Caso Nisman: Um cadáver marca o início de um tenso ano eleitoral
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Caso Nisman: Um cadáver marca o início de um tenso ano eleitoral

arielpalacios

25 Janeiro 2015 | 11h20

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Cristina Kirchner, no ano passado, enquanto saudava militantes na Casa Rosada.

blog1dedo4“Nisman foi assassinado!”. Com estas palavras os argentinos, famosos por seu ceticismo, expressaram-se nas conversas entre amigos, colegas e parentes na segunda-feira passada, quando os meios de comunicação começavam a informar sobre a morte do promotor federal Alberto Nisman, que na semana anterior havia concentrado a atenção da opinião pública ao denunciar a presidente Cristina Kirchner por – supostamente – ter ordenado uma operação de encobrimento de altas autoridades iranianas no atentado contra a Associação Mutual Israelita Argentina (AMIA) em 1994. Segundo a consultoria Ipsos, 70% dos entrevistados não acreditavam na versão na qual o governo insistiu até a quinta-feira sobre um “suicídio” e afirmavam que Nisman havia sido morto.

Outra pesquisa, da Management & Fit indica que 84% dos consultados consideram que a morte do promotor “afetará a imagem da presidente Cristina”. Além disso, 63,9% consideram que a morte de Nisman será um caso que permanecerá “sem solução”, como outros crimes políticos das últimas décadas no país.


A morte do promotor – que liderava as investigações do caso AMIA desde 2004 e era o principal especialista mundial no caso – marca com sangue a reta final do governo Kirchner. O ano, mesmo antes da morte do promotor, prometia ser tenso, já que os argentinos irão às urnas em outubro para definir o novo presidente da República e renovar o Parlamento.

“Haverá um antes e um depois da morte de Nisman”, me disse a socióloga e especialista em opinião pública Mariel Fornoni. “Existem muitas perguntas e poucas respostas”.

Os analistas indicam que o fator Nisman favoreceria mais um cenário de mudanças do que de continuísmo na política argentina. Segundo o analista Rosendo Fraga, do Centro de Estudos Nueva Mayoría, o caso Nisman é um fator que beneficia os candidatos da oposição e prejudicam todos os presidenciáveis kirchneristas, entre eles o governador da província de Buenos Aires, Daniel Scioli.

Sem ter definido um candidato próprio à sucessão, Cristina começa 2015 no pior momento de seu governo, com uma popularidade que – antes de morte de Nisman – estava abaixo de 30%. Para complicar, o país está em recessão, a inflação continua sua escalada, enquanto as demissões multiplicam-se, causando um rápido afastamento dos sindicatos, outrora seus aliados incondicionais.

A presidente Cristina, que pelas normas da constituição nacional não pode ser candidata a um terceiro mandato consecutivo, é alvo de diversas investigações na Justiça sobre sua eventual participação em desvios de fundos e lavagem de dinheiro em parceria com amigos empresários, donos de empreiteiras. De quebra, a presidente acumula três anos de constantes problemas de saúde que a mantiveram de licença médica em várias ocasiões.

A escritora e jornalista Silvia Mercado, especialista em comunicação estratégica, historiadora e autora de “O inventor do Peronismo” – obra que relata a vida de Raúl Apold, o propagandista do presidente Juan Domingo Perón – me disse que a morte de Nisman “piora drasticamente a situação do governo perante o panorama eleitoral. Na quinta-feira, quando o Conselho do Partido Peronista leu um comunicado de respaldo à presidente Cristina, nenhum governador quis ler o texto, ficando essa tarefa para uma figura menor dentro do partido. Ninguém queria se comprometer a defender Cristina explicitamente neste caso tão chocante. Eles reconhecem que isto os prejudica eleitoralmente”.

No entanto, segundo Mercado, “ainda é cedo para saber qual será a magnitude do prejuízo político desta morte para o governo. Mas uma coisa é certa. Os peronistas querem sobreviver. E por isso se afastarão gradualmente de Cristina”.

MORTE – No domingo Nisman apareceu morto em seu apartamento, com uma bala na cabeça, supostamente disparada pela arma que estava ao lado de seu corpo, calibre 22. Nas horas prévias havia estado preparando freneticamente os documentos que apresentaria na segunda-feira perante uma comissão no Parlamento, onde daria mais detalhes sobre sua denúncia sobre a presidente, o chanceler Héctor Timerman, o líder piqueiteiro kirchnerista Luis D’Elia e o deputado Andrés Larroque, chefe de “La Cámpora”, denominação da juventude kirchnerista.

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hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra). Em 2013 publicou “Os Argentinos”, pela Editora Contexto, uma espécie de “manual” sobre a Argentina. Em 2014, em parceria com Guga Chacra, escreveu “Os Hermanos e Nós”, livro sobre o futebol argentino e os mitos da “rivalidade” Brasil-Argentina.

No mesmo ano recebeu o Prêmio Comunique-se de melhor correspondente brasileiro de mídia impressa no exterior.

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