Charges de Maomé: o desafio da liberdade de expressão
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Charges de Maomé: o desafio da liberdade de expressão

andreinetto

20 Setembro 2012 | 07h13

Árabes e europeus têm em comum um desafio: descobrir o equilíbrio entre a absoluta liberdade de expressão, a tolerância e o bom-senso 

Não contente com os levantes antiamericanos provocados pelo filme Inocência dos Muçulmanos na semana passada, a revista satírica francesa Charlie Hebdo, de Paris, decidiu jogar gasolina na fogueira – para usar uma expressão do chanceler Laurent Fabius – e publicar nesta quarta charges com imagens do profeta Maomé em cenas pornográficas. Desde os primeiros instantes, as poucas centenas de vozes mais radicais do islã na França denunciaram uma provocação religiosa digna de manifestações públicas. De outro lado, os autores se defenderam valendo-se do primado da liberdade de expressão nas democracias do Ocidente.

Por ironia, nove dias depois dos primeiros incidentes violentos e da morte do embaixador dos Estados Unidos na Líbia, Chris Stevens, Oriente e Ocidente parecem estar mergulhando num mesmo debate: a liberdade de expressão.

No Egito, onde eu estive até o último domingo, as vozes mais liberais da sociedade, mesmo ofendidas pelo filme realizado na Califórnia por cristãos radicais, advertiram: a abertura democrática trazida pela Primavera Árabe exigirá um debate público profundo sobre a liberdade de expressão nos países muçulmanos. Para os islamistas mais radicais, o desafio será compreender que em uma democracia os governos não autorizam ou proíbem opiniões, por mais duras ou desrespeitosas que sejam. Em caso de ofensas, cabe à Justiça, um poder independente do Executivo, arbitrar sobre eventuais responsabilidades. Trata-se de uma pílula difícil de engolir para uma sociedade fechada durante tantas décadas de ditadura e opressão política, mas o debate tende a ganhar força.

Paradoxalmente, em Paris, de onde escrevo este texto, os casos Inocência dos Muçulmanos e Charlie Hebdo suscitaram a discussão oposta do mesmo tema: sob a proteção da liberdade de expressão, cabe ofender crenças alheias? Na Europa, um continente que preza as liberdades individuais, a resposta automática é um intransigente “Sim”. Mas a Primavera Árabe começa a evocar uma reflexão. Desde a última semana, algumas vozes de intelectuais e de autoridades públicas se fazem ouvir em nome de uma ponderação: a de que a liberdade de expressão, um direito inalienável, bem pode vir acompanhada de tolerância e respeito intercultural.

Como lembrou ontem o ex-chanceler francês Bernard Kouchner, não se trata, de forma alguma, de defender qualquer limite legal à liberdade de expressão, uma pedra fundamental de democracias históricas como a da França ou a dos Estados Unidos. Trata-se, isso sim, de propor uma pitada de boa educação e de elegância ao livre arbítrio e às opiniões. Se os muçulmanos se sentem ofendidos por ironias ou piadas jocosas sobre seu profeta, não seria de bom senso apenas deixá-los em paz?