Leitões já assobiam no Uruguai
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Leitões já assobiam no Uruguai

arielpalacios

30 Novembro 2009 | 08h30

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maoooa“Presidente? Hehehehe…! Tão difícil como um leitão assobiando!“. Desta forma, com uma piada típica do interior do Uruguai, o senador José ‘Pepe’ Mujica respondia quando um simpatizante ou um jornalista lhe perguntava, há poucos anos, se um dia disputaria as eleições presidenciais. Há apenas meia década parecia impossível que este ex-guerrilheiro tupamaro, que em 1969 havia protagonizado a ocupação armada da cidade de Pando, uma das principais do país, poderia aspirar à presidência.

Mas, Mujica conseguiu ser eleito presidente graças à uma combinação de carisma pessoal, moderação ostensiva de suas posturas políticas, um vice com grande trânsito pelos mercados (Danilo Astori, ex-ministro da Economia) e cinco anos de prosperidade econômica durante o governo do socialista ‘diet’ e atual presidente Tabaré Vázquez, seu colega na centro-esquerdista coalizão Frente Ampla.
Evidentemente, tudo condimentado com muito pragmatismo e aquilo que o próprio Mujica denomina de “paciência oriental”.

Números preliminares indicavam que Mujica recebeu neste domingo 53% dos votos, meta que ele considerava tão impossível quanto a de ver primos do Marquês de Rabicó entoando melodias assobiadas.

Seu rival, o ex-presidente Luis Alberto Lacalle, candidato do Partido Nacional (Blanco), de centro-direita, obteve 42,9% dos votos.

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MESMO CACHORRO, MESMA CORREIA
Mujica, um ex-guerrilheiro tupamaro que há exatamente 40 anos defendia a luta armada para a conquista do poder e a implantação de um regime marxista, transformou-se nos últimos anos naquilo que ele próprio costuma definir de “vegetariano” ideológico, isto é, um pragmático que – embora mantendo certo verniz de utopia socialista – afirma que pretende atrair os capitais estrangeiros, manter o sigilo bancário, fazer acordos comerciais com os Estados Unidos e a China.

Mas, acima de tudo, Mujica sustenta que manterá a política econômica do presidente Vázquez.

De quebra, na reta final de campanha – além de ressaltar o respeito à propriedade privada e o equilíbrio fiscal – emitiu vários sinais de distância ideológica e de estilos com o presidentes Hugo Chávez da Venezuela e o boliviano Evo Morales e indicou similitudes com o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

MARKET FRIENDLY
maoooa Para mostrar que será “market friendly” (amigável com os mercados), Mujica recorre aos ditados populares uruguaios e afirma que seu futuro governo manterá o mesmo clima aberto aos investidores e a previsibilidade na política econômica que a administração Vázquez: “será o mesmo cachorro com a mesma coleira”.

O provérbio será levado à sério, afirma Mujica, que também ressalta que seu vice, o economista Danilo Astori, será a pessoa que se ocupará das questões econômicas. Astori, em quatro dos cinco anos de governo Vázquez, foi o ministro da Economia.

Além disso, Astori definiu a nova equipe econômica, que, em sua grande maioria está composta por moderados economistas de sua extrema confiança.

Nesta equipe, o ex-diretor de macro-economia de Astori, o economista Fernando Lorenzo, é apontado como o virtual novo ministro da Economia.

Em entrevista ao Estado poucas horas antes da eleição, Lorenzo – embora não confirme o novo posto – sustentou: “continuaremos com a previsibilidade das políticas econômicas, que foram parte muito importante do sucesso que teve o governo de Vázquez”.

Segudo Lorenzo, o desenvolvimento que Mujica projeta para o Uruguai “é a somatória da prosperidade e da equidade social”.

O economista Marcelo Sibille, da consultoria KPMG afirmou ao Estado que Mujica “mostrou sinais de continuidade” da política de Vázquez “que foram compreendidos pelos mercados”.

