Hollande: sem estado de graça, em estado de alerta
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Hollande: sem estado de graça, em estado de alerta

andreinetto

16 Maio 2012 | 08h14

Meteorologia na posse foi o menor dos problemas do novo presidente de uma França estagnada e líder de uma Europa em crise

É quase um jargão no mundo da política afirmar que após a posse todo novo governante pode contar com um “estado de graça”, um momento de encantamento com a opinião pública e com líderes estrangeiros. Pois bem, esse não será o caso do socialista que colocou Nicolas Sarkozy para fora do Palácio do Eliseu na manhã de ontem. François Hollande assumiu o poder na França abaixo de mau tempo – e não se trata de meteorologia. Muito além dos banhos de chuva e de granizo sob um frio de 6oC que ele enfrentou, por sua própria escolha, está a intempérie que o novo chefe de Estado terá de encarar nas primeiras semanas de seu governo.

Antes mesmo de assumir, às 10h, Hollande recebera uma péssima notícia da parte do Instituto Nacional de Estatísticas e Estudos Econômicos (INSEE), o IBGE local: a França estagnou ao longo dos três primeiros meses, registrando um rigoroso 0% de crescimento em 2012. O porcentual, que fala por si, se soma ao índice do período anterior, o quarto trimestre de 2011, quando a economia teve direito a um pífio 0,1% de performance. Para o conjunto do ano, a perspectiva da Comissão Europeia, anunciada hoje em Bruxelas, é de 0,5% de incremento do Produto Interno Bruto (PIB) – insuficiente até para cobrir o avanço da dívida pública, apesar da extensão do programa de austeridade. O preocupante é que o futuro também não aparece radiante. Em lugar de 1,7% em 2013, o prognóstico agora é de 1,3%.

No dia de sua coroação, os problemas seguiram se acumulando durante a posse. De Atenas veio a notícia de que os três principais partidos do país não chegaram a um acordo para a formação de um governo de coalizão que permitisse a gestão de crise pela Grécia. Com Lucas Papademos como primeiro-ministro biônico, colocado no cargo por pressão internacional, Bruxelas tinha ao menos o controle remoto para monitorar a implantação das medidas de rigor no país. Com a convocação de novas eleições para o meio de junho, a Grécia afunda no desconhecido sem piloto, e leva consigo a Europa. Nem a oratória de Jean-Claude Juncker, chairman do fórum de ministros de Finanças, em favor da permanência do país na zona do euro garante a continuidade de Atenas na União Europeia.

O terceiro problema de Hollande no dia de sua posse foi a visita à Alemanha. Muito mais grave que o raio que atingiu o avião presidencial era a expressão da chanceler Angela Merkel ao recebê-lo em Berlim. França e Alemanha são muito mais do que os motores, são a razão de ser da União Europeia. Sem um bom entendimento, o que Hollande e Merkel não têm – pelo menos até aqui –, a integração não avança. E, se não avançar, é o fim da linha. Os melhores economistas da Europa concordam que, sem governança comum, com políticas fiscais e de desenvolvimento coordenadas, o euro não resistirá no futuro, mesmo que atravesse a crise atual.

Eis então os três mais imediatos desafios no campo econômico da gestão Hollande – todos urgentes: (1) relançar a economia da França, sem abrir mão da responsabilidade fiscal; (2) pressionar os mais relapsos do bloco, os gregos, a respeitar os contratos – o que nem Merkel até aqui conseguiu; e (3) arrancar dos mais austeros, os alemães, um mínimo de flexibilidade para relançar os investimentos públicos, dando um toque de keynesianismo a uma União Europeia cansada do rigor excessivo e sufocante. Sem experiência administrativa e liderando um Partido Socialista (PS) afastado do poder há 17 anos, Hollande não conta com um estado de graça; ele enfrenta um estado de alerta.