Grampos telefônicos do promotor morto complicam o kirchnerismo
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Grampos telefônicos do promotor morto complicam o kirchnerismo

arielpalacios

24 Janeiro 2015 | 09h40

BlogDeliaKhomeini

Grampos indicam participação de líder piqueteiro kirchnerista Luis D’Elía na operação clandestina para fechar um pacto com o Irã para a impunidade dos envolvidos no atentado contra a AMIA em 1994.

blog1dedo2bA imprensa argentina revelou nesta sexta-feira gravações dos grampos telefônicos feitos pelo promotor Alberto Nisman, que evidenciam conexões de aliados do kirchnerismo com iranianos vinculados extraoficialmente à Embaixada do Irã em Buenos Aires em uma suposta operação de encobrimento dos terroristas que teriam realizado o atentado terrorista de 1994 contra a Associação Mutual Israelita Argentina (AMIA) no bairro portenho de Balvanera. Nesse ataque morreram 85 pessoas e foram feridas e mutiladas outras 300.

O conteúdo dos grampos divulgados ontem mostram o líder piqueteiro kirchnerista Luis D’Elía, habitué da Casa Rosada, conversando com Alejandro “Yussuf” Khallil, denunciado pelo promotor Nisman com um agente a serviço dos iranianos. Nisman considerava que D’Elía que havia sido crucial para “manter ativas as negociações secretas e clandestinas com o Irã em relação ao plano de encobrimento”.


Na gravação Khalil explica a D’Elía que o acordo da “Comissão da Verdade” em 2013, com o objetivo formal de determinar os culpados do atentado era “todo piripipi”, expressão da gíria portenha equivalente a “tudo termina em pizza”.

Nisman – que na semana passada havia denunciado a presidente Cristina Kirchner pelo suposto encobrimento – apareceu morto com um tiro na cabeça no domingo. O promotor pretendia divulgar na segunda-feira detalhes de sua denúncia e o conteúdo de grampos que havia feito.

Nisman indicava que a operação de encobrimento havia sido combinada entre o governo Kirchner e Teerã em 2012, em troca de acordos comerciais para aumentar a venda de produtos argentinos para o Irã e a importação de petróleo iraniano para o mercado argentino, assolado pela crise energética intermitente desde 2004. Em 2013 o governo Kirchner causou surpresa ao anunciar publicamente um acordo com o Irã para formar uma “Comissão da Verdade” para investigar o atentado contra a AMIA. Na ocasião, o acordo foi rejeitado pela oposição e a comunidade judaica, que protestou contra um pacto feito com os acusados.

Nas conversas gravadas surgem comentários sobre o pagamento de 25 mil pesos para “barrabravas” (hooligans) do time All Boys para participar de um comício a favor da presidente Cristina, as viagens de D’Elía ao Irã, entre outros pontos.

Além disso, na conversa entre Khalil e D’Elía surgem críticas ao chanceler Héctor Timerman que embora concordasse com o acordo com Teerã, preferia não ter sua imagem estreitamente vinculada ao assunto, já que isso complicava sua figura perante a comunidade judaica (há anos sua imagem é altamente negativa dentro da comunidade). Nas gravações, Timerman é chamado de “ruso de mierda”.

“Ruso” (russo) é uma forma popular de designar os integrantes da comunidade judaica argentina, boa parte da qual migrou para a Argentina nos tempos finais da Rússia imperial.

BlogDeliaRuralista

D’Elía, em 2008, atravesou com seu grupo uma concentração de manifestantes contra o governo Kirchner na área do Obelisco. Ao passar pelo lugar, socou um homem, que na sequência foi espancado por outros militantes de D’Elía.

D’ELÍA – “A única coisa que me move é o ódio contra a p… oligarquia. Não tenho problemas em matá-los todos”. Com estas palavras, Luis D’Elia, o principal líder piqueteiro que apóia o governo de Cristina Kirchner, declarou em 2008 que estava disposto a tudo para defender seus aliados.

D’Elia referia-se a “matar” os produtores agrícolas – que naquele ano realizaram piquetes nas estradas para protestar pelo fim do ‘impostaço agrário’ – e a classe média portenha – que protagonizou panelaços para protestar contra a inflação e os escândalos de corrupção do governo.

D’Elía é o líder do movimento Federação de Terras e Moradia (FTV), e possui capacidade de mobilizar dezenas de milhares de piqueteiros com rapidez, para realizar piquetes nas principais avenidas da capital argentina e sua região metropolitana. Durante dois anos foi Secretário de Moradia do governo do ex-presidente Néstor Kirchner. O líder piqueteiro costuma afirmar que defenderia os Kirchners “à bala” para impedir o que chama de “tentativas de golpe de Estado do establishment”.

Nesta semana de crise política, o líder piqueteiro D’Elía esteve descansando em um spa na cidade de Mina Clavero, nas serras da província de Córdoba. Ali manteve estrito silêncio, na contra-mão de sua costumeira verborragia.

LAGOMARSINO – Ontem no início da tarde, a promotora Viviana Fein, que investiga a morte de Nisman, avaliava se convocava – ou não – Diego Lagomarsino, assessor do promotor Nisman, para prestar depoimento, já que no fim de semana Lagomarsino teria (segundo diz o próprio) emprestado sua arma calibre 22 a Nisman. Essa arma foi encontrada ao lado do corpo do promotor no banheiro de seu apartamento no bairro de Puerto Madero.

O dono da arma, que talvez tenha sido a última pessoa a ver Nisman vivo, havia solicitado no início da semana à Justiça licença para viajar à praia na província de Buenos Aires, de férias.

No entanto, nesta sexta-feira no início da noite a Justiça não localizava o paradeiro de Lagomarsino. Imediatamente Fein determinou que não poderia sair do país. Pouco depois Lagomarsino entrou em contato com a promotora para dizer que estava na Argentina e que se colocava à disposição da Justiça.

Lagomarsino, que havia estado sem proteção policial durante toda a semana, finalmente ficou sob a vigilância da Gendarmería, um corpo especial das forças de segurança.

BALA – Duas informações divergentes, preliminares e extraoficiais sobre a autópsia circulavam na sexta-feira na promotoria federal. Uma delas indicava que o disparo na cabeça de Nisman teria sido a 2 centímetros de distância, sobre a orelha direita. A outra, que o disparo teria sido feito a 20 centímetros de distância.

A promotoria também preparava-se para analisar se a bala encontrada dentro da cabeça de Nisman correspondia à arma encontrada ao lado do corpo.

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hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra). Em 2013 publicou “Os Argentinos”, pela Editora Contexto, uma espécie de “manual” sobre a Argentina. Em 2014, em parceria com Guga Chacra, escreveu “Os Hermanos e Nós”, livro sobre o futebol argentino e os mitos da “rivalidade” Brasil-Argentina.

No mesmo ano recebeu o Prêmio Comunique-se de melhor correspondente brasileiro de mídia impressa no exterior.

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