A França não é um país sério
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A França não é um país sério

andreinetto

04 Julho 2012 | 12h05

Nicolas Sarkozy é o segundo presidente consecutivo da França a sofrer investigações da Justiça por suspeitas de financiamento ilegal de campanhas e corrupção

A França não é um país sério.

Pelo menos é o que indicam as recentes escolhas feitas pelos cidadãos da terra de Voltaire e Rousseau para conduzir os rumos do país. Depois de Jacques Chirac ser condenado em 2011 a dois anos de prisão por financiamento ilegal de seu partido, a União pela República (RPR), agora é a vez de Nicolas Sarkozy, que ocupava o Palácio do Eliseu até maio passado, ser alvo de investigações da Justiça em Paris. Seria a corrupção política uma epidemia na França? Seria a França uma Itália berlusconiana?

Recapitulando: agentes da Brigada Financeira, um departamento especial da polícia para crimes de colarinho branco, inspecionaram hoje três imóveis ocupados por Sarkozy na capital, uma das residências da família, seu escritório de advocacia e seu novo gabinete, pago pelo Estado, ao qual ele tem direito por sua condição de ex-presidente. A ordem para as inspeções partiu do juiz de instrução do Tribunal de Bordeaux, Jean-Michel Gentil, que comanda as investigações sobre as suspeitas de financiamento ilegal na campanha presidencial de 2007, vencidas pela União por um Movimento Popular (UMP, direita), o partido de Sarkozy.

As suspeitas da Justiça são de que o ex-presidente, então como ministro do Interior e candidato à presidência, recebia doações não-declaradas de uma bilionária, Liliane Bettencourt, proprietária da gigante de cosméticos L’Oréal. Mulher mais rica do país, Liliane, 89 anos, foi interditada a pedido da filha porque seria explorada por todos os lados, fazendo doações de milhões a “amigos” como o fotógrafo e escritor Jean-Marie Barnier, de 65 anos.

O caso seria apenas uma grande fonte de lucro para revistas de fofocas e de negócios e não teria nada a ver com política se um nome não tivesse aparecido nas investigações. Trata-se de Eric Woerth, ex-tesoureiro de campanha da UMP e de Nicolas Sarkozy. De acordo com as apurações da Justiça, ele teria recebido diversas doações de dezenas ou centenas de milhares de euros em dinheiro vivo, oriundos de contas da bilionária na Suíça. Essa contabilidade não era registrada e teria sido usada para financiar a aventura de Sarkozy até o Palácio do Eliseu.

Os indícios de corrupção já reunidos pelo juiz de instrução são muito fortes. Entre eles está um depoimento de Claire Thibout, ex-contadora da empresária, que afirmou ter retirado dinheiro e presenciado a entrega de um envelope de € 150 mil a Woerth. Mas se suspeita que Sarkozy em pessoa também fizesse as “visitas secretas” a madame Bettencourt.

O affaire é grave. Mas é só mais um. Nicolas Sarkozy enfrentou suspeitas de lavagem de dinheiro, no caso Clearstream, de financiamento ilegal de campanhas, nos casos Karachi e Bettencourt, e está envolvido em denúncias de venda ilegal de armas, de novo no caso Karachi, e mais uma vez em suspeitas de recebimento de doações ilegais, no caso Kadafi, que envolveria o ditador da Líbia Muamar Kadafi, morto em 20 de outubro de 2011. Isso para não falar nas denúncias de uso dos serviços secretos e da polícia para investigar opositores políticos e jornalistas, como indicam as escutas ilegais feitas das conversas de repórteres do jornal Le Monde.

Tantas suspeitas agora podem ser investigadas porque a imunidade legal que Sarkozy gozava como presidente acabou em junho passado, com sua derrota para François Hollande. Ainda é cedo para dizer, mas o fato é que, se as denúncias forem comprovadas pela Justiça no futuro, a França terá sido governada entre 1995 e 2012 por políticos corruptos. Mais: por homens que já tinham um passado de suspeitas quando foram eleitos.

O que leva a algumas perguntas: a França não estaria passando por um processo de “berlusconização”, como a Itália sofreu durante duas décadas nas quais um homem como Silvio Berlusconi foi protagonista? Estaria a França passando por um período – grave e crônico – de crise moral e política?