Dos quadrinhos à realidade, um tour ‘mafaldiano’
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Dos quadrinhos à realidade, um tour ‘mafaldiano’

arielpalacios

17 Maio 2009 | 05h00

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Mafalda, na porta de seu prédio. Para aqueles que desejarem fazer um tour ‘mafaldiano’, podem começar por aqui: Calle Chile 371 (fotomontagem do blog “Bloc de Periodista”, do jornalista Darío Gallo)

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Quadrinho que mostra Mafalda sentada na frente de seu prédio

Mafalda, a inconformista menina-filósofa com senso de humor ferino, que analisa a conjuntura mundial e é apaixonada pelos Beatles (e odeia a sopa que sua mãe prepara) é o cartum argentino mais famoso em todo o planeta. Objeto de cult há décadas, foi criada pelo desenhista Joaquín Lavado, mais conhecido como “Quino”.
Originalmente, Mafalda foi criada para ser a garota-propaganda de uma marca de eletrodomésticos. Mas adquiriu vida – e tirinha – própria: Em suas histórias atacava os conflitos bélicos (eram os tempos da Guerra do Vietnã), a Guerra Fria, o consumismo, a pobreza, o totalitarismo e a violência policial.


Mafalda tornou-se um ícone da rebeldia. O próprio escritor Julio Cortázar lia as tirinhas e destacou sua relevância em 1973: “O que é que eu penso da Mafalda? Isso não importa! O importante é o que é que a Mafalda pensa de mim!”.

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Julio Cortázar, de olho naquilo que dizia a irreverente menina-filósofa da calle Chile

Durante décadas, o lugar de residência de Mafalda foi um mistério. Sabia-se que ela ‘morava’ na capital argentina. Mas o bairro era desconhecido. No entanto, há poucos anos esse segredo foi revelado. Um grupo de jornalistas, fãs de Quino, analisou cada detalhe das declarações do cartunista à imprensa na qual dava pistas sobre o eventual ‘bairro mafaldiano’. Além disso, verificaram que diversos prédios de uma área central de Buenos Aires correspondiam aos desenhos das tirinhas de Quino, além do ônibus da linha número 86.

O resultado da pesquisa, posteriormente confirmada por Quino, foi que San Telmo era o bairro da menina autora de frases como “hoje entrei no mundo pela porta traseira” e “não é verdade que o passado foi melhor, o que acontece é que aqueles que estavam em má situação ainda não haviam percebido isso”.

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Felipe, Manolito, Susanita, Mafalda, Libertad, os pais de Mafalda, Guille e Miguelito

Mais especificamente, as aventuras de Mafalda transcorriam no lado desse bairro ao norte da avenida Independência (o setor mais turístico – onde está a feira de antiguidades da Praça Dorrego, além dos hostals e bares – está do lado sul dessa via).

Mafalda, seus pais e seu irmão Guille moravam na rua Chile, 371, no décimo andar, no mesmo prédio onde residiu seu criador, Quino, nos anos 60. Esse é um dos dois únicos pontos do tour mafaldiano que – fazendo jus ao rigor cartográfico – pertence ao bairro de Monserrat. Era só atravessar a rua e Mafalda já estava em San Telmo.

Quino retratou seu edifício tal e qual era, com o detalhe da maçaneta de bronze no portão de entrada, registrado em vários quadrinhos no qual Mafalda está sentada, no degrau da frente.

ESCULTURA
Há poucos dias o escultor Pablo Irrgang anunciou que realizará uma escultura de Mafalda – em tamanho ‘real’ – que será colocada na porta do prédio. Os moradores do edifício onde viveu Quino – e também sua criação – estão exultantes. A prefeitura portenha há três anos decidiu colocar uma placa na entrada do prédio em homenagem a Mafalda e Quino. Mas, a burocracia do governo da cidade padece de amnésia, pois ainda não colocou a placa.

Veja o prédio, os vizinhos neste link, onde há uma reportagem do jornal “Perfil” e um vídeo: http://www.perfil.com/contenidos/2009/05/15/noticia_0025.html

No mesmo quarteirão, na esquina com a rua Balcarce, está o estacionamento onde o pai da heroína de Quino guardava todas as noites seu carrinho Citröen, com o qual a família passeava e ia de férias.

Na frente do prédio de Mafalda, atravessando a rua, já em San Telmo, está a banca de jornais de “Don Jorge” frequentada pela menina-filósofa. A banca (kiosco de diarios, em espanhol) ainda está lá, embora com diferente dono.

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“¿Sabían que Almacén Don Manolo vende baratísimo?…”

Virando a esquina, na rua Balcarce 774 está o antigo armazén “Don Manolo”, do pai de Manolito, amiguinho de Mafalda que ficava no caixa sonhando em ser Rockefeller. Hoje em dia, o armazém é um quiosque. Uma pequena estátua de madeira representando Manolito decora a fachada do estabelecimento. A família proprietária é a mesma dos tempos de Quino. Quem atende ali é o filho de Don Manolo, isto é, o próprio ‘Manolito’.

A escola onde ia Mafalda com sua turma de amigos – Felipe, Miguelito, Susanita, Manolito e Libertad – está na esquina da rua Peru e da avenida Independencia. Deles todos, quem mais padecia ir à escola era o dentucinho Felipe, que sempre se distraía com outras coisas. A maior parte do tempo com devaneios sobre as aventuras de “El llanero solitário”. Ele próprio admitia: “até minhas fraquezas são mais fortes do que eu!”.

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Escola frequentada por Mafalda e sua turma (e padecida principalmente por Felipe). Na calle Perú, quase esquina com a avenida Independencia (a escola atualmente está em reformas)

SOBRE A TIRINHA
Mafalda foi publicada somente entre 1964 e 1973. No entanto, a tirinha continua sendo um boom de vendas em inúmeras reedições na Argentina e no resto do mundo. Depois de Mafalda, Quino continuou tendo amplo sucesso com outras charges e tiras. Desde os anos 70 o desenhista reside na Europa.
Charles M. Schultz (1922-2000), o criador do personagem Snoopy, da tirinha Charlie Brown, costumava definir Quino como “um gigante”.

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