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‘O Paquistão tem o controle do Taleban’

adrianacarranca

12 Dezembro 2011 | 11h47

Sem ajuda paquistanesa, dificilmente o Afeganistão se tornará um país estável após a retirada das tropas estrangeiras

ADRIANA CARRANCA – O Estado de S.Paulo


A Conferência de Bonn, na Alemanha, que reuniu na semana passada representantes de mais de cem países para decidir sobre o futuro do Afeganistão após a saída das tropas estrangeiras, foi apenas mais um episódio fracassado em uma década de tentativas e erros da comunidade internacional para restabelecer a paz no país, sem que tenha conseguido engajar o principal ator para a solução dos conflitos: o Paquistão.

“O boicote à Conferência de Bonn é um claro sinal da falta de vontade de Islamabad em cooperar com a comunidade internacional”, disse ao Estado o vice-conselheiro de Segurança Nacional do Afeganistão, Ashraf Haidari.

Um dos homens mais próximos do presidente afegão Hamid Karzai, ex-consultor político e vice-embaixador em Washington, ele garante que o Paquistão controla efetivamente o Taleban em seu próprio território. Como reflexo do aumento das tensões entre Cabul e Islamabad, Haidari acusa o vizinho de sabotar as tentativas de um acordo de paz com os insurgentes e diz que os militares e o serviço secreto paquistanês (ISI) são omissos.

Ele falou duas vezes ao Estado, de Bonn e já de volta à capital afegã, após os atentados suicidas simultâneos contra xiitas em Cabul e Mazar-e Sharif que mataram pelo menos 60 pessoas, na terça-feira, e fizeram Karzai cancelar sua agenda no exterior. Um grupo paquistanês ligado à Al-Qaeda assumiu a autoria dos ataques.

A reunião fracassou por causada crise entre Washington e Islamabad (o Paquistão boicotou o encontro em protesto contra a morte de militares no ataque de um drone americano)?

O Paquistão reluta em cooperar com o Afeganistão e a Otan para romper (com o Taleban) e desmantelar completamente os santuários (terroristas) em seu território, de onde (os radicais) continuam lançando ataques ao Afeganistão, matando indiscriminadamente civis inocentes. O boicote à Conferência de Bonn é um claro sinal da falta de vontade de Islamabad em cooperar com a comunidade internacional no Afeganistão. Acreditamos que as Forças Armadas e a inteligência paquistanesas tenham capacidade de derrotar o inimigo, mas eles têm de querer fazê-lo.

O Taleban está pronto para um acordo de paz?

A paz deve ser uma solução permanente. Só quando o Taleban já não mais desfrutar dos santuários e de suporte operacional do Paquistão ele aceitará um acordo de paz. Cumprir com esse compromisso, no longo prazo, servirá a seus próprios interesses em segurança nacional (contra grupos que atuam dentro do Paquistão, como o que atacou xiitas, na terça-feira). Mas o Paquistão, que efetivamente controla o Taleban em seu próprio solo, reluta em cooperar pelo fim da insurgência. No passado, sabotou negociações de paz com insurgentes que desejam renunciar à violência, romper laços com terroristas internacionais e aceitar os termos da Constituição, como o direito de igualdade.

Há um sentimento de incerteza e frustração entre afegãos, perplexos com os resultados precários de uma década de investimentos. Como garantir que será diferente na próxima década?

Nessa segunda Conferência de Bonn, fizemos um apelo para que a assistência continue nas áreas de segurança, governança e desenvolvimento para garantir uma transição tranquila no fim de 2014, quando a maioria das tropas estrangeiras deixará o país. E propusemos que, depois disso, o compromisso militar e civil continue até que o Afeganistão possa desenvolver uma base sustentável e defender sua soberania contra as ameaças regionais. Mas os doadores internacionais devem aprender a lição dos últimos dez anos: a liderança afegã e o controle sobre a segurança e a reconstrução do Afeganistão devem substituir o mecanismo disfuncional e contraproducente de dar ajuda ao país por meio de uma multiplicidade de estruturas paralelas que se sobrepõem. Essas entidades devem ajudar a construir, em vez de substituir, a capacidade institucional do governo afegão. Esperamos que a capacitação dos afegãos para tomar as rédeas do país ocorra. Mais do mesmo não é aceitável para o nosso governo e o povo.

O que o Afeganistão espera da comunidade internacional?

Aprendemos que as necessidades para reconstruir e garantir a segurança do Afeganistão são imensas, que as nossas conquistas são ainda um trabalho em progresso. A comunidade internacional não deve cometer o mesmo erro duas vezes, abandonando prematuramente o Afeganistão antes de estarmos firmes sobre nossas próprias pernas. Esse erro ocorreu após a retirada das forças soviéticas do país, em 1989, quando a reconstrução do país pós-guerra foi negligenciada pelo Ocidente – apesar de os afegãos terem lutado, em nome do Ocidente, a mais sangrenta ‘guerra proxy’ (um conflito no qual as partes se utilizam de terceiros) da Guerra Fria.

* Entrevista publicada no Estadão