Por que o mundo está perdendo a luta contra o ebola e outras doenças infecciosas?
As informações e opinões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Por que o mundo está perdendo a luta contra o ebola e outras doenças infecciosas?

adrianacarranca

02 Setembro 2014 | 11h47

Por que o mundo está perdendo a luta contra a epidemia do ebola no oeste da África? O que o vírus está fazendo no orçamento para políticas antiterrorismo do Departamento de Defesa americano? E por que, afinal, 83% das mortes de crianças ainda são causadas por doenças facilmente evitáveis?

No último post, comentei sobre as doenças facilmente evitáveis que matam aos milhões na África subsaariana, principalmente crianças, sem que ninguém se incomode com elas. Gerou polêmica quando disse que o mundo só se comoveu com o ebola porque ameaça se alastrar para os países ricos.

Aos fatos. Uma em cada seis pessoas no mundo, segundo a Organização Mundial de Saúde, sofre de doenças “negligenciadas” ou as chamadas “doenças da pobreza”. A OMS lista 17 tipos dessas doenças: leishmaniose visceral (ou calazar), lepra, úlcera de buruli, cisticercose, dracunculíase, equinococose, fasciolíase, tripanossomíase humana africana, filariose linfática, oncocercose , raiva, esquistossomose, helmintíase, tracoma, bouba e, as mais conhecidas dos brasileiros, doença de Chagas e dengue.

Exceto pelas duas últimas, você provavelmente pouco ouviu sobre elas, porque não ameaçam o Ocidente desenvolvido. Mas afetam 1 bilhão de pessoas e são a causa de morte de 83% das crianças com menos de 5 anos, a vasta maioria na África subsaariana.


O ebola não está nessa lista. Primeiro, porque apesar de sua alta letalidade e capacidade de transmissão, não matava (até o mais recente e o pior surto da doença, é importante ressaltar) na mesma proporção. Depois porque, ao contrário das doenças listadas acima, recebeu dezenas de milhões de dólares em investimentos para pesquisa do governo americano nos últimos anos. O dinheiro saiu do orçamento sob a rubrica de combate ao terrorismo – o teste para facilitar o diagnóstico de infecção por ebola, autorizado pela FDA (agência americana que regulamenta fármacos) em agosto, por exemplo, foi desenvolvido pelo Departamento de Defesa americano. O vírus é considerado uma ameaça pelos EUA porque a Casa Branca teme que seja usado como arma em uma guerra biológica.

“Muitos dos que estão representados aqui hoje investiram pesado na resposta a ameaças biológicas. Vocês têm a responsabilidade moral e humanitária de usar imediatamente essa capacidade nos países afetados pelo ebola”, disse hoje na ONU a presidente da organização Médicos Sem Fronteiras, Joanne Liu. Nenhum país respondeu ao apelo de Joanne.

O surto atual do ebola começou há seis meses na África, mas enquanto matava somente africanos provocou pouca comoção. Só foi declarado “emergência de saúde pública de preocupação internacional” no dia 08 de agosto, tarde demais.

“Centros de isolamento estão sobrecarregados. Profissionais de saúde estão sendo infectados e morrendo em números chocantes. Outros fugiram com medo, deixando as pessoas sem atendimento, mesmo para as doenças mais comuns. Sistemas de saúde inteiros desmoronaram”, disse Joanne. “Os centros de tratamento estão reduzidos a lugares onde as pessoas vão para morrer sozinhas, onde é oferecido pouco mais do que o cuidado paliativo.”

A Organização Mundial de Saúde (OMS) projetou que em dois meses 20 mil pessoas estarão infectadas no oeste da África. “Enquanto os anúncios de financiamentos para tentar encontrar vacinas e tratamentos são bem-vindos, eles não vão parar a epidemia de hoje.”

O ebola foi negligenciado por laboratórios privados, porque não havia chegado aos países onde está o dinheiro para justificar os altos investimentos, uma lógica perversa que o médico britânico John Ashton, um dos maiores especialistas em saúde pública, em artigo para o Independent, classificou como “falência moral” da indústria farmacêutica.

Os laboratórios que estão trabalhando hoje nas pesquisas sobre ebola são largamente financiados pelos governos dos EUA e Canadá. A Europa entrou recentemente com recursos. Mas são ainda considerados insuficientes, além de tardios.

