Nobel da Paz indiano pede o fim da escravidão de 5,5 milhões de crianças
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Nobel da Paz indiano pede o fim da escravidão de 5,5 milhões de crianças

adrianacarranca

18 Novembro 2014 | 14h14

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Por Kailash Satyarthi e Monique Villa*

Enquanto  você lê este artigo, 5,5 milhões de crianças em todo o mundo estão perdendo sua infância para a escravidão. Elas são espancadas, abusadas e às vezes violentadas. São obrigadas a trabalhar em bordéis, minas, olarias, em barcos de pesca e em hotéis. Trabalham a portas fechadas como empregadas domésticas. Muitas são forçadas a se tornar soldados, a se casar e a traficar drogas.

A escravidão infantil chegou a um nível recorde. Diariamente, crianças de até cinco anos de idade são vendidas no mercado negro a preço menor do que é cobrado pelo gado. Uma vez em mãos dos seus novos senhores, elas são forçadas a trabalhar 20 horas por dia. As meninas estão particularmente em risco, uma vez que são as mais vulneráveis à exploração sexual, uma das formas mais lucrativas da escravidão infantil.

Embora a globalização tenha contribuído muito para derrubar as barreiras entre as nações, ela também impulsionou uma demanda sem precedentes pelo trabalho escravo.  Você já pensou que as peças do telefone que usa, os sapatos de calça ou o chá que você bebe, podem ter sido produzidos por crianças escravas?

A vasta maioria das vítimas vive oculta nas sombras das nossas sociedades. São invisíveis, mas estão ali. Seu sofrimento abastece uma rede demoníaca de traficantes, escravidão por dívida, prostituição, pornografia infantil e outras formas de atividades ilícitas.

O tráfico é um autêntico inferno na terra equivalente a US$ 150 bilhões por ano, significativamente mais do que o faturamento anual de algumas das mais lucrativas empresas do mundo.

Se pretendemos erradicar a escravidão infantil temos de adotar uma estratégia global para o que é um problema global. Por  isso temos pedido que a erradicação infantil e de todas as formas de trabalho infantil sejam incluídas nas Metas de Desenvolvimento Sustentável 2015.

Empresas, governos e a sociedade civil precisam falar a mesma língua e trabalhar juntos com vistas a soluções inovadoras e corajosas. O que exige medidas de todas as partes.

A educação é o ponto de partida. Todas as crianças, independente de etnia, gênero, religião ou capacidade,  têm direito à educação e os governos devem adotar medidas comuns para assegurar que a escolaridade para todas as crianças seja uma prioridade global. Novos métodos devemser explorados para solucionar o problema do financiamento para a educação de modo a garantir que todas as crianças frequentem uma escola.

O aparelhamento policial precisa de uma reformulação substancial. Além de criar capacitação para tratar casos relacionados com o tráfico de crianças, policiais corruptos, do mais alto ao mais baixo escalão – são aliados chave de traficantes e aqueles que abusam das crianças.

As empresas precisam se certificar de que suas cadeias de suprimento não utilizem o trabalho infantil e todas as formas de escravidão.

Muitas delas ou não têm conhecimento ou preferem ignorar o que se passa nas suas fornecedoras contratadas. E nós, como consumidores, temos de exigir garantias de que o que compramos nos shoppings  não seja resultado da exploração infantil.

Se usarmos os mercados como uma força para o bem, as mudanças podem ocorrer muito mais rapidamente. Os governos podem levar anos para aprovar leis e  mais tempo ainda para implementá-las, ao passo que as grandes corporações têm capacidade para garantir de modo muito mais rápido que violações de direitos humanos não ocorram nas suas cadeias de suprimento, e isso terá um real impacto em todo o mundo, mudando positivamente as vidas de milhões de seres humanos neste processo.

Ao mesmo tempo, é preciso criar reais incentivos para empresas  que decidirem combater a escravidão: é irrealista esperar que as companhias irão despender recursos para monitorar seus fornecedores se suas concorrentes decidirem não fazer nada e lucrarem mais.

Estamos abandonando uma geração de crianças. Estamos negando a elas a chance de uma vida. Portanto, juntos, precisamos enfrentar e pôr fim à escravidão infantil, o flagelo dos nossos tempos. Juntos podemos.

Enxergue.

* Kailash Satyarthi ganhou o Nobel da Paz em 2014 por ter ajudado a resgatar cerca de 80 mil crianças da escravidão e trabalho infantil na Índia, onde fundou nos anos 1980 a organização Bachpan Bachao Andolan (Movimento Salve a Infância). Monique Villa é CEO da Fundação Thomson Reuters, que organiza anualmente a Conferência Trust Women, que reúne organizações, corporações e governos para encontrar soluções para o avanço dos direitos das mulheres e dos direitos humanos em geral. O jornal Estado é parceiro da conferência, que ocorre em Londres nos dias 18 e 19 de novembro. O artigo foi escrito com exclusividade na América Latina para o blog Do Front.

 

Tradução de Terezinha Martino