Projeto Jornalismo Humanitário: ‘Estado’ e blog ‘do front’ anunciam parceria com Médicos Sem Fronteiras
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Projeto Jornalismo Humanitário: ‘Estado’ e blog ‘do front’ anunciam parceria com Médicos Sem Fronteiras

adrianacarranca

08 Maio 2014 | 15h40

Na última coluna, falei sobre algumas das guerras esquecidas da África. É com enorme alegria, portanto, que anuncio o projeto Jornalismo Humanitário, uma parceria do Estado e do blog “do front” com a organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras. O objetivo dessa parceria é estimular nos estudantes de jornalismo o interesse pela cobertura de crises humanitárias que recebem pouca atenção da imprensa mundial e, ao mesmo tempo, aumentar o espaço dedicado às notícias e discussões sobre essas crises.

Nesse sentido, o blog abrirá espaço para a publicação do material apurado em uma visita a campos de refugiados em Uganda pela estudante Talissa Monteiro, ganhadora do concurso de reportagem promovido por MSF e do qual o blog “do front” e o Estado participaram como jurados. A reportagem escrita por Talissa para o concurso, sobre refugiados de países como Iraque que viviam na Síria e tiveram mais uma vez de se deslocar diante do novo conflito, foi considerada a melhor entre os trabalhos de 25 estudantes que cursaram a Oficina de Jornalismo de MSF, da qual fui uma das palestrantes. Foi dessa experiência que surgiu a ideia da parceria.

Os estudantes que participaram da Oficina de Jornalismo foram selecionados entre 387 inscritos. São jovens talentosos e dispostos a usar esse talento para o bem. Entre os finalistas do concurso de reportagem, além de Talissa Monteiro, estiveram os estudantes Janaina Luiza Rodrigues Dorea, Mariana Pitasse Fragoso e Pedro Rêgo Henriques. A eles, parabéns e sucesso. Tenho certeza de que nos encontraremos em campo!

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Médicos Sem Fronteiras é uma das mais ativas organizações humanitárias. São poucas as que de fato testemunhei atuando nos lugares mais remotos e complicados do mundo, em condições de trabalho e de vida inimagináveis para a maioria dos médicos e enfermeiros e outros profissionais estrangeiros que atuam em campo.

Falo de vilarejos na República Democrática do Congo onde vacinas, remédios e os profissionais só chegam após oito horas de voo em um pequeno avião de Kinshasa, a capital, a Goma, principal cidade do leste devastado por conflitos. E, de lá, outras cinco ou seis horas em um jipe, seguidas de mais cinco horas na garupa de uma motocicleta por uma picada onde a circulação é dificultada pela mata densa, uma espessa camada de lama e a presença de dezenas de rebeldes armados. Acompanhei em outubro o atendimento a vítimas de um ataque em Lwibo e foi assim nosso trajeto. Falo do Haiti três meses depois do terremoto, quando muitas das organizações humanitárias já tinham deixado o país. Do cinturão tribal da fronteira entre Paquistão e Afeganistão, um dos lugares mais perigosos para estrangeiros. Do Sudão do Sul, num momento em que os funcionários das embaixadas dos EUA e da Grã-Bretanha e de muitas entidades estrangeiras batiam em retirada. E falo apenas do que testemunhei com os próprios olhos. Essa parceria é para mim, portanto, importante e é com enorme satisfação que abro o espaço deste blog para a cobertura de temas humanitários. 

Como repórter do Estadão, a minha viagem e todos os custos da cobertura, é importante ressaltar, foram financiados pelo jornal.

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Talissa Monteiro tem 21 anos e é aluna do Centro Universitário de Volta Redonda. Durante três dias, ela me acompanhou na cobertura da crise humanitária no norte de Uganda, região que recebeu o maior número de refugiados da nova guerra civil no vizinho Sudão do Sul, deflagrada em dezembro. Essa foi sua primeira cobertura internacional. De Uganda, Talissa voltou ao Brasil para escrever e produzir os vídeos que serão publicados neste blog ao longo das próximas duas semanas, a partir de segunda-feira.

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Sobre a comissão julgadora:

A comissão julgadora foi formada pelo Estado, pelo professor de Jornalismo Humanitário da Universidade Federal Fluminense (UFF), Pedro Aguiar, e por três profissionais de comunicação de MSF, Alessandra Vilas Boas, diretora da área; VâniaAlves, assessora de imprensa e Lia Gomes, redatora.  A comissão avaliou os textos observando especialmente clareza, objetivo, redação, criatividade e nível de informação.

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A parceria que permitiu à estudante me acompanhar nessa cobertura e ter seu material publicado neste espaço foi, para mim, inspirada em um concurso anual promovido pelo blog de Nicholas Kristoff, colunista do New York Times, a quem admiro, e em iniciativas semelhantes que têm o objetivo de promover a cobertura de crises esquecidas como a do Pulitzer Center for Crisis Reporting.

Vem de Joseph Pulitzer uma de minhas frases favoritas sobre a função do jornalista:

“Iluminar os lugares escuros e, com um profundo censo de responsabilidade, interpretar esses tempos conturbados.” 

Este é um projeto piloto. Mas a ideia é realizá-lo anualmente, dando a um estudante a cada ano a oportunidade de cobrir uma crise humanitária.

É também minha intenção abrir este espaço para estudantes e profissionais de jornalismo, relações internacionais, direito e outras áreas, com interesse em temas como direito humanitário internacional e direitos humanos.

Acompanhem aqui no blog!

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Ao Estadão, minha casa nos últimos 12 anos, meu sincero agradecimento pela coragem de investir na viagem de uma repórter a lugares como República Democrática do Congo, Uganda e Sudão do Sul para testemunhar in loco algumas das maiores tragédias humanas atuais, que tantos outros escolhem ignorar.

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LEIA MAIS:

Foto: Pacientes aguardam atendimento na clínica operada por MSF no campo de Nyumanzi, onde é feita a triagem dos refugiados sul sudaneses que chegam a Adjumani, no Norte de Uganda / Adriana Carranca

Depois de visitar os campos de refugiados na região de Adjumani, eu continuei a viagem sozinha pelo norte de Uganda, seguindo os passos do líder do Exército da Resistência do Senhor, Joseph Kony, que matou, mutilou e sequestrou milhares de crianças, mulheres e homens na região, seu reduto. Leia nos links:

Por dentro da mente de um genocida
Uma cidade assombrada pelo passado
Vídeo: O comandante de Joseph Kony
Vídeo: A vida depois da guerrilha

Do norte de Uganda, atravessei a fronteira para o Sudão do Sul e cruzei o país por terra até a capital, Juba. Leia algumas das reportagens publicadas por mim sobre a guerra no Sudão do Sul e a crise em Uganda aqui:   

Guerra étnica oculta interesse por riqueza
Refugiados lutam pela sobrevivência
Marcas étnicas são sentenças de morte
Conflito no Sudão do Sul expulsou um milhão de pessoas
Viúvas e crianças são maioria entre os que deixam o Sudão do Sul
Transtornos psicológicos são comuns