Por que jovens europeus têm ingressado em grupos terroristas?
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Por que jovens europeus têm ingressado em grupos terroristas?

adrianacarranca

11 Janeiro 2015 | 12h43

Adriana Carranca*

A resposta à pergunta sobre por que milhares de jovens europeus têm ingressado em grupos terroristas – a estimativa mais conservadora é de que 1 mil franceses estejam com o Estado Islâmico (EI) – pode estar nas prisões da Europa. A nova geração de jihadistas, da qual os irmãos Said e Chérif Kouachi (mortos após ataque ao Charlie Hebdo) são parte, tem em comum um passado de envolvimento com gangues, delitos e detenções.

É entre os muros e grades do sistema prisional de países como França e Inglaterra – e também nos EUA – que muitos estão se convertendo ao Islã (ou reafirmando sua fé) e adotando a ideologia radical de grupos como o EI, influenciados por extremistas condenados e presos com eles. É no sistema prisional que muitos têm o primeiro contato com redes que mais tarde facilitarão sua ida para Síria, Iraque, Iêmen, Afeganistão, ou são cooptados para ataques em solo europeu e americano.

“Esse recrutamento ocorre de ponta a ponta da Europa. Por conversas que tive, tanto on’ como ‘off the record’ e fotografias que vi em posse deles, não restou dúvida de que estes grupos agindo na Inglaterra têm conexões fortes com redes de países como França, Alemanha, Bélgica”, disse ao Estado o documentarista Raphael Rowe, de From jail do jihad (Da prisão para jihad), exibido pela rede BBC. Rowe passou oito meses infiltrado entre extremistas islâmicos que estão convertendo e cooptando jovens para o terrorismo dentro das prisões britânicas, uma ameaça que preocupa as autoridades de toda a Europa.


Foi na prisão que Chérif teria se radicalizado, sob influência de outro detento: Djamal Beghal, considerado o homem designado pela Al-Qaeda para abrir uma frente terrorista na Europa. Ele foi detido no início de 2001 por planejar um atentado a bomba contra a embaixada americana em Paris. Mais tarde, foi acusado de recrutar jovens europeus para a jihad, entre eles o britânico Richard Reid, que Beghal havia convertido na prisão e, três meses após o 11/9, tentou explodir um avião na rota Paris-Miami com um sapato-bomba; e o francês de origem marroquina Zacarias Moussaoui, condenado à prisão perpétua nos EUA pelos ataques às Torres Gêmeas.

Beghal, de origem argelina como os irmãos Kouachi, declarou ter formado uma rede de células terroristas que se estendia à Grã-Bretanha, França, Alemanha e Espanha.

Nos dez anos em que esteve preso, ele propagou a uma geração de jovens detentos sua ideologia extremista – tão radical, que teria levado Osama Bin Laden a classificá-lo como “sem limites” e a afastar-se dele, segundo a justiça britânica.

Ele teria conhecido Chérif na prisão em 2005, contato que levaria o jovem ao Iraque, após serem libertados. Em 2010, pouco antes da viagem, os dois foram fotografados juntos por autoridades francesas jogando futebol em Cantal, sul da França. Beghal também teria sido a ponte entre seu irmão, Said, e a Al-Qaeda no Iêmen, em 2011, onde recebera treinamento militar, segundo fontes americanas; e o homem que cooptou Amedy Coulibaly, cúmplice dos irmãos Kouachi morto pela polícia após fazer reféns em um supermercado. Coulibaly, segundo jornal Parisien, encontrou-se com o ex-presidente Nicolas Sarkozy em 2009, como um exemplo positivo de um programa de ressocialização de criminosos.

Coulibaly-and-Begh_3160512bNa foto: Beghal e Coulibaly em Murat, sul na França

A trajetória para o Islã radical na Europa frequentemente começa com um pequeno crime, que joga jovens vulneráveis no sistema prisional, onde se tornam presas fáceis de grupos jihadistas. Eles exploram a fragilidade – emocional e social – dos jovens para recrutá-los. “A população carcerária é a mais vulnerável e traz a vantagem, para os que buscam recrutá-la, de que tem conexões no submundo do crime, conhecem os caminhos de acesso a armas e dinheiro. Eles são os alvos mais prováveis dos extremistas e, eu diria, os mais facilmente manipulados”, diz Rowe.

Michael Coe, um jovem negro britânico retratado no documentário de Rowe, foi preso em 2005 no presídio de Manchester, noroeste da Inglaterra, por ameaçar policiais com uma espingarda quando estava em liberdade condicional pelo roubo de um carro. Oito anos depois, deixou a prisão como Mikaeel Ibrahim, convertido ao Islã pelo imigrante indiano de origem hindu, Dhiren Barot, também convertido e condenado à prisão perpétua por planejar um atentado à bomba contra alvos britânicos.

