Do front do século 20: o legado de Don McCullin, um dos maiores fotógrafos de guerra da história
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Do front do século 20: o legado de Don McCullin, um dos maiores fotógrafos de guerra da história

adrianacarranca

31 Janeiro 2014 | 10h54

Don McCullin é um dos maiores e mais premiados fotógrafos de guerra da história. Saiu do então empobrecido bairro de Finsbury Park, no norte de Londres, para registrar os principais acontecimentos do século 20, da guerra no Vietnã aos campos de batalha em Chipre, Congo, Biafra, Camboja, Bangladesh, El Salvador, Líbano. Nesse depoimento comovente, McCullin faz uma das mais belas reflexões que eu já vi sobre o valor do jornalismo de guerra.

“Havia um atirador tentando me matar. Ele acertou minha câmera, na altura do meu rosto. Eu ainda tenho aquela Nikon com um furo de bala”, ele começa. “A maior parte dos últimos 50 anos da minha vida foi desperdiçada fotografando guerras. Que bem eu fiz compartilhando essas imagens de sofrimento? Quando alguém está morrendo ou gravemente ferido e em choque, ele precisa de alguém olhando para ele através de uma câmera? Você é a última pessoa que ele quer ver! Ele quer ver médicos correndo para ele, não eu.”


McCullin se esquece que a informação é também um antídoto. Suas fotografias ajudaram o mundo a compreender os horrores das guerras e a caminhar no sentido de evitar os massacres. Quando começou a clicar, nos anos 1950, as leis humanitárias que protegem civis nos conflitos engatinhavam. Podem ser ainda desrespeitadas, mas as violações contra civis são largamente reconhecidas hoje como crimes de guerra, e isso se deve precisamente ao trabalho de pessoas generosas como McCullin. Sua dedicação à fotografia de guerra teve um preço.

“A guerra é algo completamente fora de controle”, diz. “Todos os valores errados saíam de mim e eu tinha de lidar com eles. Não há como mudar o cenário. Você não pode evitar que pessoas sejam mortas na sua frente.” McCullin revela como vive atormentado por esses pensamentos e por lembranças “apavorantes” da guerra. “Não precisa ser à noite. Eu tenhos esses pensamentos num táxi ou trem a caminho do interior. (…) São tantas memórias apavorantes. Você não pode… Você não terá uma vida depois de 50 anos fazendo o que eu fiz… Você pode ter um dia bom e empurrar para longe esses pensamentos, mas eles voltam sem ser convidados, inesperados…” O fotógrafo fala das dificuldades da vida em família ao voltar de conflitos. “Eu tenho filhos para tomar conta, tenho uma família e isso mantinha meu balanço. Mas era difícil. Era difícil voltar a Londres depois de testemunhar crianças morrendo famintas e ver meus filhos recusando o almoço de domingo. Eu precisava manter o foco para não sair gritando com eles. Era tão difícil…” McCullin pergunta: “Mas não é mesmo difícil ser um ser humano?”

Nos últimos anos, McCullin passou a fotografar paisagens, principalmente da Grã-Bretanha e Índia. “Quando meu tempo acabar, eu quero deixar para trás um legado de paisagens belas como Somerset. Não quero ser lembrado como um fotógrafo de guerra. Eu odeio esse título.”

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Às sextas, o blog dedica seu espaço à fotografia de guerra, sejam os confrontos armados ou as batalhas cotidianas pela vida.