Esquerda e Direita…pero no mucho
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Esquerda e Direita…pero no mucho

arielpalacios

29 Novembro 2009 | 03h24

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Mujica, vencedor desta jornada eleitoral no Uruguai. Um ex-guerrilheiro transformado em floricultor com uma política romântico-pragmática. O primeiro ex-guerrilheiro que chega à presidência de uma república na América do Sul

MUJICA ELEITO PRESIDENTE
Dois milhões e meio de uruguaios foram às urnas neste domingo para escolher o novo presidente da República. Formalmente, um dos candidatos, o senador e ex-guerrilheiro tupamaro José ‘Pepe’ Mujica, da coalizão de governo Frente Ampla, que nos anos 60 pregava a luta armada, representa a esquerda uruguaia. Seu rival, o ex-presidente Luis Alberto Lacalle, um neo-liberal que nos anos 90 tentou privatizar as empresas estatais uruguaias, é o líder da direita do país.

Mujica, segundo a boca de urna da consultoria Factum, teria conseguido 51,2% dos votos.
Lacalle teria recebido 44,% dos votos.

A jornada transcorreu sem incidentes.

CAMPANHA DE NUANCES
Tudo indicaria que a campanha eleitoral teria sido uma disputa entre dois lados irremediavelmente antagônicos.

No entanto, os debates ocorridos entre ambos lados do leque político, não passaram de discussões sobre nuances na política econômica e divergências sutis no âmbito político.

Mais do que de costume, o Uruguai – nesta campanha eleitoral – tendeu para o centro. As eleições de hoje confrontam um líder de uma esquerda que não está tão à esquerda, e o representante de uma direita que não está tão à direita.

Mujica é um ex-guerrilheiro que deseja atrair investidores estrangeiros.
Lacalle, um neo-liberal que indica que não pretende privatizar as estatais uruguaias, mas sim, apenas “modernizá-las”.

A média dos uruguaios, afirmam os analistas, pretende a permanência do Estado de bem-estar social e a preservação das empresas estatais. Mas, misturado com a abertura da economia para capitais estrangeiros e um forte sistema financeiro que tornou o país em um ‘paraíso’ fiscal na região.

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Lacalle adverte sobre ‘imprevisibilidade’ do rival Mujica. Mas, analistas afirmam que o ex-guerrilheiro será mais pragmático do que utópico

CENTRIPETADOS
O analista de opinião pública Oscar Botinelli, diretor da consultoria Factum, me disse que “a média nacional é o centro..é uma ‘centripetação’ típicamente uruguaia. O Uruguai é um país que foi se despolarizando com o passar do tempo e foi caminhando para o centro político. A média nacional dos uruguaios é de centro”, afirma.

Mujica nega similitudes com figuras politicas tradicionalmente vinculadas à esquerda na região, como o presidente venezuelano Hugo Chávez ou o boliviano Evo Morales. Ele próprio considera-se mais parecido ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Mujica ressalta que seu passado de luta armada está enterrado há tempos e define-se como um “pragmático”.

“Mujica passou de desprezar a democracia burguesa a valorizá-la. Ele passou de subestimar o caminho eleitoral a transformar-se em um mestre da competência política. Ele passou de sustentar um anti-imperialismo radical a admitir que poder os investimentos estrangeiros diretos e a instalação de grandes empresas multinacionais podem ser positivos para o desenvolvimento nacional. A turma de Mujica não é ortodoxa…ela é bem pragmática”, me disse o sociólogo Adolfo Garce, do Instituto de Ciência Política.

“Faz parte de nossa cultura a preferência por um ponto equidistante”, me comentou o economista Fernando Lorenzo, que desponta como o virtual ministro da Economia de Mujica. “É como nossa marca genética, nossa identidade uruguaia”.

