‘O Brasil precisa ter voz própria nas crises mundiais’, diz secretário-geral da MSF
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‘O Brasil precisa ter voz própria nas crises mundiais’, diz secretário-geral da MSF

adrianacarranca

15 Maio 2015 | 03h13

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Adriana Carranca

O belga Jérôme Oberreit lembra-se de quando a guerra parou para uma partida entre Brasil e Bélgica, na Copa do Mundo de 2002, que ele assistiu na única TV de um vilarejo no leste do Congo (ex-Zaire). “Os congoleses pararam para ver o jogo e todos, sem exceção, torciam pelos brasileiros. Todos amam o Brasil lá fora”, disse, em entrevista ao Estado, o secretário-geral da organização Médicos Sem Fronteiras (MSF), que coordena 22 mil profissionais, entre médicos, enfermeiros e equipes de apoio, que trabalham em áreas afetadas por conflitos e outras crises humanitárias em mais de 70 países.

Na primeira visita ao Brasil, Oberreit não poupa críticas: “O Brasil precisa assumir seu papel no cenário internacional e ter voz própria em defesa das vítimas nas crises mundiais.”

Geógrafo de formação, desde 1994 na MSF, ele se especializou em áreas de conflitos e gerenciamento de epidemias como o HIV. Nessa entrevista, ele faz críticas à atuação das tropas de paz da ONU no Congo, lideradas pelo general brasileiro Carlos Alberto dos Santos Cruz, diz que a Europa se fechou para os imigrantes e acusa a comunidade internacional de letargia e “falta de vontade política” em combater a epidemia do ebola. Embora a Libéria tenha sido declarada livre do vírus, Oberreit alerta que  novos casos continuam a aparecer nos países vizinhos. A seguir trechos da entrevista.

Qual é a maior crise humanitária hoje?

Definitivamente o Sudão do Sul. Quase não se fala nisso, mas a guerra (deflagrada em dezembro de 2003 entre tropas aliadas do presidente Salva Kiir, de etnia dinka, e dissidentes seguidores do ex-vice-presidente Riek Machar, de etnia nuer) está lá e ocorre agora mesmo. Embora negociações entre as partes tenham sido anunciadas, os confrontos continuam. E a violência contra civis chegou a um nível chocante. Nossos pacientes e equipes têm sofrido ataques, hospitais e clínicas foram saqueados e queimados, numa clara violação das leis humanitárias internacionais. As necessidades médicas são enormes. É a maior operação de MSF hoje em todo o mundo, seguida pela República Democrática do Congo e República Centro-Africana. São guerras esquecidas, que já duram há muito. O mundo tende a olhar para as emergências e depois perde o interesse.

Por que isso ocorre e como garantir o trabalho pós-emergencial nos conflitos e desastres como o terremoto no Nepal ou surtos como o ebola, que já não atraem a atenção da comunidade internacional?  

Isso acontece por razões diferentes. Hoje o sistema de ajuda se tornou muito dependente dos grandes doadores e eles fazem o trabalho de resposta às grandes emergências. Mas você tem um período em que as coisas começam a melhorar, mas ainda há necessidades agudas. Essa fase pós-emergência é frequentemente negligenciada e subfinanciada, o que impede que as ONGs permaneçam em campo.

Como MSF é financiada?

MSF é uma organização independente financeiramente, que tem um forte apoio de doadores individuais (responsáveis por 85% do orçamento da organização). Isso nos permite ficar por mais tempo em campo, de acordo com as necessidades. Mas, infelizmente, muitos dos atores hoje são incapazes de sustentar suas atividades por longo tempo, porque são dependentes de fundos de governos e de sua vontade política em ajudar, o que está muito ligado ao impacto externo da crise.

MSF chegou ao Brasil para combater uma epidemia de cólera na Amazônia. Com o tempo, deixou de receber ajuda para se tornar um dos países onde as doações mais crescem e uma base para recrutar novos profissionais. O Brasil está fazendo seu papel no campo da ajuda humanitária?

O Brasil é obviamente um país cuja opinião é ouvida e isso, é claro, tem um peso. É um país que pode influenciar decisões nas grandes crises. Mas precisa ter mais confiança de que pode fazer a diferença e não apenas em termos de apoiar outros (governos), mas de assumir voz própria em como atender populações com necessidades agudas nas crises mundiais. E acho que isso ainda precisa ser desenvolvido. O Brasil precisa desenvolver suas habilidades em compreender quais são as necessidades existentes e decidir por si próprio para onde os recursos devem ir e como direcionar as ações de socorro a essas populações. Certamente o Brasil tem um papel a cumprir e deve cumpri-lo no cenário internacional.

Mudança recente no mandato da missão da ONU no Congo (ex-Zaire) permitiu que as Tropas de Paz, sob comando do general brasileiro Carlos Alberto dos Santos Cruz, assumissem prerrogativa inédita de combate ostensivo e não mais de defesa apenas. Como o senhor vê essa mudança, que cria precedentes para outras missões de paz da organização?  

