“Marquês de Rabicó go home!”: Mais uma insólita batalha da Quarta Guerra Suína entre Brasil e Argentina
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“Marquês de Rabicó go home!”: Mais uma insólita batalha da Quarta Guerra Suína entre Brasil e Argentina

arielpalacios

24 Março 2012 | 18h35

O governo da presidente Cristina Kirchner não estaria disposto a cumprir o pacto anunciado na semana passada entre o ministro da Agricultura do Brasil Jorge Mendes Ribeiro e seu colega argentino, Norberto Yahuar, que determinava que as vendas de carne suína Made in Brazil não seriam mais regidas pelas normas de livre comércio do Mercosul, já que passariam a estar limitadas dentro de um regime de cotas.

O cenário que desponta seria pior ainda, já que o acordo entre os ministros seria barrado informalmente pelo poderoso secretário de Comércio Interior da Argentina, Guillermo Moreno, que nesta semana deixou claro aos industriais argentinos do setor de alimentos elaborados com carne suína que somente poderiam importar “o mínimo indispensável”. Além disso, este “mínimo” não deve exibir oscilações ao longo deste ano.

“Caso não acatemos suas imposições, de comprar muito menos do que a cota, Moreno disse que fechará absolutamente as importações”, me disse na sexta-feira uma alta fonte do setor. “Além disso, ameaçou perseguir as empresas que não respeitem as ordens emitidas”, concluíram, pedindo estrito off sobre suas identidades.

Outra fonte lamentou a escalada de barreiras: “quando anunciaram as cotas, a notícia já era ruim. Mas agora o cenário que desponta para o resto do ano é pior ainda!”. Segundo as fontes, os industriais do setor estão sendo forçados a usar carne bovina dentro dos produtos formalmente vendidos como “suínos”.

Os industriais argentinos ficaram entre a espada e a parede com as pressões de Moreno, que por um lado exige que os empresários produzam “fiambres baratos”, ao mesmo tempo que impõe uma redução drástica das compras de carne suína brasileira.

Do total utilizado pela indústria alimentícia argentina, 40% da polpa é Made in Brazil.

O governo da presidente Cristina Kirchner começou a brecar a entrada da carne suína brasileira em janeiro, especialmente a polpa. As barreiras estão provocando falta de produtos suínos nas gôndolas dos supermercados argentinos.

Pedro de Camargo Neto, presidente da Associação Brasileira da Indústria Produtora e Exportadora de Carne Suína (Abipecs), lamentou ao Estado o cenário existente: “o embargo à carne suína brasileira continua. Compreendemos as dificuldades da Argentina. Porém, as medidas prejudicam os produtores do Brasil, os consumidores da Argentina e vão contra todo o Tratado de Assunção, que criou o Mercosul, ideia tão boa que não deveria estar sendo prejudicada”.

ORDENS – As ordens de Moreno – famoso por disparar uma miríade de epítetos em cada frase que pronuncia nas conversas com os empresários – costumam ser “informais” já que não são escritas. Geralmente são exigências verbais feitas pelo próprio secretário aos empresários argentinos.

Desta forma, ficaria anulado o acordo feito entre os ministros Ribeiro e Yahuar no dia 16 em Buenos Aires.

O acordo implicava em reduzir a entrada de carne suína brasileira de uma média de 3,5 mil toneladas mensais para somente 3 mil toneladas. Desta forma, além do encolhimento nas vendas para o mercado argentino, as indústrias brasileiras perderiam o crescimento do consumo do país vizinho.

O pacto Ribeiro-Yahuar foi definido pelo ministro brasileiro como “muito positivo”, já que no início deste ano as barreiras argentinas haviam provocado uma queda abrupta nas vendas de derivados suínos brasileiros para a Argentina entre janeiro e fevereiro, mês no qual somente entraram no país 400 toneladas. “Ora, passar de 400 toneladas para uma garantia de 3 mil toneladas é muito bom”, exclamou Ribeiro na ocasião, com um sorriso confiante nos lábios.

Esta é a “Quarta Guerra Suína” surgida entre os dois países nos últimos 17 anos. Em todos estes conflitos (1995-97, 199-2001, 2004 e o atual, iniciado no ano passado) a Argentina sempre venceu, conseguindo a imposição de restrições para a entrada de carne suína brasileira.

No ano passado o mercado argentino absorveu 42 mil toneladas de carne suína brasileira, pelo total de US$ 129 milhões.

QUEDA – Na quarta-feira, durante uma visita à Buenos Aires, onde reuniu-se com as lideranças da União Industrial Argentina (UIA), o presidente da Confederação Nacional de Indústrias (CNI) do Brasil, Robson Braga de Andrade, afirmou em conversa com correspondentes brasileiros e jornalistas argentinos que a entidade industrial está elaborando um levantamento com empresários brasileiros para verificar qual foi o impacto das novas medidas protecionistas argentinas para a entrada de produtos Made in Brazil de forma geral.

Os dados preliminares, segundo Andrade, indicam que as exportações brasileiras para o sócio do Mercosul despencaram 22% entre janeiro e fevereiro.

Irritado, no dia seguinte o ministro da Economia da Argentina, Hernán Lorenzino, acusou os industriais de “fazer lobby com a imprensa”. O ministro recomendou aos argentinos e os representantes da CNI que “deixem os coquetéis e comecem a trabalhar para ver a forma de aumentar o comércio entre os dois países”.

Lorenzino negou os dados de Andrade, sustentando que as vendas brasileiras haviam crescido 10%, em vez de registrar quedas. No entanto, segundo o próprio Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec), sob intervenção do governo Kirchner desde 2006, as importações de produtos brasileiros caíram 15% em fevereiro.

    

PARA ENTENDER – MORENO É O HOMEM FORTE DA ADMINISTRAÇÃO ECONÔMICA ARGENTINA: Ao longo da última meia década o secretário de Comércio Interior Guillermo Moreno foi o encarregado das polêmicas políticas de congelamento de preços e da maquiagem dos índices de inflação do governo Kirchner. Mas desde 2010 ele também transformou-se autor de medidas protecionistas para impedir a entrada de produtos estrangeiros na Argentina, incluindo os Made in Brazil.

O secretário telefona diretamente a empresários argentinos para pressioná-los a deixar de comprar os importados. Suas ordens, muitas das quais não-escritas, também provocam demoras para a liberação de produtos nas alfândegas.

Analistas, políticos e empresários em Buenos Aires afirmam que o secretário é o homem que faz o “trabalho sujo” da administração Kirchner.

Moreno é famoso por ter iniciado encontros com empresários colocando seu revólver em cima da mesa. Ele também telefona aos executivos às 6:00 da manhã – inclusive nos fins de semana – para exigir que congelem seus preços. Nessas ocasiões suas frases são entremeadas com sonoros palavrões e alusões sexuais.

Após a reeleição da presidente Cristina Kirchner em outubro passado, o poder de Moreno aumentou. Apesar de ser hierarquicamente inferior – pois tem cargo de secretário – Moreno impõe suas decisões aos ministros.

   

 hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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