Dentro da cadeia, Barot ofereceu-lhe proteção. Ao deixar a prisão, em dezembro de 2013, Coe não foi recebido do lado de fora por parentes, mas por Abdul Muhid e Mizanur Rahman, extremistas islâmicos que já haviam cumprido pena por incitar a violência em protestos na Embaixada da Dinamarca em Londres, em 2006, contra charge do profeta Maomé feita por um cartunista dinamarquês.

A rede integrada por eles deu a Coe todo o suporte fora da prisão. Ele fala na irmandade entre os extremistas e como o Islã mudou sua vida – Coe parou de beber e usar drogas e casou-se com uma muçulmana. Os jihadistas o convenceram que a fonte da opressão de pobres, imigrantes, negros e muçulmanos é a mesma: o Ocidente e seu estilo de vida corrompido. Em vídeo produzido pelos jihadistas para estimular outros a seguir seu exemplo, ele elogia Bin Laden pelo 11/9. Há três meses, Coe voltou a ser preso, dessa vez ao tentar deixar o país para se unir aos jihadistas do EI.

Ismael Lea South, britânico de origem caribenha que foi convertido na prisão, alerta para outro perigo: segundo ele, os extremistas já começam a dominar o tráfico de drogas na Europa para levantar fundos para a jihad. “Eles convencem estes jovens de que continuar no tráfico não é anti-Islã porque se justifica na guerra contra os opressores”, disse South ao Estado.  Em outras palavras, eles estão usando o “pecado” do “opressor” – as drogas que corrompem o Ocidente, em sua visão – contra ele próprio. “Gangues inteiras da Inglaterra estão se convertendo com esse discurso.”

South, ex-integrante de uma gangue em Londres, fundou o Salam Project (Projeto Paz) para tentar resgatar jovens radicalizados nas prisões. “O Islã é uma religião pacífica”, diz.

Uma das táticas adotadas por autoridades britânicas e francesas é transferir acusados de cooptar jovens dentro das prisões para outras unidades – antes que consigam formar uma rede de seguidores –, mas isso pode estar fazendo apenas com que a ideologia letal dos extremistas se espalhe pelo sistema prisional.

“Eu diria que 85% dos presos são jovens pobres, de famílias desestruturadas, que largaram a escola. O que esses extremistas estão oferecendo a eles é uma nova família, um novo estilo de vida e a mesma fraternidade das gangues, mas em torno de uma ideologia maior. Eles propagam a jihad como o ‘extremismo correto’, enquanto o crime seria o ‘extremismo errado’. É isso que está convencendo esses jovens a lutar na Síria. O sistema prisional não tem ninguém que fale a língua deles para dizer que isso está errado.”

Para esses jovens, o Islã se tornou o novo anti-establishment, a exemplo do movimento que levou muitos negros, como Malcom X, a se converterem nas prisões americanas nos anos 1960, como forma de protesto contra a supremacia branca cristã. “Eles passaram a ver o Islã como a nova ordem para desafiar as autoridades”, diz Rowe, da BBC. Ele diz que o acesso aos extremistas foi facilitado por seu histórico pessoal – Rowe esteve preso por 12 anos. “Eles queriam me converter.”

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Acusados de atentados na França se converteram ao Islã na prisão

Responsável pelos atentados que deixaram sete mortos (entre eles três crianças) na região de Toulouse, sudoeste da França, em 2012, o francês de origem argelina (como os irmão Kouachi) Mohamed Merah era um velho conhecido das autoridades antes de se tornar um extremista. Ele era descrito como “delinquente juvenil”, “violento desde a infância” e “com problemas comportamentais”. Criado pela mãe com quatro irmãos em um conjunto habitacional do governo para famílias pobres, aos 23 anos ele já somava 15 passagens pela polícia, por roubo e direção perigosa, até ser detido e, segundo disse à imprensa seu advogado Christian Etelin na época, radicalizado e cooptado por extremistas islâmicos na prisão. Em liberdade, desapareceu nas montanhas do Afeganistão e Paquistão, onde teria sido treinado, antes de voltar à França para o atentado. Ele foi morto pela polícia logo depois.

Mehdi Nemmouchi, de 29 anos, responsável pelo ataque contra o Museu Judaico de Bruxelas, que deixou quatro mortos, era descrito como um “pequeno criminoso” e foi preso três vezes antes de se tornar um radical islâmico. Ele teria se convertido pelas mãos de extremistas durante o último período em que passou na prisão: entre 2007 e 2012. Segundo declarações à Le Point, o jornalista francês Nicolas Hénin reconheceu Nemmouchi como o homem responsável por sua guarda e a de outros sequestrados (eles foram libertados no ano passado) em Aleppo, na Síria, para onde Nemmouchi teria fugido. Ele seria o responsável também pela guarda dos jornalistas James Foley e Steven Sotloff e do agente humanitário David Haines, todos britânicos, antes de serem decapitados pelo Estado Islâmico.

* Uma versão deste texto foi publicada na edição impressa de 11/01/2015 do Estadão