Morreu Caloi, pai de Clemente, o alter ego dos portenhos
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Morreu Caloi, pai de Clemente, o alter ego dos portenhos

arielpalacios

08 Maio 2012 | 14h09

Clemente e sua inexorável azeitona

O cartunista argentino Carlos Loiseau, mais conhecido pelo nome artístico “Caloi”, morreu ontem (terça-feira) em Buenos Aires, após vários dias de internação hospitalar por “grave doença”, segundo informaram amigos da família do artista. Caloi, que tinha 63 anos, foi o criador de “Clemente”, um peculiar pato com listas pretas e amarelas no corpo – tal como uma abelha – que não tinha asas nem braços. No entanto, Clemente era um rapaz de um bairro portenho, bom-vivant que amava o futebol, o tango, a política e as mulheres. E fazia psicanálise.

O personagem, que com frequência protagonizava situações surrealistas e delirantes, sempre tinha algum comentário sutilmente irônico na ponta da língua. Clemente era considerado o “alter ego” dos portenhos.


Nas eleições parlamentares de outubro de 2001, quando começava o “que se vayan todos” (que todos vão embora) contra a classe política, dezenas de milhares de votos foram destinados – a modo de protesto – a favor de Clemente.

Em 2004 a prefeitura portenha designou Clemente – publicado ininterruptamente desde 1973 – “patrimônio cultural da cidade de Buenos Aires”.

Clemente tornou-se um sucesso nacional quando, durante a Copa do Mundo de 1978, convocava os argentinos a jogar papel e confete nos estádios. A convocação ia de encontro ao pedido do locutor oficial do regime militar que governava a Argentina na época, que fazia campanha contra o confete nos estádios por ser algo “sujo”.

Uma tarde de abril de 1997 fiz uma entrevista com o cartunista Caloi em sua casa localizada na frente do Parque Lezama, por ocasião dos 25 anos da criação de Clemente. Aqui segue a íntegra da entrevista.

 

Nasceu de uma chocadeira desligada, teve um filho com uma azeitona, voa sem asas e seu corpo é cheio de listras pretas. Ah, sim, jogou no Boca Juniors e fala com todos os erros inimagináveis de ortografia. Namora uma mulata e uma francesa. Foi diplomata na guerra entre as passas e as azeitonas.

O personagem em questão é Clemente, que está soprando 25 velinhas. É o mais portenho dos cartuns. Em sua tirinha do jornal “Clarín”, um olhar de canto de olho e uma perna cruzada, todas as manhãs, são suficientes para Clemente concluir uma análise arguta. Amplo repertório: dos clones ao presidente, de futebol à libido. Seu universo que vai do reles cotidiano ao onírico em poucos segundos. Ou melhor, em poucos quadrinhos.

Ele saiu do tinteiro do cartunista argentino Carlos Loiseau, alias, Caloi, que além de Clemente, dedica-se a apresentar um dos raros programas sobre desenhos animados de arte na TV latino-americana. Aos, domingos, em horário nobre, Caloi desfila la creme de la creme do traço polonês, húngaro, canadense e indiano. Admirador dos irmãos Caruso, Caloi nunca esquece quando os gêmeos mais arteiros do Brasil o levaram a um bar homônimo do filho predileto: “Clemente”. Não saberia dizer onde era. “Cidade confusa, São Paulo!” exclama.

Caloi recebeu o Estado em sua casa de cinco andares na frente do Parque Lezama em uma sala despojada de decoração, mas cheia de inusitados frascos entupidos de rolhas. Ali, ele contou com quantos Clementes se conspira.

Estado – O que é um Clemente?

Caloi – Não há muitos segredos. Trata-se somente de um personagem do absurdo, que tem definição na escala zoológica. Quando me encarregaram a tirinha, pensei criar um personagem que não me escravizasse. É esse o principal fantasma que um desenhista tem na tira diária: ficar prisioneiro de sua própria criação. Todos os personagens até o momento, tinham tido uma profissão ou uma característica psicológica fixa. Isso permitia muito pouco o absurdo. Na minha infância, os personagens de sucesso eram o Piantadino, um sujeito que vivia fugindo da prisão ; o Avivato, que era um espertalhão, que tirava partido de qualquer situação. Cada um com uma característica permanente. Mais tarde, isto mudou. Mafalda revoluciona o âmbito dos personagens. Mas ela mesma está presa à sua própria personalidade. Era uma menina contestatária, que se ligava a outros personagens como Manolito, que se interessava pelos negócios. Susanita, que pensava como uma senhora. Quino obtinha variedade misturando essas características. Eu achava que se tivesse que trabalhar com estas premissas, ia ficar doido. Então fiz algo absurdo, para poder entrar e sair da realidade quando eu quissesse, sem pedir licença a ninguém. E assim apareceu Clemente.

