“Queremos Justiça!” grita multidão no enterro do promotor que denunciou a presidente Cristina
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“Queremos Justiça!” grita multidão no enterro do promotor que denunciou a presidente Cristina

arielpalacios

30 Janeiro 2015 | 16h58

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Argentinos colocaram flores e velas em memória de Nisman na frente da casa funerária e nas portas do cemitério.

blog1dedo2bUma multidão, aos gritos de “Justiça-Justiça!” “Nisman- Nisman!” e “Cristina assassina!”, recebeu ontem (quinta-feira) nas portas do cemitério judaico de La Tablada o cortejo fúnebre que levava o féretro do promotor federal Alberto Nisman, morto com um tiro na cabeça no 18 de janeiro. Sua morte ocorreu quatro dias depois de ter denunciado a presidente Cristina Kirchner pela suposta decisão – em 2012 – de ordenar o encobrimento de iranianos que teriam realizado o atentado contra a Associação Mutual Israelita Argentina (AMIA) em 1994. Uma pesquisa da consultoria Zuleta Puceiro indicou que 74% dos argentinos consideram que o governo da presidente Cristina possui alguma espécie de “responsabilidade” na morte do promotor.

A ex-mulher de Nisman, a juíza Sandra Arroyo Salgado, na frente do caixão, afirmou ontem “aqueles que te conhecemos sabemos que não foi decisão tua…temos a certeza de que isto foi obra de outras pessoas”.


A promotora Viviana Fein, que investiga a morte de Nisman, classificou o caso de “morte duvidosa”, embora defenda a tese de suicídio. Grande parte da imprensa e da oposição – além da opinião pública – consideraram, desde o anúncio da morte do promotor, suspeitaram que Nisman teria sido assassinado. No entanto, o governo da presidente Cristina Kirchner teve uma atitude mutável. Enquanto que nos primeiros dias defendeu enfaticamente a ideia de suicídio, posteriormente deu uma guinada e passou a indicar que “não havia sido suicídio”.

A religião judaica indica que os suicidas devem ser enterrados ao lado de um muro do cemitério, afastado dos outros mortos. No entanto, desde a semana passada líderes da comunidade judaica chegaram ao consenso de que Nisman não havia suicidado-se, mas sim, assassinado. Desta forma, não foi enterrado na ala reservada aos suicidas. Nisman repousa a menos de 20 metros das jazidas de várias pessoas que morreram no atentado contra a AMIA. Nisman estava envolvido com a investigação do caso desde 1997. A partir de 2004 tornou-se o chefe da promotoria especial do caso AMIA.

Os amigos do promotor afirmam que Nisman estava entusiasmado nos dias prévios à sua morte. Segundo os depoimentos, o promotor não estava deprimido nem estressado. O promotor não havia deixado cartas de despedida. No entanto, deixou uma lista de compras de supermercado para a empregada, que iria chegar na segunda-feira, o dia seguinte à sua morte.

O jornal britânico “The Telegraph” citou ontem uma fonte do Serviço de Inteligência da Argentina que atribuiu a morte de Nisman a uma “célula de espiões leais” à presidente Cristina. No entanto, segundo a fonte, esta célula teria agido sem ordens específicas da presidente. “Cristina não tem que dar uma ordem específica. Seu pessoal compete para satisfazer o que eles acham que são seus desejos”, explicou a fonte.

A Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA fez um apelo para que o Estado argentino faça as investigações da morte de Nisman de forma “profunda e imparcial” e “esclareça” o caso.

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VELÓRIO – Nas horas prévias, milhares de pessoas compareceram às portas do velório de Nisman, realizado na funerária O’Higgings, no bairro portenho de Núñez. “O promotor Nisman deu a vida pela pátria. É um herói”, disse a aposentada Ruth Fizsbein ao Estado do lado de fora do velório no fim da noite de quarta-feira.

A seu lado, a veterinária Elena D’Alessio – segurando uma pequena bandeira argentina com uma tarja preta atravessada em diagonal – declarou que “muitos crimes ficaram impunes na História argentina. Mas este será diferente. O povo exigirá sua solução. Se bem que teremos que esperar até o próximo governo, em dezembro, para saber a verdade”. Ruth concordou com sua amiga e arrematou “Cristina é a mandante deste assassinato”.

A promotora-geral da República, Alejandra Gils Carbó, declarada militância kirchnerista, enviou uma coroa de flores ao velório, que foi destruída pelo público. Horas depois ela compareceu pessoalmente ao lugar, sendo vaiada pela multidão que esperava nas portas da casa funerária.

O embaixador dos Estados Unidos, Noah Mamet, os principais líderes da comunidade judaica, além de representantes da oposição, foram ao velório dar os pêsames à família e dar o último adeus ao promotor.

A presidente Cristina Kirchner não emitiu um comunicado de pêsames à família de Nisman. Ela considera que o promotor integrava uma “conspiração” contra seu governo.

Na comunidade judaica Nisman está sendo chamado de a vítima número 86 da AMIA. No ataque terrorista de 1994 contra essa instituição judaica – localizada em uma área do bairro de Balvanera chamada Once” – morreram 85 pessoas e foram feridas e mutiladas outras 300.

blog1dedo4baixoPara esta jornada, de Maurice Ravel, o “Kaddisch” (a oração pelos mortos), do “Deux mélodies hébraïques”:

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hirschfeldfarrago3PERFIL: Ariel Palacios fez o Master de Jornalismo do jornal El País (Madri) em 1993. Desde 1995 é o correspondente de O Estado de S.Paulo em Buenos Aires. Além da Argentina, também cobre o Uruguai, Paraguai e Chile. Ele foi correspondente da rádio CBN (1996-1997) e da rádio Eldorado (1997-2005). Ariel também é correspondente do canal de notícias Globo News desde 1996.

Em 2009 “Os Hermanos” recebeu o prêmio de melhor blog do Estadão (prêmio compartilhado com o blogueiro Gustavo Chacra). Em 2013 publicou “Os Argentinos”, pela Editora Contexto, uma espécie de “manual” sobre a Argentina. Em 2014, em parceria com Guga Chacra, escreveu “Os Hermanos e Nós”, livro sobre o futebol argentino e os mitos da “rivalidade” Brasil-Argentina.

No mesmo ano recebeu o Prêmio Comunique-se de melhor correspondente brasileiro de mídia impressa no exterior.

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