Medéia em Buenos Aires: a brasileira Adriana Cruz enforcou (e afogou) seu próprio filho de 6 anos para “cagar al padre”
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Medéia em Buenos Aires: a brasileira Adriana Cruz enforcou (e afogou) seu próprio filho de 6 anos para “cagar al padre”

arielpalacios

22 Março 2012 | 21h06

Notória: Figura da mitologia grega, Medeia – filha de Eetes (rei da Cólquida) e da ninfa Ídia – ficou famosa por matar os dois filhos que havia tido com Jasão (o famoso rapaz dos argonautas). O motivo? Vingança. A colquidense personagem deu origem ao termo “síndrome de Medéia”, para designar o caso no qual um progenitor mata um filho para ferir o cônjuge. No quadro acima, Medéia, retratada pelo francês Eugène Delacroix. E seus dois filhos, os quais assassinou, segundo a versão de Eurípides. A pintura é de 1862. Está exposta no Musée des Beaux-Arts de Lille, norte da França.

“Lo maté para cagar al padre!” (o matei para cagar o pai!). Com estas palavras, no claro idioma de Cervantes – embora expresso de forma chula – a brasileira Adriana Cruz confessou nesta quinta-feira que havia assassinado seu próprio filho, Martín, de 6 anos, entre a noite da segunda-feira e a madrugada da terça-feira no luxuoso condomínio fechado San Elíseo Golf & Country Club. O objetivo do filicídio de seu caçula, segundo admitiu, foi o de atingir seu ex-marido e pai da criança, o empresário Carlos Vázquez, do qual estava separada há seis meses. Adriana fez as declarações ao canal de TV Telefé ao sair dos tribunais do município de San Vicente, na zona sul da Grande Buenos Aires, onde foi convocada para depoimento ao procurador Leandro Heredia.

“Foi uma vingança?”, insistiu o repórter enquanto o carro da polícia acelerava, deixando o lugar. “Sim!”, respondeu Adriana, sem vacilar, em relação ao enforcamento e afogamento de seu filho.

Na sequência, foi levada à unidade penitenciária da cidade de La Plata, capital da província de Buenos Aires.

O promotoro Heredia afirmou que Adriana “estava lúcida e compreende a criminalidade de suas ações”.

O promotor definiu o crime realizado no elegante condomínio fechado de San Eliseo, no município de San Vicente, de “abominável e desprezível”. Segundo ele, o cenário do crime era “dantesco”.

Heredia também explicou que Adriana teria assassinado Martín na noite da segunda-feira. Após o assassinato, a mãe dormiu no quarto, enquanto o cadáver da criança estava na banheira. Segundo o promotor, ninguém visitou Adriana, “sequer seu pai, que mora em São Paulo que veio vê-la no ano passado quando esteve internada em uma clínica psiquiátrica”.

Adriana Cruz poderia ser condenada à prisão perpétua.

Adriana Cruz, de 41 anos, foi mãe de Martín, assassinado no início desta semana aos 6 anos de idade. Foto do perfil da assassina confessa no Facebook.

ASSASSINATO COM MENSAGEM – “Traidor. Você merece isto, filho da p….”. Esta era a frase pichada com aerossol na parede da suíte do luxuoso casarão de Adriana. Embaixo da pichação, na hidromassagem, estava submerso o corpo de Martín Vázquez, um menino de seis anos, que previamente havia sido asfixiado. A poucos metros, na cama de casal da suíte, a mãe do menino – a brasileira Adriana Cruz, de 41 anos – tentava suicidar-se por enforcamento com uma gravata do ex-marido. Do lado, uma navalha manchada com sangue. Nos braços da mulher, vários cortes de faca.

Essa era a cena com a qual deparou-se a empregada doméstica da casa, Dominga, na terça-feira, quando entrou na suíte depois de ter achado estranho que sua patroa ainda não havia saído do quarto naquela manhã. Dominga deteve o enforcamento de Adriana, que estava semi-dopada.

O destinatário da mensagem pichada na cena do crime seria Carlos Vázquez, ex-marido de Adriana, um empresário vinculado ao Grupo Covelia de coleta de lixo. Martín, segundo boatos ontem no condomínio privado, era o “preferido” de Vázquez.

O caso tomou conta do noticiário nos canais de TV e rádios de Buenos Aires. Os psicólogos consultados enquadravam o caso de San Elíseo dentro da “síndrome de Medéia” – em alusão à figura da mitologia grega – na qual um progenitor mata um filho para ferir o cônjuge.

Adriana teria assassinado o filho com uma gravata, para depois afogá-lo na hidromassagem. Na sequência, fez a pichação e depois ingeriu uma grande quantidade de barbitúricos, tentou cortar os pulsos com uma navalha e ainda fez a tentativa de enforcar-se com uma gravata de seda.

Meses antes de sua morte, Martín, em uma piscina, diverte-se com uma de suas duas irmãs.

RECADO À FILHA – A outra filha de Adriana, de 15 anos, entrou no quarto com a empregada e viu a cena do crime. Para a adolescente havia um recado no espelho do banheiro, escrito com batom – hipoteticamente redigido pela mãe – no qual pedia perdão. O recado também continha um conselho: “se salva, se independiza, que não te aconteça o mesmo que a mim”.

O pai, alertado pela empregada doméstica, foi à casa da ex-mulher. O empresário chegou meia hora depois do telefonema. Quando entrou e viu a cena do assassinato, ficou em estado de choque. Imediatamente foi levado em uma ambulância a um hospital.

O caso está sendo investigado pelo promotor Leandro Heredia, que sustentou que o filho “tentou resistir” ao enforcamento feito supostamente pela mãe. “Mas não conseguiu e foi vencido. Foi como Davi contra Golias. Mas desta vez ganhou Golias…”.

Adriana, segundo as fontes policiais, estava sob tratamento psiquiátrico há quase um ano, época na qual teriam começado os trâmites do divórcio. Nesse período, a brasileira, segundo as informações extraoficiais, ela já teria feito ameaças de matar seu próprio filho. Adriana e Carlos teriam estado casados ao longo de dezesseis anos. No ano passado, segundo a polícia, Adriana esteve internada durante 30 dias em novembro. No dia do crime, a empregada doméstica explicou à polícia que sua patroa “tomava muitos remédios”.

CASAL – Adriana e Carlos conheceram-se há 16 anos no Rio de Janeiro. Na sequência, instalaram-se em Buenos Aires, onde casaram-se. O casal teve três filhos. O caçula, Martín, permanecia ontem inerte no Instituto Médico Legal.

LUGAR BELO – O condomínio privado San Elísio, que autodefine-se em seu site na internet como “um dos lugares mais belos da província de Buenos Aires” possui 173 hectares de extensão, e conta com um campo de golfe, além de dez lagos.

A atriz alemã Klara Zieger (1844-1909) interpretando a Medeia de Eurípides (não tem um quê de parecido?)

“FALTA DE SEGURANÇA”: Em 2006 Adriana Cruz havia sido coincidentemente entrevistada pelo Canal 13 sobre um delito que havia ocorrido em San Elíseo. “Vivo sempre fechada e com a porta trancada com chave”, disse na época.

E, para encerrar, Maria Callas como Medéia na ópera homônima de Luigi Cherubini. Libreto em francês de François-Benoît Hoffmann.

   

 hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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