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Premiê paquistanês rejeita acusações dos EUA de ajuda do país a Bin Laden

adrianacarranca

10 Maio 2011 | 02h47

No twitter @AdrianaCarranca

Adriana Carranca – O Estado de S.Paulo
ENVIADA ESPECIAL
ISLAMABAD

No primeiro pronunciamento oficial sobre a morte do líder da Al-Qaeda, Osama bin Laden, dia 2, em Abbottabad, o premiê do Paquistão, Yousuf Raza Gilani, negou que o seu governo tivesse conhecimento da presença do terrorista mais procurado do mundo em solo paquistanês.

Em discurso no Parlamento, Gilani ordenou uma investigação conjunta da Justiça e das Forças Armadas sobre o episódio que deflagrou uma crise política no país. O atual premiê também negou envolvimento na operação conduzida pelos EUA. Embora tenha feito questão de reafirmar “confiança” do governo nas Forças Armadas e no serviço de inteligência (ISI), Gilani disse que a investigação deverá apontar “falhas” na segurança que permitiram a Bin Laden esconder-se, possivelmente durante anos, em uma cidade militar, a pouco mais de 100 km da capital, Islamabad, e aos EUA invadir o espaço aéreo paquistanês, na operação que resultou na morte do terrorista.


Sob forte pressão doméstica e externa, Gilani fez um discurso dúbio e sem surpresas. Ao mesmo tempo em que admitiu falhas na segurança, o premiê rejeitou acusações de cumplicidade e incompetência das autoridades no caso Bin Laden. “Tais alegações são absurdas”, disse.

À comunidade internacional, Gilani disse que o Paquistão está “determinado a investigar a fundo como, quando e por que Osama Bin Laden estava em Abbottabad”. “O Paquistão está unido no compromisso de eliminar o terrorismo e determinado a não permitir que seu solo seja usado para militância”, declarou, reafirmando “interesse mútuo” com os EUA na parceria contra o terrorismo. “Nossa relação com os EUA é muito importante… Temos uma parceria estratégica que acreditamos ser de interesse mútuo entre as nações.”

Em resposta a críticas internas de que tem sido alvo, Gilani alinhou seu discurso ao dos militares. Embora tenha, antes, classificado a operação americana como uma “grande vitória”, desta vez o premiê preferiu reforçar a soberania nacional. “Ações unilaterais como a da Marinha americana (Seals) no esconderijo de Osama têm risco de sérias consequências”, disse, ressaltando que o país tem “o direito de retaliar com força total”.

Gilani lembrou, ainda, que a Al-Qaeda não nasceu no Paquistão e, portanto, o país “não pode se responsabilizar sozinho pela criação da rede terrorista”. Ele culpou “todas as agências de inteligência do mundo” por falharem em não localizar Bin Laden. Em uma clara alusão à intervenção americana no Afeganistão para expulsar os comunistas da ex-União Soviética do país, nos anos 1980, Gilani disse que o Paquistão “não convidou Osama bin Laden” ao país ou mesmo ao vizinho Afeganistão.

Mas o primeiro-ministro não convenceu os críticos do governo. “Essa é a maior humilhação que o governo e as Forças Armadas do Paquistão já enfrentaram”, disse ao Estado o líder do partido da oposição Tehreek-e-Insaf (Movimento por Justiça) e ex-jogador de críquete, Imran Khan. Conhecido por sua retórica antiamericana, Khan viu sua popularidade aumentar após a operação de caça a Bin Laden.

Ele promete levar os jovens às ruas e parar Karachi, a maior cidade do Paquistão, nos dias 21 e 22 em protesto contra as ações americanas no país e pela renúncia do premiê e do presidente Asid Ali Zardari. Não é o único. Até mesmo o companheiro do Partido Popular do Paquistão e ex-ministro das Relações Exteriores, Shah Mehmood Qureshi, pediu publicamente a renúncia dos dois líderes e do chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, general Ashfaq Parvez Kayani.

Em um encontro fechado com oficiais de Rawalpindi, Kharian e Sialkot, Kayani disse ontem que “informações incompletas” e a “falta de detalhes técnicos” têm dado margem a especulações. Para acalmar a oposição, Kayani e Gilani falarão conjuntamente ao Parlamento na sexta-feira. A sessão será transmitida ao vivo, segundo Gilani, e os parlamentares poderão fazer perguntas a ambos.

O líder da oposição, Chaudhry Nisar, disse que a iniciativaé importante, pois a nação “não ficou satisfeita” com as explicações doPrimeiro Ministro, ontem. Há dois meses fora do país para tratamento médico, o líderda Liga Muçulmana e ex-premiê Nawaz Sharif também tenta capitalizar dividendosda crise política no Paquistão. Ele voltou ao país e tem dado declaraçõesclassificando a operação americana como “um ataque à soberania”. Ele lembrououtro incidente diplomático, quando o agente da CIA Raymond Davis, acusado dematar dois paquistaneses dentro do país, foi solto a pedido dos EUA.

Colocando ainda mais pressão sobre o Paquistão, o embaixadordos Estados Unidos em Islamabad, Cameron Munter, disse em entrevista à emissorade TV local GEO News, que após a morte de bin Laden “é obrigação de ambos o Paquistãoe os EUA caçar o número 2, 3, 4 da Al-Qaeda”. Tudo indica que a crise políticano Paquistão está apenas no início.

Texto publicado, parcialmente, no Estadão.

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