Uma década de terror
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Uma década de terror

adrianacarranca

16 Abril 2011 | 04h10

No twitter @AdrianaCarranca

Fiquei dois dias sem Internet. O acesso é lento e cai a toda hora, um desafio para os jornalistas. E isso porque a telefonia é o melhor serviço prestado no Afeganistão, desde a chegada dos estrageiros. Vive-se (literalmente!) na lama nesse país, mas com acesso ao mundo desenvolvido – restrito à elite afegã, é claro! (os mulás, o Taleban, os líderes tribais, os senhores de guerra, os funcionários do governo, embaixadas, bases militares e redações estrangeiras)

Propagandas de celular proliferam por Cabul

Todo o resto segue sem acesso a nada, nem televisão. Às vezes, vêem-se crianças carregando aqueles carrinhos de construção com uma bateria pesada, que eles levam para carregar para as suas TVs à válvula! As casas, as ruas não têm energia elétrica. A cidade não recolhe o lixo das ruas. Saneamento básico não existe para a maioria; as crianças brincam onde o esgoto corre à céu aberto.

E isso é Cabul, com seus quatro milhões de habitantes e outros milhares de expatriados, que atravessam as ruas esburacadas, enlameadas e escuras da capital afegã em seus potentes 4×4 protegidos por vidros à prova de bala e seguranças particulares armados até os dentes. Será que eles não vêem que sua presença aqui não está fazendo a menor diferença na vida do povo local? Os afegãos se perguntam: onde foi parar o dinheiro da prometida reconstrução? O que essa gente toda está fazendo aqui?

E eu leio no Afghanistan Times (é sério!), meu companheiro de todas as manhãs, que o presidente Hamid Karzai deu uma entrevista coletiva para anunciar que o Afeganistão e os Estados Unidos estão elaborando mais um “draft plan” (o esboço de um plano) para o seu país. Um esboço? Dez anos depois?

Daqui a 150 dias, no dia 11 de setembro de 2011, a ofensiva estrangeira no Afeganistão, liderada pelos Estados Unidos e da qual fazem parte 41 nações desenvolvidas, entrará no 10º ano. O saudita Osama Bin Laden, acusado de planejar os ataques terroristas às torres gêmeas do World Trade Center, continua desaparecido, o Afeganistão segue mergulhado em miséria e violência, o Paquistão nunca deixou de dar abrigo à AlQaeda, o Taleban está de volta na maior parte das províncias afegãs, o terrorismo global é hoje uma preocupação maior do que era ontem.

Em parte, é por isso que eu estou aqui, para entender de que diabos serve essa guerra sem fim!

*

As duas últimas grandes guerras no Afeganistão têm uma lógica perversa: não tiveram nada a ver com os afegãos! Eles assistiram os comunistas avançarem sobre suas terras, depondo um regime que bem ou mal dirigia o país à modernidade. Nos anos 1960 e 1970, o Afeganistão era destino turístico de europeus, em busca de sol, clima de montanha, boa comida, a magífica arte afegã em tapetes, joias feitas com pedras preciosas locais como o lapis lazuli e porcelana; além de um certo liberalismo, num dos únicos países muçulmanos em que as mulheres da capital usavam saia e poiam sair sem nada sobre os cabelos – embora, nas áreas rurais, as tradições permançam quase imutáveis desde os tempos de Gengis Khan. O Hotel Intercontinental era famoso por sua piscina na cobertura com uma vista magnífica para a Hindu Kush. O hotel ainda existe, mas parece ter parado no tempo, naqueles tempos de glória. Hoje parece um lugar abandonado e cheira a mofo; a piscina está fechada.

Então, os americanos vieram para “salvar” os pobres afegãos da tiraria do Exército Vermelho da antiga União Soviética. Usando o Paquistão com escudo, os Estados Unidos recrutaram, armaram e treinaram homens afegãos dos vilarejos montanhosos e áreas rurais. Despertaram neles a ideia da jihad (resistência), usando a religião como propósito para a luta contra os laicos comunistas. Assim, surgiram os mujaheddin (soldados de Deus). Com a ajuda estrangeira e o domínio natural sobre a geografia montanhosa que cobre 85% do Afeganistão, eles não tiveram grande dificuldade em expulsar os russos. Livre do avanço da ameaça comunista na região, os Estados Unidos foram embora, deixando o país nas mãos armadas dos mujaheddin. Divididos em etnias e tribos, eles mergulharam em uma guerra civil pelo controle do país, deixando um vácuo no governo central ocupado rapidamente pelo Taleban.

Sinais da guerra civil ainda presentes nas paredes de Cabul

Os jovens criados em madrassas prometiam dar fim aos conflitos e restabelecer a ordem. Não parecia má ideia aos olhos dos afegãos, àquela altura já cansados das lutas que já duravam havia quase duas décadas, desde a invasão soviética. Eles não conheciam ainda a tirania dos radicais islâmicos.

E, então, aconteceu o 11 de setembro. Bin Laden é saudita. Os terroristas do 11 de setembro eram todos árabes, com livre acesso ao Estados Unidos. Então, por que o Afeganistão? Suspeitava-se de que os Taleban teriam dado esconderijo a Bin Laden, mas o santuário de sua organização, a AlQaeda, era e continua sendo o Paquistão. Ainda que se aceite a invasão, a comunidade internacional, que deu seu aval à guerra, deve muitas explicações aos afegãos.

Como cerca de 2 mil radicais islâmicos miseráveis e analfabetos conseguem resistir, há dez anos, ao poderio militar de 41 nações desenvolvidas? Por que o Paquistão segue recebendo assistência financeira dos Estados Unidos, apesar de continuar sendo a base da AlQaeda e de supostamente abrigar homens como mulá Omar, o líder Taleban? Por que um presidente ineficiente e mergulhado em corrupção como Hamid Karzai segue tendo o apoio da comunidade internacional? Onde foi parar o dinheiro para a reconstrução do país? Em que foi usada a ajuda humanitária?

Essas questões certamente poderão explicar por que o povo afegão, que não suportava mais a tirania do Taleban e celebrou esperançoso a chegada das tropas estrangeiros em 2001, hoje se volta contra esses mesmos estrangeiros – há duas semanas, um condomínio da ONU foi invadido por civis na cidade de Mazar-e Sharif, no norte do Afeganistão, e sete funcionários da organização foram mortos, numa histeria coletiva que começou com um protesto contra a queima do Corão por um pastor americano ignorante.

Há dez anos dos atentados que mudaram o mundo, e do início de uma ofensiva global contra o terror, nós estamos menos protegidos hoje do que ontem. Por que?

Não são especialistas – com todo o respeito aos bons e necessários acadêmicos e estudiosos –, sentados em suas salas com ar-condicionado em alguma metrópole ocidental que vão poder responder a essas perguntas. Só os próprios afegãos, que viveram toda essa década em guerra e viram o mundo mudar do mesmo ponto de vista dos terroristas, é que detêm as respostas certas. Ou, pelo menos, alguma resposta, mais fiel à realidade local do que a retórica internacional. Suas vozes não deveriam continuar sendo ignoradas.

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