Estado – Mas o protagonista inicial da tirinha era Bartolo…

Caloi – Essa era a idéia inicial. Bartolo andava em um bonde muito especial, sobre uma única roda, pela ruas de Buenos Aires onde ainda existem trilhos. Mas logo percebi que Bartolo também estava ligado a uma visão limitada da realidade porque estava amarrado a uma coisa nostálgica: o bonde. Além disso, dava muito trabalho desenhar um bonde em cada quadrinho. Fui exitinguindo Bartolo em favor do crescimento de Clemente, um personagem secundário. Ele cumpria mais o jogo livre que havia proposto com a realidade e com as etapas que a Argentina ia atravessando. É difícil que uma tira diária se desprenda do peso que a informação tem, e assim, aparece ligado à política, economia, esportes, cultura…

Estado – Esse é um atributo que fez Clemente perdurar e Mafalda não?

Caloi – Quino dediciu terminar a Mafalda, e é incrível a vigência que tem. É tão genial que foi feita durante 10 anos. Há 20 não a desenha. Há outro tipo de tratamento com Clemente, que acompanha as pessoas no andar. Mafalda é uma filósofa.

Estado – Noto que com o passar dos anos, Clemente foi tomando formas mais arredondadas. O mesmo aconteceu com o Pato Donald e muitos outros personagens no mundo inteiro. Quando um personagem amadurece…

Caloi – (interrompendo)…Ele vai engordando (ri). Vamos conseguindo uma síntese. O comparo com a assinatura. Começamos escrevendo todas as letras e o nome compreende-se claramente. Até colocamos pingos nos “i”. Depois, tudo transforma-se no rabisco de algo que foi a escrita do nome. Acho que o personagem vai se aburguesando.

Estado – Para um personagem que tocava a política, como parte do cotidiano, como eram as restrições na época da Ditadura?

Caloi – Tive ameaças telefônicas de morte, e decidi desaparecer um pouco indo para a casa de minha mãe. Mas logo foi ela que começou a me ameaçar, para que fosse embora (ri). Tive restrições, como todo o jornalismo da época. Mesmo notícia de tempestades ou de granizo eram proibidas, por serem más notícias…

Estado – Houve um período onde Clemente era jogador de futebol, do time Boca Juniors…Como chegou a isso?

Caloi – Era seu sonho. Como aquelas crianças que estão jogando sozinhas com uma bola e vão falando como se estivessem transmitindo o jogo. Clemente usava uma camiseta grande demais, tropeçava nela. Mas driblava 10 jogadores e fazia o gol no último minuto. Era de Boca porque Bartolo era de River…como eu. Na Copa de 1978, adquiriu grande notoriedade, pois ultrapassou as fronteiras do jornal, com sua figura aparecendo nos tabuleiros eletrônicos dos estádios.

Estado – Criou a mania argentina de jogar papeizinhos no campo, ou a reforçou?

Caloi – Acho que a reforcei. O locutor oficial da copa, José Muñoz fazia uma campanha contra jogar papéis nos estádios, que era um costume nacional. Antes, tenho que explicar que nós, desenhistas, somos uma raça de sobreviventes, de conspiradores…tigres de papel. Como o “Pasquim” no Brasil, ou a “Codorniz”, na Espanha, estavamos sempre à espreita, para dar uma alfinetada nesse regime. E existia esta coisa tão inocente dos papéis. O governo tinha medo das multidões, que lembravam outros tempos políticos. Começaram então, uma campanha que tratava todo mundo como inadaptado social, para que déssemos a melhor imagem do país para os turistas. Munhoz dizia que os papeizinhos davam a impressão de sujeira. E Clemente começou a dizer que era para jogar mais papel do que nunca, já que essa era a forma que os argentinos tinham de se manifestar.

Estado – Como Clemente lidou com a Guerra das Malvinas ?

