O ‘compadrito’ – O pária, as prostitutas e a cópula (Origens do tango, parte 2)
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O ‘compadrito’ – O pária, as prostitutas e a cópula (Origens do tango, parte 2)

arielpalacios

10 Novembro 2009 | 01h09

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O compadrito e seu punhal multiuso para as horas de tédio

maoalienaa“Dos hombres llegan / son dos rivales / en el duelo criollo / resolverán / que el brazo diga / quién tiene más derecho / a disfrutar los besos / de la mujer fatal”.

O poema, de Martinelli Mazza, ilustra o “compadrito”: um homem disposto a matar outro homem pelo amor de uma mulher. E muitas vezes, apenas pelo prazer de matar, de ver o sangue correr, de ter uma épica pessoal para contar na hora de beber o aguardente no bar com amigos e desconhecidos.

Como no caso do “majo” espanhol, morrer, para o “compadrito”, não era um drama. Os estudiosos indicam que, para saciar o acentuado gosto pela morte, tanto fazia ser a causa do óbito ou seu objeto.

“Compadrito” é um diminutivo pejorativo de “compadre”, palavra usada na Espanha e na Argentina para designar um tipo de homem semi-urbano. Na Argentina do século XIX, as pessoas eram designadas em duas modalidades: o homem urbano e o “gaucho” (o homem do campo livre ou peão que trabalhava nas planícies do Pampa).

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Compadritos, em charge de Eduardo Linage

O “compadrito” não era nenhum dos dois. Vivia de biscates na periferia das cidades, sem ousar entrar nas mesmas, nem pensar voltar ao campo. Trabalhava ocasionalmente como vaqueiro levando o gado ao porto ou carneando as reses.

Nas horas livres – que eram muitas – o compadrito dedicava-se ao jogo, tocar o violão, além de cuspir entre os dentes com inigualável destreza. Na hora da conversa, “compadreava”. Ou seja, fanfarronava. O costume de lavar a honra com profusão de sangue alheia teve no compadrito o último representante desse modus operandi de resolver problemas em solo argentino.

O compadrito seria a temática principal dos tangos das primeiras décadas, com letras que relatavam os duelos e seu comportamento briguento e passional. Mas antes de ser assunto de letras de tangos o compadrito mudou a forma de tocar e dançar esse gênero.

Tanto o compadrito como o descendente de escravos eram párias da sociedade. Os afro-portenhos tinham seu lugar de divertimento, os “tambos”. Os compadritos, nada. Portanto, começaram a frequentar o lugar de batuque dos afro-argentinos da cidade.

Dali, levaram o ritmo dos tambores a seu bairro, o “Corrales Viejos”, onde estavam os currais do gado. Hoje, ali está o bairro de “Parque de los Patrícios”, ou simplesmente, “Parque Patrícios”.

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Os “corrales viejos”

Em seus lugares de festa, os compadritos acrescentaram o violão ao batuque. Os tambores foram eliminados rapidamente. Mas a herança negra ficou através dos trejeitos e do compasso na hora de dançar.

Antes de entrar em contato com os afro-portenhos, o compadrito dançava a milonga, a polca, a mazurca e a quadrilha. Depois, continuou dançando os mesmos gêneros. Mas a forma de dançar mudou. O compadrito as havia “africanizado”.

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Compadrito deu seu toque pessoal ao protótipo do tango

Para um dos maiores “tangólogos” da Argentina, José Gobello, o tango não seria uma nova dança (em sua origem), mas uma nova forma de dançar aquilo que já se dançava na época.

A nova forma era gozadora, irreverente, descontraída. Mas, ao contrários dos afro-portenhos, o compadrito dançava colado à sua parceira. O animado jeito africano cedeu terreno à uma elegância hispana.

O principal lugar de dança dos compadritos eram as “academias”, cafés misto de bordéis. Além destes lugares onde consumia-se mulheres e bebidas, estavam os “peringundines”, lugares exclusivos para a prática do sexo pago. Tanto nas academias como nos peringundines dançava-se o tango, dança excessivamente lasciva para os padrões da época. Mulheres “decentes” não o dançariam. As únicas que aceitavam fazê-lo eram as prostitutas.

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Prostitutas no cabaret Armenoville

O tango, dançado por elas – afirmava o escritor espanhol Rafael Salillas em 1898 – “é uma dança que não é dorsal como o flamenco. O tango é postero-pélvico…sua representação é um simulacro erótico”. Depois de explicar detalhadamente os movimentos do ventre e o “jogo de quadril”, faz um esclarecimento: “dança-se entre casais, mas sem cópula”.

O tom sexual da dança era tão acentuado que tornava-se praticamente impossível encontrar mulheres disponíveis para o tango. Mas, a vontade de dançar do compadrito era frequentemente impossível de deter. Por este motivo, sem grau algum de misoginia, para matar a vontade, dançava com um colega homem, em via pública, diante de todos.

Alguns analistas do tango consideram que isso indicaria uma raiz “gay” nesse gênero de dança. No entanto, a maioria sustenta que dançar com outro homem é coisa costumeira em diversas danças em todo o mundo.

Os compadritos, no entanto, não deram o formato final do tango. Para chegar lá, o tango passou antes pelas mãos dos imigrantes italianos, que ao chegar em massa na década de 1880, acrescentaram a flauta, o bandolim e o realejo, como instrumentos. Além disso, muitas prostitutas italianas – que vinham fazer a América – “amaciaram” a forma excessivamente lasciva de dançar o tango.

A italianização do tango começou nos cabarés da avenida Corrientes, na esquina da calle Uruguai. Mas estes “antros” tiveram vida curta, e por causa das pressões da polícia precisaram emigrar para áreas mais afastadas do centro. Nos novos estabelecimentos, o tango recebeu uma nova guinada, com a chegada dos “cajetillas”.

“Bailarín y compadrito”, um tango de 1929 que refere-se ao compadrito tardio, já do século XX.
O link:

http://www.todotango.com/spanish/las_obras/letra.aspx?idletra=633

vinhesta

NADA A VER
Nada a ver com o tango e os compadritos, mas tem tudo com o Rio da Prata, em cujas margens surgiu o tango…

maoalienaaNova York arrasada por ETs?
Los Angeles pulverizada por alienígenas?
Não! Alvo da fúria extraterrestre é a plácida Montevidéu.

Os mal-educados visitantes do espaço sideral destroem a Torre da Antel (a estatal companhia telefônica, arrasam o Parlamento, avançam pela avenida 18 de Julio, eliminam a cúpula do palácio Salvo, e esbarram no elegante hotel Radisson, entre outras áreas emblemáticas da capital uruguaia.

Tudo isso no link de um curta produzido na capital uruguaia, com muita criatividade e pouco dinheiro – apenas 300 dólares – por Federico Álvarez:
http://www.rollingstone.com.ar/weblogs/mixedmedia/nota.asp?nota_id=1197378&pid=7672348&toi=6313

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