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Em nome de um povo

Estadão Esportes

03 Agosto 2012 | 16h06

Por um momento, a impressão é de ter chegado a outra parte do mundo via Edgware Road, uma extensa avenida a oeste do centro de Londres. Placas em árabe, o idioma falado nas redondezas, anunciam restaurantes libaneses, lojas de narguilé, o café Halal, o Sid Marouf. Não há sinais óbvios de Olimpíada. Mas basta percorrer as mesas para perceber os Jogos na conversa das mulheres. Imigrantes de todo o Oriente Médio e norte da África, farão coro hoje na torcida pela judoca saudita Wojdan Ali Seraj Abdulrahim Shahrkhani, que estreia no tatame após longa batalha.

Apenas 15 dias antes do início dos Jogos, a Arábia Saudita deu o aval para a participação de duas atletas mulheres. Não permitiria, porém, que a judoca Wodjan lutasse sem o hijab, o véu islâmico, como exigia insistentemente o Comitê Olímpico Internacional (COI). Na terça-feira, o COI cedeu, alegando “sensibilidade cultural”.

Há 4 milhões de muçulmanos na Inglaterra, a metade deles em Londres. Somam um quarto da população da cidade, público que não podia ser ignorado nos Jogos. Para a ala feminina, a decisão representou mais do que uma vitória do esporte, mas a autoafirmação das mulheres muçulmanas, representadas por Wojdan hoje.

“A Arábia Saudita ainda é um dos países mais fechados do Oriente Médio, onde as mulheres têm muito a conquistar. A participação da judoca num evento de repercussão mundial como este representa uma quebra de paradigma”, diz a marroquina Zaina, sem véu, ao lado da amiga iraquiana Dina, com os cabelos cobertos com o hijab. Ambas têm 39 anos e são funcionárias de um banco da região.


Elas dizem não entender a polêmica. “As outras delegações não puderam escolher seus uniformes? Qual a diferença do véu para um outro acessório qualquer?”, questionam.

ESCOLHA PRÓPRIA
Para Zaina e Dina, tanto a Arábia Saudita quanto o COI estavam errados. “O que está em questão é a escolha. Nós fizemos a nossa. Eu uso o véu, ela não, e somos amigas”, ressalta Dina. “Quem deveria escolher o que usar e o risco a correr é a judoca.

Coberta de negro dos pés à cabeça, Nora Al-Akhab, de 38 anos, nascida nos Emirados Árabes Unidos, também defende que seja uma escolha, mas acredita que quanto mais mulheres participarem da sociedade sob o hijab, mais os países conservadores perceberão que a igualdade de gênero não é uma ameaça à religião.

A estudante Lamah, do Iraque, concorda. “O véu nos identifica facilmente. E é bom que o mundo, e os países que ainda usam a religião erroneamente para manter as mulheres longe da escola, do mercado de trabalho, dos esportes, vejam que o Islã não é impedimento para nada disso.” Para ela, Wojdan estará carregando a bandeira da igualdade das mulheres muçulmanas com o véu. “É o que nos une como identidade. E espero vê-la no pódio, orgulhosa sob o hijab. Inshallah.”