o Sudeste da Ásia por mais de uma década, Ravij Chandrasekaran, explica como divisões internas na Casa Branca frustraram os esforços americanos no Afeganistão.

Chandrasekaran também mostra como o presidente Hamid Karzai e seus aliados agiram “como um bando de saqueadores”, minando qualquer chance de consolidar um governo capaz de enfrentar o Taleban. E como seus irmãos, entre eles Qayum Karzai, candidato à presidência nas eleições marcadas para abril, operaram nos bastidores para manter a influência política da família. Além de ser um grande repórter, Chandrasekaran escreve com extraordinária clareza. Leitura necessária para quem quer entender a guerra nessa fase final.

Sobre como tudo isso começou, muito antes do 11 de Setembro, e por que a região continua sendo uma ameaça aos EUA e tão volátil quanto antes, Descend into Chaos (infelizmente nunca traduzido para o português), do jornalista paquistanês Ahmed Rashid, continua atual. “Retirar as tropas do Afeganistão sem encontrar uma solução política para pôr fim à guerra é loucura”, disse o autor, quando o entrevistei, ainda em 2011.

 


 

No livro, Rashid mostra como a Casa Branca foi errática ao perseguir a Al-Qaeda, abandonou o Afeganistão após a saída dos soviéticos e ignorou o que estava ocorrendo durante o regime do Taleban, além de dar pouca atenção ao Paquistão e Índia. Ele relata como a administração de George W. Bush, depois do 11 de Setembro, insistiu em levar de volta ao poder os antigos senhores de guerra. Sua crítica mais afiada é para o ex-secretário de Defesa Donald Rumself, que privilegiou o apoio militar aos criminosos da Aliança do Norte no lugar de um plano de desenvolvimento para o Afeganistão. Rashid traz detalhes reveladores sobre o conhecido jogo-duplo do Serviço de Inteligência do Paquistão (ISI), abrigando terroristas e dando apoio militar ao Taleban depois do 11 de Setembro, estratégia que se acredita prevalecer até hoje. Quase como uma premonição, Rashid afirma: “O Afeganistão não será capaz de financiar seu próprio Exército por muitos anos – talvez nunca.” No momento em que o presidente Hamid Karzai resiste em assinar o acordo bilateral com os EUA na área de segurança, que manteria pelo menos 10 mil soldados no país, a pergunta é: quem vai pagar essa conta e manterá sua influência no Afeganistão?