Segundo ele, o melhor termômetro para mensurar temores, o mercado cambial, manteve-se plácido nas últimas semanas, ao longo das quais as pesquisas apontavam uma vitória assegurada de Mujica.

“Não temos temores”, afirma Javier Carrau, vice-presidente da Câmara de Indústrias. Na mesma linha, Alfonso Varela, presidente da Câmara de Comércio e Serviços, indica: “estamos tranquilos”.

Nas ultimas semanas Mujica também indicou que “a política econômica não estará aferrada a nenhum dogma definitivo”.

O ex-guerrilheiro sustentou, com ironia, que “não será Mandrake ou Papai Noel que chega ao governo. A vontade de repartir possui os limites impostos pela realidade de uma sociedade de mercado”. Segundo ele, a política de distribuição da riqueza “não poderá afetar o andamento da economia”.

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Mujica, em sua chácara no bairro Rincón del Cerro, na periferia de Montevidéu (foto de Ariel Palacios)

maoooa Nascido em 1935 no seio de uma família de classe média austera, Mujica aderiu na juventude ao conservador Partido Nacional. Mas, nos anos 60 passaria para a esquerda e fundaria, junto com outros colegas de origens comunistas e anarquistas, o Movimento de Liberação Nacional-Tupamaros. Ali conheceu Lucia Topolanski, uma bela militante que transformou-se em senadora e sua esposa.

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Mujica, nos tempos que participou da criação do movimento tupamaro, antes da Ditadura

Em 1972 foi detido no meio de um confronto com as forças de segurança. Foi ferido com seis balas, várias das quais ainda estão dentro de seu corpo. Sua prisão foi prolongada. Um total de 14 anos, ao longo dos quais foi torturado físicamente com intensidade pelos militares no final do governo civil e ao longo da Ditadura (1973-85).

Sua psique também foi alvo de terrorismo. Mujica, nos dias de bom humor dos guardas, só podia ir ao banheiro uma vez a cada 24 horas. Mas, com um capuz na cabeça que o impedia ver e com as mãos algemadas.

Nos dias de má vontade de seus carcereiros, Mujica não podia ir no banheiro. Sem alternativa, suas fezes e urina escorriam pelas pernas.

Seu colega de guerrilha, Eleuterio Fernández Huidobro, recentemente, em um comício, indicou que Mujica, em diversas ocasiões, quando os guardas passavam dias sem lhe dar água, precisou recorrer ao próprios fluídos corporais. “Talvez tenhamos pela primeira vez um presidente que teve que beber sua urina”, ilustrou.

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Mujica é o primeiro ex-guerrilheiro a chegar à presidência de um país na América do Sul. Foto de Mujica quando estava preso

Em 1985, com a volta da democracia, Mujica recuperou a liberdade. Adaptado aos novos tempos, deixou de pregar a luta armada e transformou o grupo de ex-guerrilheiros em um coeso partido político que integra a coalizão Frente Ampla.

Eleito senador, posteriormente, no governo do socialista Tabaré Vázquez, foi designado ministro da Agricultura.

Ali, começou a planejar sua conquista da presidência. Para não assustar a classe média e alta, indicou – com uma metáfora bovina – que não pretendia mais combater a burguesia: “não quero mais esmagá-la. Não. Eu quero é ordenhar a burguesia!”.

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‘NÃO PODEMOS TER DOGMAS’
Mujica diz que será o ‘Néstor’ da ‘Ilíada do Mercosul’

Cansado de longos e intensos meses de campanha, o septuagenário senador e floricultor José ‘Pepe’ Mujica decidiu driblar sua própria equipe de assessores no fim da noite da quinta-feira, quando desapareceu dos principais eventos eleitorais da última jornada política antes da votação deste domingo. A ponto de transformar-se no primeiro ex-guerrilheiro que chega à presidência de uma república sul-americana, Mujica optou pela calma de um show de tango no tradicional Teatro Solís, em pleno centro de Montevidéu.

