Em busca da paz em uma iluminada São Paulo
As informações e opinões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Em busca da paz em uma iluminada São Paulo

adrianacarranca

06 Setembro 2011 | 09h11

Sayed Ab Qader viu no 11 de Setembro ao mesmo tempo o fim do mundo e a própria salvação. Refugiado da crueldade do regime dos taleban em Peshawar, no Paquistão, Sayed e a família decidiram voltar para casa, no Afeganistão, logo após os atentados. Foram movidos pela esperança de que os EUA mandariam os radicais para bem longe e transformariam o país em uma espécie de América da Ásia Central. Quase 5 milhões de refugiados afegãos retornaram ao país no rastro da chegada dos estrangeiros.

Sayed deu sorte. Um amigo precisava de afegãos educados para trabalhar em projetos financiados pelos EUA em Jalalabad, reduto taleban agora livre. Ele e um primo engenheiro abriram uma empresa de construção civil. Fizeram canais de irrigação do rio Surkhrod para retomar o perfil agrícola da região e a ponte ligando o vilarejo ao centro comercial. De repente, a maré mudou. Foi em 2004, após os EUA direcionarem esforços e recursos para outra guerra, a do Iraque. Em 2008, os radicais tinham voltado a dominar 72% do Afeganistão. A instabilidade política e a escalada da violência fizeram com que muitos dos projetos da prometida reconstrução fossem abandonados.

Movimentar-se pelos vilarejos era arriscado demais e trabalhar para os estrangeiros, quase tão perigoso como brincar de roleta-russa. Sayed começou a receber cartas. “Nós vamos matar você”, ameaçava o Taleban, caso ele não deixasse de trabalhar para os “infiéis”. Foi quando decidiu ir embora. Tinha passado dificuldades demais, visto mortes demais e sido privado da própria liberdade por tempo demais para a sua idade.


Em 2011, ao menos 3 milhões de afegãos tinham deixado novamente o país, fugindo dos conflitos entre insurgentes e tropas estrangeiras. Aos 25 anos, Sayed desembarcou sozinho no Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo, com a carta de um empresário do Paraná que exporta frango para o Kuwait e achava que o jovem afegão vinha ao Brasil fazer negócio. Sayed tinha apenas U$ 8 mil em notas de U$ 100 guardadas no shalwar kameez – o traje da região. E o desejo de fugir daquele inferno para recomeçar a vida. Em qualquer lugar.

“Oropa muito difícil. Americano num dá visto pro afegão. Primo do Sayed falou do empresário. Eu pensei: Brasil não tem guerra com Afeganistão!” Seria fácil obter o visto, e assim foi. Saiu do aeroporto com o endereço de um hotel na Avenida Paulista, escrito pela atendente do balcão de informações. No caminho, respirou aliviado. “São Paulo bom lugar, muito bom, porque tem luz.” E luz para Sayed é sinal de progresso – 85% do Afeganistão ainda vive sem eletricidade.

Naquela noite iluminada, a primeira imagem de que Sayed se lembra é da loira de minissaia no saguão. “Alá! Em que lugar eu vim parar?” No quarto, tirou o tapetinho do mochilão, apontou-o para Meca e se pôs a rezar. Na manhã seguinte, voltou a sonhar com Mariam, a noiva de 19 anos. Toda vez que “o menina” vai “no loja” paquerar Sayed, ele exibe “o foto do noiva” em um sari turquesa e dourado. Ela tem a pele muito branca, olhos doces castanhos claros, cabelos à mostra. “Não é linda a noiva de Sayed?” É sim.

Mariam chega ao Brasil no fim de setembro, com o pai e a mãe dele. Então, Sayed vai logo avisando as assanhadas que pretende se casar e não é dono “do lojinha”, porque aí é que não largam do seu pé. E Sayed não quer. É um bom muçulmano. Na Mesquita Brasil conheceu três imigrantes paquistaneses com quem divide o apartamento de 38 metros quadrados em cima do boteco do Dedé do Brás. Na sala há um pôster de Meca sobre um altar com o Alcorão e o terço islâmico ajeitados em uma mesinha cambaleante. Esquecido ali, um frasco de Leite de Rosas, que Sayed usa no rosto barbeado antes de sair. Nos tempos dos taleban, não podia. “Sayed tinha medo do Taleban”, diz.

No Shopping 25 de março, ele vende tênis Nike, Puma, Adidas made in China. No fim do expediente, tira o tapetinho da gaveta atrás do caixa e faz a penúltima oração do dia. “O que é isso, macumba?” perguntou o católico Fábio ao evangélico Carlito. Eles trabalham para Sayed, promovido a gerente. “Nós também acredita Jesus!”, diz Sayed. A relação entre eles é “suave”, descreve, usando gíria. O patrão libanês é suave. O movimento da loja estava suave naquele dia. O clima do Brasil é suave, diferente do Afeganistão onde a temperatura varia entre 38º no verão e -31º no inverno. “Sayed nasceu no muito calor e mãe quase morreu”, diz, exibindo um RG. Nascimento: 1 de janeiro de 1985, em pleno inverno afegão. Ele ri. “Só Alá sabe quando Sayed nasceu. Não tem cartório no Afeganistão!” Por que a data? “Achei bonito”.

* Maéria publicada no especial dos dez anos do 11/9 no Estadão.