Caloi – Alheio. Existia um artificialismo triunfal no qual eu não acreditava e não fiz humor a respeito. Dois dias antes da invasão argentina havia sido realizada uma imensa manifestação contra os militares na Plaza de Mayo. A polícia botou todo mundo para correr, eu incluído. A invasão era um delírio de alguns generais.

Estado – Durante uma época, reduziu Clemente a poucos traços e sua fala era abreviada como anúcio classificado…Era o “Mundo da Síntese”. Como o público reagiu?

Caloi – As pessoas não estavam acostumadas. Mas o segredo de Clemente foi uma lenta elaboração de um código de entendimento com o público. Ele estabeleceu um código em que tudo é sugerido e nada é dito expressamente. O pensamento é completado pelo leitor. No momento mais duro da censura, Clemente fazia algo tão pueril como dar uma piscada, cruzava as perninhas e dizia algo de canto. As pessoas entendiam. Era popular como elas.

Estado – Na TV teve muito sucesso. Porque não permanceu lá ?

Caloi – A TV, para mim, era uma nova linguagem. Começamos timidamente, com bonecos desajeitados tentando ter o estilo Muppets. Eu estava preocupado pelos problemas estéticos, mas as pessoas já cantavam as musiquinhas de Clemente nas ruas. Ele incorporava um público que não era do jornal. Durou três anos, mas depois, acabou, pois aTV precisa renovar permanentemente seus personagens.

Estado – Clemente seria o portenho por excelência?

Caloi – Não era essa a idéia, embora ele possua idéias e pensamentos dos portenhos. É o torcedor de futebol, o pensador, é uma mistura de tudo, como os próprios portenhos.

Estado – De quem possui influências?

Caloi – Quino e Oski. Este era absolutamente original. Ele havia se encarregado de redesenhar toda a natureza em aberta competição com Deus. Seus pássaros, árvores e até o sol eram muito pessoais. Trabalhei nas revistas Patoruzú e Nicabur, onde havia caras que eram grandes construtores de personagens. Calé foi um desenhista que fez uma excelente radiografia da alma portenha dos anos 50 e 60. Quino foi o “joelho” na revolução desses comunicadores. Mafalda tinha mais preocupações além do bairro em que morava. Seu primeiro livro está dedicado ao secretário-geral da ONU, U Thant. Ela era uma garotinha que podia ter insônia por causa do “perigo amarelo”…!

Estado – Poderia contar sua experiência na “Hipotenusa”, uma revista que definiu como “surrealista com o subsídio do Estado”?

Caloi – A “Hipotenusa” surgiu na época da ditadura do general Onganía. Era uma revista arriscada em termos gráficos. Quanto mais ousado fosse o material, mais esquisito, eles publicavam. Durou 15 números, ou seja, bastante. Depois que foi fechada ficamos sabendo que era uma aposta cultural do Estado! (ri)

Estado – Há um desvario de personagens que contracenam com Clemente: pedras filosofais falantes, uma pardal-namorada francesa, uma mulata, o Clementossaurio, seu filho Jacinto, que nasceu de um affaire com uma azeitona…

Caloi – Uma das namoradas de Clemente, a “Mulatona”, é uma colombiana que dança a Cumbia, um ritmo latino. Ela é a coisa telúrica. Por outro lado, Mimi, a pardal francesa, tem a ver com aquele ideal antigo da mulher delicada. O Clementossaurio, o Clemente alado, são desdobramentos de sua personalidade. Lembrei de uma novela de Hermann Hesse, onde o personagem percorria as ruas da cidade com um cartaz onde dizia “Só para loucos”, e era seguido por outros que representavam sua múltipla personalidade.

Na tirinha publicada na manhã de sua morte, Clemente analisava com o filho Jacinto a morte do Universo.

Estado – O que aconselharia aos jovens cartunistas?

Caloi – Que trabalhem muito. Esta é uma época difícil para os jovens. Não existem tantas revistas de humor como quando comecei. Quase parece que têm que pagar para que publiquem seus desenhinhos.

Estado – É mais difícil fazer Humor hoje do que antes ?

Caloi – Pode-se fazer Humor nas piores circunstâncias, nas condições mais adversas, como durante a Ditadura. Nós, cartunistas, somos uma espécie de avis rara que sobrevivem e que ainda, além de tudo, conspiram um pouquinho.

Homenagem do cartunista Liniers a Caloi.

  

  

 hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra).

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