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Sudão do Sul: em 20 anos, lembraremos o aniversário de mais um genocídio?

adrianacarranca

06 Maio 2014 | 15h42

Primeiro, quero pedir desculpas pela longa ausência. Fiz uma viagem a trabalho para a África – e ninguém está realmente preparado para o que vai testemunhar na África subsaariana. Minha primeira experiência na região, em outubro, quando fui cobrir a guerra na República Democrática do Congo, foi um soco no estômago. E não foi diferente nessa viagem ao epicentro do mais recente conflito africano: a guerra civil no Sudão do Sul, que já matou dezenas de milhares de pessoas desde dezembro e obrigou 1 milhão de sul sudaneses a fugirem de suas casas, num dos maiores êxodos já registrados no continente em tão pouco tempo.

Sobre o Congo, escrevi:

É o holocausto africano. Mas pouco se ouve falar sobre ele porque ocorre na floresta densa de um continente esquecido, a África, não mata brancos, não ameaça o Ocidente.

Eu poderia escrever a mesma frase sobre o Sudão do Sul, trocando apenas a floresta densa pela savana. A guerra sul sudanesa não se esconde. Ocorre entre árvores esparsas e arbustos isolados, sob o sol escandante da África e os olhos de uma comunidade internacional até agora inerte.


O país foi criado há apenas três anos para apaziguar os confrontos do norte muçulmano com os cristãos sulistas, com saldo de 2,5 milhões de mortos. É uma coincidência funesta que a guerra civil no jovem Sudão do Sul, claramente redefinida por linhas étnicas – dinka, do presidente Salva Kiir, e nuer, do vice-presidente deposto, Riek Machar –, tenha estourado perto do aniversário dos 20 anos do genocídio em Ruanda.

Enquanto eu atravessava por terra do norte de Uganda para dentro do inferno sul sudanês, promessas de que outro genocídio não se repetiria eram feitas por líderes e autoridades. “Nunca mais”, disse Ban Ki-moon, secretário-geral da ONU, em memorial dos 20 anos da tragédia. Mas os ecos de Ruanda ressoavam em cada palmo da estrada que cruzei entre Nimule, a primeira cidade da fronteira, e a capital, Juba. Nas dezenas, se não centenas, de pessoas aos farrapos que tomavam o caminho contrário de nossa van, fugindo a pé dos conflitos levando tudo o que podiam; nas cinzas ainda fumegantes dos vilarejos deixados para trás às pressas.

E o que dizer das imagens que circularam na semana passada de corpos dilacerados e largados ao longo da estrada de Bentiu, capital do estado petrolífero de Unity, disputada entre as forças leais ao presidente Salva Kiir e os rebeldes liderados por Riek Marchar. As imagens foram disponibiizadas no Youtube pelo funcionário de mais alto escalão da ONU no Sudão do Sul, Toby Lanzer.

Havia tantos corpos que tiveram de ser removidos das ruas com uma escavadeira. Os rebeldes separaram a população por etnia e, nas contas de Lanzer, mataram 400 dinkas no ataque.

A matança foi “condenada” pela ONU e descrita como uma “abominação” pelos EUA, segundo as agências americanas. Seria notícia se não fosse assim. O que esperar da ONU e de seu principal financiador se não condenar o massacre de civis? O ataque em Bentiu teria sido cometido por rebeldes, mas o governo é acusado dos mesmos crimes. O conflito começou em dezembro com uma briga entre guardas do palácio presidencial, após Marchar supostamente ter ordenado o desarmamento de soldados da etnia de seu opositor. Testemunhas relataram como as tropas leais ao presidente invadiram bairros predominantemente nuer e mataram milhares de homens.

O conflito no Sudão do Sul tem sido marcado pelo total desrespeito às leis internacionais, com crimes de guerra e contra a humanidade cometidos por ambos os lados. Em Akobo e também em Bor, os deslocados foram assassinados dentro dos muros de proteção da ONU.

“Em nenhum outro lugar do mundo, os civis estão em maior perigo do que no Sudão do Sul. Nem na Síria, República Centro Africana ou em Darfur a ameaça de sectarismo é tão imediata quanto para certos grupos étnicos em áreas vulneráveis do Sudão do Sul. Dada a falta de proteção por parte das forças governamentais, a incapacidade das tropas da ONU em proteger um grande número de pessoas, e a ausência de maior proteção por parte da comunidade internacional em geral, centenas de milhares de pessoas estão suscetíveis a morrer nos próximos meses”, escreveram em um artigo conjunto Eric Reeves, autor do livro Sudan is Compromising With Evil (sem tradução para o português), e John Prendergast, co-fundador da ONG Enough Project, uma iniciativa para acabar com os genocídios e crimes contra a humanidade.

Há duas décadas debate-se sobre a inércia da ONU diante do telegrama enviado no dia 11 de janeiro de 1994 pelo então comandante da missão da ONU em Ruanda, o general canadense Roméo Alain Dallaire, em que alertava para os riscos de uma guerra civil entre hutus e tutsis. O genocídio de Ruanda, com pelo menos 800 mil homens, mulheres e crianças, predominantemente tutsis, assassinados por hutus então no poder, ocorreu nos três meses seguintes.

Agora não há apenas um telegrama alertando para o que poderia ocorrer, mas imagens de um massacre já em andamento. O que falta para a comunidade internacional agir? Levou ao Conselho de Segurança uma semana para se pronunciar sobre o massacre de Betiu. A ONU decidiu então enviar ao país o alto comissário para Direitos Humanos, Navi Pillay, e para a prevenção do genocídio, Adama Dieng. Ontem, o secretário-geral, Ban Ki Moon, desembarcou em Juba para avaliar a situação. Avaliar? A matança está ocorrendo agora e sob seus olhos. Para a Human Rights Watch, trata-se de um “massacre étnico” e ele entrou em uma “espiral fora de controle”.

Quantos mais terão de morrer para mostrar à ONU do que se trata a crise no Sudão do Sul? Por que a comunidade internacional não consegue prevenir massacres como esse? Assim como no Congo, trata-se de uma guerra travestida de conflito étnico, mas que esconde interesses econômicos. A essa altura, no entanto, cinco meses depois do início dos confrontos e após milhares de mortes, as sanções com que os EUA ameaçam o presidente Salva Kiir e o líder rebelde Riek Marchar não irão ferir mais a economia do que a própria guerra – a exportação do petróleo, sua única fonte de renda relevante, despencou desde o início dos conflitos. Será que em 20 anos lembraremos o aniversário de outro genocídio?

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