Acompanhado de sua esposa e um único guarda-costas, Mujica, ao sair do espetáculo, no hall do teatro, concedeu uma breve entrevista ao Estado – na qual misturou gírias com alusões à odas gregas – enquanto adolescentes aglomeravam-se ao redor para fazer uma foto com o informal líder esquerdista que pretende – por sua idade – ser uma espécie de ‘Néstor’ (o sábio guerreiro ancião da Ilíada de Homero) entre os jovens presidentes da região.

Estado – Recentemente o senhor disse, em relação à integração internacional de um país pequeno como o Uruguai, que “leitão magro sonha com milharal gordo”…

Mujica – Temos que nos localizar no mundo no qual vivemos. O mundo está ficando cada vez menorzinho e estão sendo formadas grandes unidades. Nós, uruguaios, nos perguntamos o que faremos. O mundo caminha – aos tropeções – para a abertura econômica. Não podemos de jeito nehum ter dogmas. O mundo está em momento de inflexão. É provável que daqui a um certo tempo teremos que fazer algumas mudanças para nos reposicionar. Essa matéria do ‘mundo’ vai ficar um pouco mais complicada do que hoje em dia, né? As fronteiras ficam ‘porosas’ com o desenvolvimento tecnológico. O caso do Brasil é que é um pais continental. Mas, o Brasil precisa também do resto do mundo. Agora, é evidente que o Brasil possui a responsabilidade natural (de liderança no Mercosul), derivado de suas dimensões e recursos…

Estado – O senhor costuma elogiar o governo Lula e até indica admiração pela forma como lida com a oposição…

Mujica- Lula é um velho amigo. Há pouco lá em Brasília deu para a gente um grande conselho, o de transformar grandes tensões em negociações, e não em confrontos. Ora, Lula comanda um país enorme, tem minoria no Parlamento e por isso dá mais espaço à política do que ao confronto. E nós, aqui, vamos dar sustentabilidade para que os conflitos se transformem em saídas.

Estado – O senhor sempre foi favorável à integração do Mercosul. Mas este cresceu da forma esperada? No Uruguai existe certo ‘merco-ceticismo’…

Mujica – O Mercosul começou muito ‘fenício’ (em alusão ao mercantilismo), essa coisa de ‘quanto você vende para mim e quanto eu te vendo’. Alguém pode acreditar que agricultura argentina ou brasileira será comida neste continente? Por muitos anos teremos que vender alimentos ao mundo. Por isso digo que precisamos integrar a energia, portos, estradas, e a inteligência!

Estado – O senhor tem 74 anos, tomará posse quase aos 75 e concluirá o mandato a menos de dois meses do octogésimo aniversário…

Mujica – Uma das coisas vantajosas da velhice é que a gente pode dizer o que pensa. Mas isso geralmente provoca um ‘rebu’, pucha!(‘putz’)!!! (Ri e faz uma loga pausa como se fosse encerrar a entrevista, mas inesperadamente retoma)…Me disseram o outro dia que serei o presidente mais velho da América Latina. Os presidentes da região terão que lembrar o discurso de Néstor, na Ilíada de Homero…

Estado – Néstor, embora sendo um ancião, não ficaria nas naves, já que participaria da conquista de Tróia dando ponderados conselhos aos jovens…

Mujica – Pois é, é algo antropológico, os gregos escutavam os mais velhos! Eram velhos e muito ouvidos também (Winston) Churchill e aquele general russo que fez que Napoleão se retirasse da Rússia (o caolho Mikhail Kutusov). Ora, eles (os presidentes mais jovens) vão ter que me respeitar…(ri)

BAIRRO
Mujica disse que ainda não sabe quando voltará ao Brasil, onde esteve recentemente. Mas, declarou que, com certeza, sua primeira visita oficial será “no bairro”, maneira como – informalmente – designa a região.

maoooaCandidatos presidenciais uruguaios, tão velhos como a população, segundo “El Observador”:
http://www.observa.com.uy/actualidad/nota.aspx?id=89420&ex=25&ar=3&fi=21
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