DIFERENTE
Segundo Botinelli, o Uruguai possui caraterísticas “diferentes aos dos outros países do continente na esfera das instituições políticas, já que os partidos são muito fortes, nos quais seus líderes tem uma presença mais diluída, menos personalista, similar ao que ocorre na Europa Ocidental. Aqui funciona um regime no qual o presidente está limitado…não é um presidencialismo puro, como no resto da América Latina”.

Esse estilo de política, indica, sempre impediu que os extremos pudssem predominar no sistema de poder uruguaio.

O analista considera que Mujica está longe de figuras como o presidente venezuelano Hugo Chávez. “Se formos fazer alguma comparação, esta teria que ser com o presidente Lula, um moderado. Chávez é populista. Mujica não é, pois provém de uma esquerda clássica, algo que o presidente venezuelano não é. Mujica fez uma longa carreira parlamentar, ao contrário de Chávez ou Evo Morales. Hoje, Mujica só quer fazer alguns retoques na política do presidente Vázquez”.

CHUVAS E BAILE
Mujica votou ao redor das 8:00.da manhã. O senador e ex-guerrilheiro indicou que a jornada será longa: “esta noite tenho ‘baile’ até bem tarde”.

O candidato também explicou que não dará coletivas de imprensa após a divulgação dos resultados, já que “é ‘chover sobre molhado’, pois os jornalistas vão me perguntar quem colocarei como ministros…e eu sei lá!”

Seu rival, Lacalle, votaria no fim da tarde.

Em várias áreas do país, assolado por fortes chuvas, os eleitores estavam com dificuldades para deslocar-se até os centros de voto.

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DADOS E FATOS SOBRE OS CANDIDATOS PRESIDENCIAIS, DIVISÕES DE FORÇAS POLÍTICAS E A ECONOMIA URUGUAIA

CANDIDATOS

José Mujica, da Frente Ampla

– Apelido: ‘Pepe’
– Afirma que mercados podem ficar calmos, pois manterá mesmo rumo econômico do presidente socialista light Tabaré Vázquez. “Será o mesmo cachorro com a mesma coleira”.
– Frase: “Será como um biscate” (sobre o trabalho na presidência da República)
– Profissões: floricultor e político
– Sua esposa, Lucia Topolanski foi sua companheira na guerrilha. É senadora.
– Seu rival Lacalle, sobre ele: “é um radicalizado, chavista”
– Mujica é criticado por seu passado na guerrilha tupamara

Luis Alberto Lacalle, do Partido Nacional (Blanco)

– Apelido: ‘Coqui’
– Afirma que não desatará onda de privatizações. Mas, indica que pretende ‘modernizar’ estatais.
– Frase: “vou aplicar a motoserra, firme e dura” (sobre os cortes ao gasto público)
– Profissões: advogado, jornalista e político
– Sua esposa, Julia Pou, participou ativamente sempre de sua carreira política. Foi senadora.
– Seu rival Mujica, sobre ele: “é um neo-liberal”
– Lacalle é criticado pelos escândalos de corrupção de seu governo

VOTAÇÃO NO PRIMEIRO TURNO
No primeiro turno Mujica obteve 47,96% dos votos
No primeiro turno Lacalle obteve 29,07% dos votos

VOTAÇÃO (TENDÊNCIA) PARA O SEGUNDO TURNO
As pesquisas indicam que no segundo turno Mujica teria de 51% a 52% dos votos.
As pesquisas indicam que no segundo turno Lacalle teria 42% a 43% dos votos.

PARLAMENTO
O Parlamento, definido no primeiro turno, será dominado, novamente, pela governista Frente Ampla

Divisão de forças

Senado:
Frente Ampla: 16 senasdores (maioria absoluta)
Partido Nacional: 9 senadores
Partido Colorado: 5 senadores

Câmara de Deputados:
Frente Ampla: 50 deputados
Partido Nacional: 30 deputados
Partido Colorado: 17 deputados
Partido Independente: 2 deputados

DADOS ECONÔMICOS

Inflação
2004: 7,6%
2005: 4,9%
2006: 6,4
2007: 8,5%
2008: 9,2%
Previsão para 2009: 7%

