O que envolve o trabalho das organizações humanitárias
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O que envolve o trabalho das organizações humanitárias

adrianacarranca

22 Maio 2014 | 14h55

* Por Talissa Monteiro

O trabalho das organizações humanitárias não envolve apenas levar ajuda. O planejamento de uma missão para atender a uma emergência requer uma série de especialidades, como logística, infraestrutura, construção, saneamento básico, administração, transporte, entre outros. Além de conhecimento e experiência em suas áreas, é avaliada nestes profissionais a capacidade para trabalhar em situações extremas. 

Segundo Lucy Barbier, administradora da organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) em Adjumani, no norte de Uganda, região que mais recebeu refugiados do Sudão do Sul, o maior desafio no início de missão é encontrar os profissionais. “É necessária uma equipe mínima para começar a missão. Mas além de adequados profissionalmente à função, os contratados têm que aceitar as condições do trabalho, que não são fáceis”, explica.


Depois, vem a procura de lugares para acomodar o escritório e os profissionais. As regiões, no entanto, quase sempre são remotas e de difícil acesso, obrigando as organizações a se instalarem em locais mais distantes e deslocarem as equipes todos os dias.

A logística é crucial. “Todos os dias é preciso planejar. Definir o que é necessário, onde conseguir, como levar até as pessoas, como fazer a distribuição e, finalmente, como proteger o recurso”, ressalta Jane Rockhold, administradora de recursos humanos e financeiros do MSF em Uganda.

A missão em Adjumani teve início em janeiro, um mês depois do início da guerra civil no Sudão do Sul, quando houve um grande fluxo de refugiados. Em casos como este, uma equipe composta de administradores, profissionais de logística e médicos é enviada para avaliar a situação junto à Agência de Refugiados de ONU (ACNUR) e o governo local, que são os primeiros a agir.

Mesmo em uma situação de emergência, para levar ajuda é preciso ter a autorização do governo local. Nas zonas de conflitos, para chegar até as vítimas é preciso também, muitas vezes, negociar com grupos opositores para garantir a segurança e a integridade das equipes de médicos e enfermeiros. 

Em Adjumani, a MSF aumentou a capacidade dos centros de saúde e começou a operar novas clínicas, em tendas. Também instalou postos de distribuição de água limpa.

Segundo Jane, as organizações trabalham juntas e cada uma oferece um tipo de serviço para que todas as áreas sejam supridas. As prioridades da MSF são o atendimento médico, água e saneamento. “A água é fundamental em nosso trabalho, porque há diversas doenças que se proliferam através dela. Não adianta tratarmos as pessoas se elas continuarem bebendo água contaminada ou não tendo condições de higiene adequadas”, explica.

Vida de expatriado. Deixar por longos períodos a casa, a família, os amigos é uma das dificuldades de quem trabalham com missões humanitárias. As missões costumam durar de três meses a um ano, às vezes mais. Os cenários não são turísticos e, muitas vezes, podem ser perigosos. Grande parte do trabalho das organizações é feita em locais de conflito, onde a segurança não pode ser garantida. 

Jane Rockhold, de 49 anos, deixou Uganda semana passada, depois de nove meses como administradora de recursos humanos e financeiros da organização Médicos sem Fronteiras. Ela fez parte da primeira equipe do MSF que foi para Adjumani preparar a missão para atender os refugiados do conflito no Sudão do Sul. “Havia crianças de quatro ou cinco anos andando distâncias enormes para buscar água, e isso partiu meu coração”, lembra.

Até então, Jane ficava na capital, Kampala, cuidando da administração, e diz que não via a parte mais gratificante do seu trabalho, que são as pessoas sendo beneficiadas. “Ficar no escritório me fez esquecer um pouco do que tinha vindo fazer e sentir mais falta de casa. Quando fui para o campo é que pude ver até onde o meu trabalho chega e como vale a pena”, conta.

O dia a dia dos profissionais no campo não é fácil. Em Adjumani, não havia espaço para todos na casa do MSF, e alguns tiveram de se transferir para um hotel precário, onde muitas vezes faltava luz. Já na casa, havia um único banheiro para todos e a hora do banho precisava ser negociada. Quase toda noite faltava energia elétrica e a equipe ficava sem ventilador, sob um calor de 40 graus. Além disso, os funcionários vivem em áreas epidêmicas, correndo o risco de desenvolver doenças como malária.

Apesar disso, para Jane o maior desafio foi lidar com as próprias emoções: “Se você tem coração, você se magoa. É preciso criar um espaço para guardar isso e fazer seu trabalho. E entender que não pode fazer tudo, mas deve fazer o máximo que puder”, reflete.

* Talissa Monteiro, de 21 anos, aluna de jornalismo do Centro Universitário de Volta Redonda, foi a ganhadora do concurso de reportagem promovido durante a oficina “Ajuda Humanitária em Pauta – como cobrir conflitos armados, desastres naturais e epidemias”, pela organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF). Em uma parceria do blog “do front” com MSF, Talissa acompanhou a reportagem do Estado na cobertura da crise humanitária no norte de Uganda, região que recebeu o maior número de refugiados da guerra civil no vizinho Sudão do Sul. Seus textos serão publicados neste espaço.