Guardião dos direitos humanos e da liberdade, Reino Unido deve dar exemplo
As informações e opinões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Guardião dos direitos humanos e da liberdade, Reino Unido deve dar exemplo

andreinetto

17 Agosto 2012 | 19h29

Foto: Wikipeaks

A decisão do governo equatoriano de conceder asilo político a Julian Assange, jornalista e fundador do Wikileaks, representa sem dúvida um golpe no orgulho do Estado britânico. Mas as suscetibilidades feridas não justificam as ameaças, mais ou menos veladas, de invasão da missão diplomática do Equador em Londres. Cogitar essa alternativa, mesmo em bastidores políticos, é um delírio irracional e perigoso para a proteção da diplomacia internacional, da qual o Reino Unido, como grande nação que é, deveria ser um dos guardiões.

Os tempos são mesmo duros para o multilateralismo mundial. Quem imaginaria que, em uma democracia exemplar, ameaças à segurança de uma embaixada estrangeira pudessem ser evocadas por líderes políticos britânicos?

A história é pródiga em exemplos de dissidentes protegidos de ambientes hostis graças às convenções internacionais. Poderíamos evocar o exemplo do cardeal húngaro Jozsef Mindszenty, dissidente e ferrenho opositor do comunismo da Hungria em tempos de Guerra Fria, protegido na embaixada dos Estados Unidos entre 1956 e 1971 – sem que nenhuma tentativa de intervenção tenha sido promovida por húngaros ou soviéticos. Ou ainda lembrar Cheng Ghangcheng, dissidente chinês que fugiu de sua prisão domiciliar e conseguiu ingressar na embaixada americana neste ano.

Os dois exemplos foram protagonizados por dissidentes políticos vistos como “criminosos” pelos governos aos quais se opunham. Isso não significa que eram criminosos de fato. Por essa razão, ambos foram protegidos por missões diplomáticas dos Estados Unidos, e poderiam ter encontrado amparo em qualquer embaixada do Ocidente, o “mundo livre” e democrático por definição. Por quê? Porque é em nome dessa política, a de respeito dos direitos humanos e das liberdades individuais, que as nações da Europa e das Américas dizem lutar nas Nações Unidas.

O Reino Unido de David Cameron perdeu ontem uma batalha contra Julian Assange e deve arcar com o custo político e moral dessa derrota. Assange não venceu um round graças à decisão do governo do Equador, que exerce sua soberania – ainda que contestável. Ele venceu quando superou as falhas de segurança da polícia britânica que lhe permitiram fugir de sua prisão domiciliar em 19 de junho. À época, tratava-se de um prisioneiro sujeito à sua jurisdição. Agora, trata-se de um asilado político que será julgado pela História.