Pobreza
2004:31,9%
2005: 29,2%
2006: 26,8%
2007: 26%
2008: 20,5%
Previsão para 2009: 19,4%

Desemprego
2004: 13,1%
2005: 12,2%
2006: 11,4%
2007: 9,6%
2008: 7,6%
Previsão para 2009: 7,2%

Crescimento PIB
2005: 6,6%
2006: 4,6%
2007: 7,6%
2008: 8,9%

Previsão de crescimento do PIB para 2009
De 1,8% a 2%

Previsão de crescimento para 2010
De 1,3% a 3%

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Opositores uruguaios rejeitam interferências externas na campanha e recordam frase de Obdulio Varela no dia do ‘Maracanazo’

O ‘MARACANAZO’ E AS INTROMISSÕES DE LULA, CHÁVEZ E KIRCHNER

Em 1950, Obdulio Varela, capitão da seleção uruguaia que enfrentou o Brasil no Maracanã, reuniu seus jogadores antes do decisivo jogo e pronunciou uma frase que entraria para a História do Uruguai: “Los de afuera son de palo!” (“Os que são lá de fora, são de madeira!”).

Com estas palavras, Obdulio indicava a seus assustados jogadores que o resultado no campo não deveria ser influenciado pelas arquibancadas, onde gritava em frenesi a torcida brasileira. Isto é, que aqueles que estavam fora não deveriam intervir.

Nos dois últimos dias, o ex-presidente Luis Lacalle, candidato do Partido Nacional (Blanco) para o segundo turno das eleições presidenciais uruguaias deste domingo, utilizou a velha frase de Obdulio para repudiar aquilo que denominou de “intervenção” de “chefes de Estado” estrangeiros na política interna uruguaia.

“Os que são lá de fora são de madeira! Um presidente estrangeiro não poder andar dizendo por aí quem prefere”, disparou Lacalle, ao criticar os respaldos ostensivos que seu rival e favorito nas pesquisas, o ex-guerrilheiro tupamaro José ‘Pepe’ Mujica, obteve nesta semana – reta final da campanha eleitoral – por parte de presidentes dos países da região.

Lacalle – que segundo as pesquisas teria 42% das intenções de voto contra 51% de Mujica – sustentou que a “independência” do país está “em jogo” por causa das “intromissões” do PT brasileiro, do presidente venezuelano Hugo Chavez e a presidente argentina Cristina Kirchner, “em assuntos internos do Uruguai”.

Na última semana de campanha, o presidente do PT gaúcho, o ex-governador e ex-ministro Olivio Dutra, reuniu-se com Mujica durante duas horas, a quem disse que o presidente Lula “tem certeza de que em um segundo governo da esquerda uruguaia comandada por Mujica, a relação entre nossos povos será mais produtiva e rica”.

De forma simultânea, o presidente Chávez – que por intermédio da estatal petrolífera PDVSA realizou investimentos no Uruguai – enviou um “grande abraço para Pepe (Mujica) que será o próximo presidente do Uruguai”.

De quebra, em Buenos Aires, o governo Kirchner concedeu folga aos funcionários públicos com nacionalidade uruguaia para que possam atravessar o rio da Prata e votar em seu país de origem. Na Argentina residem 500 mil uruguaios, a maioria dos quais seriam simpatizantes da Frente Ampla de Mujica.

Lacalle, na reta final, tentou ressaltar as incertezas geradas pela personalidade ambígua do rival ex-guerrilheiro e atual floricultor. Segundo ele, o Partido Nacional permitirá “previsibilidade”, enquanto que o esquerdista Mujica geraria um cenário no qual os próximos cinco anos seriam de “totais incertezas”.

Mujica rebate e indica, utilizando uma expressão tipica do interior do pais, que seu governo seguirá a mesma linha de moderação do presidente Vázquez: “será o mesmo cachorro com o mesmo colar…”.

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