Depois da tragédia humana, as perdas para a humanidade
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Depois da tragédia humana, as perdas para a humanidade

andreinetto

02 Outubro 2012 | 14h39

As mortes de civis, rebeldes e militares continuam a ser o pior dano na Síria, mas a perda do patrimônio histórico prova mais uma vez o quão estúpida a guerra civil é

A revolução na Síria iniciada em março de 2011 e transformada em guerra civil já deixou cerca de 30 mil mortos. Tão trágico como os combates, porém, é que o conflito se banaliza dia após dia sob a indiferença da comunidade internacional, perdida nos meandros políticos do Conselho de Segurança das Nações Unidas.

Na manhã de segunda-feira, 1, o Observatório Sírio dos Direitos Humanos (OSDH), uma ONG oposicionista com sede em Londres, divulgou vídeos de ataques perpetrados em Alepo e em regiões próximas. Pouca gente – na verdade, ninguém – se preocupou em comentá-los na página da organização no Facebook.

As primeiras imagens às quais me refiro, insuportáveis, mostram os corpos de três crianças mortas durante bombardeios na cidade de Salqin, na província de Idlib, vizinha à de Alepo. Outras, tão ou mais chocantes, se centravam sobre uma caminhonete cuja caçamba estava lotada de pedaços de corpos amputados e carbonizados por um bombardeio violento. Ao lado, um pai em prantos chorava a perda de um de seus filhos. São imagens grotestas, que revelam o pior de nossa espécie.

O problema é que essas imagens se tornaram cotidianas. Todos os dias, o observatório ou civis independentes postam no YouTube ou no Facebook dezenas de vídeos denunciando a destruição da cidade de Alepo e as perdas de sua população civil. E cada vez menos esboçamos ou ouvimos os líderes políticos dos principais países do mundo esboçarem uma reação qualquer, uma iniciativa concreta para parar o massacre na Síria.

Algumas horas depois da divulgação dos vídeos dos massacres, filmes amadores mostraram pela primeira vez trechos da citadela de Alepo sendo destruídos por incêndios. Trata-se de um dos patrimônios históricos mais valiosos do mundo, não por acaso tombado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) desde 1986.

No ritmo em que a guerra avança na Síria, é lógico deduzir que a citadela se tornará, cedo ou tarde, um dos focos do conflito armado. Isso me leva a uma constatação: em algum momento de um futuro próximo, a destruição do patrimônio milenar que a guerra está causando também vai deixar de nos abalar. Então teremos adotado a mesma indiferença que nos permite dormir enquanto os sírios, adultos e crianças, são assassinados a sangue frio.