Crise no Mali e na Argélia: bem-vindo ao Sahel, foco islamista
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Crise no Mali e na Argélia: bem-vindo ao Sahel, foco islamista

andreinetto

18 Janeiro 2013 | 10h02

Avessa aos alertas de especialistas, a comunidade internacional ignorou a transformação da região do Saara em um território minado – e isso muito antes da Primavera Árabe

PARIS

Ao contrário do que algumas vozes oportunistas já começam a afirmar mundo afora, a Primavera Árabe, a crise no Mali e o consequente ataque terrorista na Argélia não “abriram as portas” da caixa de pandora do terrorismo no norte da África. Quem disser isso, caro leitor, está mal-intencionado.


No marasmo de notícias de janeiro de 2013, a opinião pública internacional está descobrindo um novo foco de preocupações: o Sahel. Essa região – cujo nome significa “fronteira”, em árabe – marca uma faixa de território de transição do deserto do Saara, situado ao norte, em direção às savanas, ao sul. Há pelo menos 10 anos, essa região árida e inóspita abriga múltiplos campos de treinamento e instalações de grupos islâmicos extremistas e armados, que se espalham do sul da Argélia ao norte do Mali, da Mauritânia ao Níger, de trechos do Chade ao interior profundo e desértico da Líbia.

Em primeiro lugar, não, não se trata de um novo Afeganistão, porque as naturezas desses movimentos são diferentes. Ao contrário dos talibãs, os jihadistas do Sahel não têm a mesma implicação social com as comunidades locais. Eles não representam um modo de vida, como os islamistas afegãos, mas uma ameaça importada.

Depois do início do conflito no Afeganistão e com o aumento da repressão no Paquistão, grupos derivados da Al-Qaeda se instalaram no Iêmen e no Sahel. Nessas regiões operam, respectivamente, a Al-Qaeda da Península Arábica e a Al-Qaeda do Magreb Islâmico. Esse segundo grupo, também conhecido como AQMI, foi protagonista da invasão do norte do Mali e do sítio industrial na Argélia.

No Mali, eles atuam também com grupos locais. Dos cerca de 7 mil jihadistas que estão no país neste momento, enfrentando as forças armadas da França, cerca de 5 mil são tuaregues, segundo os serviços secretos franceses. Tuaregues têm toda uma história de marginalidade e de nomadismo na região do Sahel. E esse problema, é verdade, se acentuou após a Primavera Árabe na Líbia, quando milhares deles lutaram como mercenários ao lado de Muamar Kadafi.

Os tuaregues que viviam na Líbia, a maioria na região de Bani Walid, hoje fantasma, foram expulsos da cidade por terem participado do sangrento cerco à vizinha Misrata. Os inocentes e pacíficos migraram para a periferia de outros centros urbanos líbios, como Trípoli e Benghazi, onde enfrentam o preconceito e, não raro, a vingança. Outros milhares, armados e perigosos, formam os grupos que invadiram do norte do Mali, nas imediações de Timbuctu.

Também no Sahel, mas mais no interior da Argélia e também da Tunísia, operam milícias formadas por ex-kadafistas, que fugiram da Líbia após a derrota na revolução. O mundo faz de conta que elas não existem mais, como se o kadafismo tivesse acabado. Mas quem conhece a região sabe que militares fiéis ao antigo regime e mercenários em geral ainda estão lá.

A questão é: é mentirosa a versão de que todo o desequilíbrio regional é causado pela Primavera Árabe. Observe que os que defendem essa bandeira são os mesmos que estiveram quietos ao longo dos últimos 18 meses, mas que até meados de 2011 ainda levantavam a voz para defender ou até elogiar os governos autocratas e sanguinários como o de Ben Ali, na Tunísia, de Mubarak, no Egito, Kadafi, na Líbia, e Saleh, no Iêmen. Não, a presença de islamistas na região não é culpa do anseio legítimo de  liberdade e democracia manifestado pela maior parte da população desses países.

Há pelo menos uma década esses grupos jihadistas vêm se estabelecendo no Sahel, com o conhecimento dos serviços secretos do Ocidente e, portanto, de seus líderes políticos. Concentradas demais na guerra no Afeganistão, impossível de ser vencida, as potências ocidentais fizeram vistas grossas para o fato de que os mesmos grupos extremistas se reorganizavam no deserto africano, na época em que Tunísia, Líbia, Egito e Iêmen ainda eram governados pelos tiranos depostos. Por razões inexplicáveis – e inaceitáveis –, a Organização das Nações Unidas (ONU) e, a rigor, o Ocidente todo ignorou o problema da fome, da miséria e do extremismo crescente na região, o que favoreceu e favorece, por consequência, o recrutamento por brigadas jihadistas.

Sim, a Primavera Árabe é mais um fator de desestabilização. Mas não, a culpa do enraizamento extremista no Sahel não é da democracia e da liberdade recentes trazidos pela abertura política. Quem disser isso, meu caro, ou não sabe o que está falando ou tem más intenções.