A questão não é tanto a mudança no mandato, mas o fato de que as tropas tenham uma atuação multidisciplinar. De um lado, oferecem ajuda humanitária ou apoiam organizações que o fazem e, de outro, combatem os diferentes grupos armados e promovem a “limpeza” das áreas sob seu controle. Quando se tem essa mistura de funções, coloca-se em risco a habilidade de os agentes  humanitários levarem ajuda, porque um dia um carro branco (cor de uso exclusivo das organizações humanitárias em áreas de conflitos) passa trazendo remédios, no outro é visto em combate. E isso é muito perigoso para quem está no campo.

O senhor concorda com a ação mais ostensiva das Tropas de Paz?

Não estamos lá para julgar as Tropas de Paz, como agem ou seu grau de engajamento na luta armada. O que precisarmos é ter completa clareza de que não são uma organização de ajuda humanitária, mas uma missão que está lá para apoiar o governo local e a política. O que ocorre, no entanto, é que as tropas no Congo, por exemplo, não querem ser vistas apenas como uma força de combate, mas de ajuda, para obter o apoio da população. E isso é muito perigoso, porque associa os agentes humanitários e o símbolo do carro branco ou do avião branco, que está lá para levar ajuda humanitária, com a ação vista muitas vezes como abusiva de uma força militar. Não tivemos ainda consequências diretas dessa mistura de papeis, mas não podemos esperar até que um avião ou helicóptero levando ajuda humanitária seja confundido com uma aeronave militar em combate e abatido. E hoje há uma possibilidade real de que isso aconteça.

A MSF começou a operar barcos para o resgate de africanos que tentam chegar à Europa por mar. Como o senhor vê a crise dos imigrantes?

É a primeira vez que fazemos isso. Normalmente nós não faríamos essa ação porque os custos de envio das nossas equipes são muito altos. Nós já havíamos pensado em fazer isso no passado, mas havia poucos imigrantes e você nunca sabia quando cruzaria com um barco trazendo-os. Mas há tantos agora que nós tivemos de começar a operação.  São milhares deles porque a Europa fechou suas fronteiras terrestres, então a única saída para essas pessoas é o mar. Em poucas semanas, resgatamos 2 mil pessoas. Talvez eles tivessem sobrevivido e conseguido desembarcar com segurança, mas isso é improvável porque os barcos estavam absolutamente lotados de gente. Somente hoje (quarta-feira), resgatamos mais de 400 pessoas em dois pequenos barcos de pescadores. E estes são os que localizamos. Muitos se perdem no mar.

Que destino têm as pessoas resgatadas pela MSF?

Nós os resgatamos em águas italianas, onde mantemos projetos para atendimento de imigrantes há 15 anos. Somos conhecidos como atores locais e quando encontramos esses barcos temos conseguido trazer as pessoas para a terra, para centros de recepção, onde fazemos o atendimento médico, verificamos se não trazem doenças ou se precisam de algum tratamento especial. Os governos têm de ser pressionados para encontrar uma solução para a crise. Mas, enquanto isso não ocorre e a resposta tem sido lenta, não podemos deixá-los morrer.

MSF recentemente acusou a Organização Mundial de Saúde de demora em responder ao surto de ebola. O que explica essa demora?

Uma das razões foi que a preocupação não era puramente com as necessidades médicas individuais da população, mas com outras consequências, políticas e econômicas, de declarar que se tratava de uma epidemia. Eles imaginavam que o problema pudesse ser resolvido sem chamá-lo de epidemia e isso foi um erro. Isso criou um atraso realmente inaceitável na resposta e permitiu que as coisas saíssem do controle. Assim que a epidemia foi declarada como tal, vimos uma mobilização maior. O envio de profissionais, recursos, doações começou a acontecer. Infelizmente, porém, muito do que chegou não podia ser usado. Muitos dos profissionais tinham de cumprir regras rígidas de seus comandos militares, enviados pelos governos, e não puderam responder à crise. Eles seguiam ordens e não se adaptaram rápido o suficiente diante da propagação da doença. Outro problema é que os enviados não aceitaram fazer o atendimento médico direto dos pacientes. Esse trabalho foi transferido a poucas ONGs e funcionários de saúde locais.

Por que isso ocorreu? Eles tinham medo?

Simplesmente não foi dada a eles essa função. Até hoje não temos uma resposta (da comunidade internacional) sobre por que eles se recusaram a fazer o atendimento médico. Então, o que houve foi uma resposta lenta e inadequada ao ebola. E isso se deu, definitivamente, por uma questão de falta de vontade política de agir rapidamente e adotar as ações corretas. Não era uma questão de falta de recursos, porque quando você olha para os recursos que foram destinados percebe que, se tivessem sido empregados de forma diferente, certamente teria havido um impacto muito maior no combate à epidemia.

Foto: Jérôme Oberreit (centro). © Kris Torgesson/MSF-AZG