“O Ocidente deveria tratar o ebola como se estivesse atingindo as partes mais ricas de Londres e não apenas Serra Leoa, Guinea e Libéria”, escreveu Ashton.

Não é segredo que a indústria farmacêutica investe principalmente em desenvolver remédios para as mazelas que acometem aqueles com poder aquisitivo para comprá-los. Ainda em 1998, o Fórum Global de Pesquisa em Saúde cravou o termo “gap 10/90”, apontando que apenas 10% do orçamento global em pesquisa na área de saúde eram investidos no combate a 90% das doenças no mundo, entre elas as que mais matam nos países subdesenvolvidos. Da mesma forma, 90% dos investimentos iriam para 10% dos problemas de saúde prevalecentes nos países ricos.

Na época, um trabalho pioneiro da Comissão de Pesquisa e Desenvolvimento em Saúde identificou que “93% das mortes por doenças evitáveis ocorriam nos países em desenvolvimento, embora apenas 5% dos investimentos em pesquisa fossem dedicados a problemas de saúde nestes países”.

Qual a diferença?

As principais causas de morte no mundo são doenças cardiovasculares, câncer e diabetes. Nos países ricos, 7 em cada 10 mortes são de pessoas com mais de 70 anos. Somente 1 em 100 morre de doenças infecciosas.

Considerados os países de baixa renda separadamente, no entanto, somente 2 em cada 10 mortos têm mais de 70 anos; 4 em cada 10 ê menos de 15 anos. Elas morrem predominantemente de doenças infecciosas: infecção respiratória, HIV/AIDS, diarreia, malária e tuberculose são responsáveis por pelo menos 1/3 das mortes nestes países. Somam-se a elas complicações no parto, por problemas facilmente evitáveis.

Pelo menos 289 mil mulheres morreram no ano passado durante a gravidez ou ao dar a luz – 800 por dia, todos os dias. O líder no ranking de mortes maternas é o Sudão do Sul.

Em 2012, último dado disponível, 6,6 milhões de crianças morreram antes de completar 5 anos – 99% dessas mortes ocorreram nos países de baixa e média renda. A malária foi responsável por 15% das mortes dessas crianças.

A diarreia causa 1,5 milhão de mortes por ano, a maioria na África subsaariana – tanto quanto a Aids.

A tuberculose mata ainda 900 mil pessoas anualmente.

Os números são da Organização Mundial de Saúde.

Desde 2008, estudos anuais financiados pela Fundação Bill e Melinda Gates tentam estimar os investimentos em pesquisa sobre “doenças negligenciadas”. O último relatório, de 2010, aponta que US$ 3.2 bilhões foram investidos naquele ano, 65% com recursos públicos, 18,5% da filantropia e 16,5% da indústria (o menor investidor, portanto). Em pouco mais de duas décadas, os investimentos públicos em pesquisa praticamente dobraram, chegando a US$ 1,9 bilhão em 2010; o dinheiro vindo de fundações saltou de US$ 60 milhões para US$ 568 milhões. Já os investimentos da indústria ficaram estagnados.

Cerca de 70% dos gastos com doenças “negligenciadas”, segundo a Fundação Bill e Melinda Gates, vão para HIV/Aids, malária e tuberculose, graças ao Fundo Global de Luta contra essas doenças, criado em 2002. Na primeira década dos anos 2000, pelo menos 26 produtos para as doenças negligenciadas foram colocados no mercado – 10 para HIV/Aids e 11 para malária. Mas as outras doenças continuam negligenciadas, apesar de iniciativas recentes, que incluem parcerias com o setor privado. Mesmo com investimentos em HIV/Aids e malária, morre-se de Aids na África subsaariana mais do que em qualquer lugar do mundo; a malária mata mais do que as guerras. Em parte, porque a falta de infraestrutura local dificulta a chegada dos medicamentos e o acesso a médicos, clínicas, hospitais – quando existem.

No discurso à ONU sobre a tragédia anunciada da epidemia do ebola, Joanne Liu conclui: “Precisamos também abordar o desfalecimento da infra-estrutura do Estado. O sistema de saúde na Libéria entrou em colapso. As grávidas com complicações não têm para onde correr. A malária e diarreia, doenças facilmente evitáveis e tratáveis, estão matando pessoas.”