Tomás Eloy Martínez, o ficcionista da História
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Tomás Eloy Martínez, o ficcionista da História

arielpalacios

01 Fevereiro 2010 | 08h09

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Tomás Eloy Martínez, autor de “Santa Evita” e “O voo da rainha”, nos deixou neste domingo

handd Tomás Eloy Martínez, jornalista, escritor e ensaísta argentino, faleceu neste domingo aos 75 anos, após uma longa e persistente luta contra o câncer.
É triste quando alguém que a gente costumava entrevistar com certa frequência, falece. Mais ainda se era um intelectual brilhante. Muito mais ainda se era uma boa pessoa. Esse era o caso de Tomás Eloy, um cavalheiro. E além disso, bem-humorado.

Apesar de ser uma eminência no jornalismo, não era soberbo. Uma vez me ligou – a mim, um simples correspondente – para saber como caminhava e como falava uma sinistra figura (uma pessoa real que eu conhecia) que serviriam de base para um personagem de uma obra sua, uma ficção baseada em um fato real.

Busquei várias das entrevistas que fiz com ele, para colocar no blog neste dia cinzento em Buenos Aires. De todas as que olhei, achei que a mais adequada havia sido a primeira que fiz, em 1995.

Tomás Eloy foi na América Hispânica o que Norman Mailer e Truman Capote – pioneiros do Novo Jornalismo – foram nos EUA.

O peronismo foi a fonte de boa parte de seus relatos. A Nova Novela, prima-irmã da Nova História, seu instrumento.

Tomás Eloy Martínez colocou as biografias históricas na lista dos livros mais lidos na Argentina. Ele optou pela liberdade da literatura para colocar uma lente de aumento na História. “Há detalhes que antes nem considerávamos aptos para notas de rodapé!”, sustentava.

Com essa receita, seu livro “Santa Evita”, permaneceu durante longo tempo na lista dos mais vendidos. De forma novelesca, relatava nesse livro as aventuras do caixão que levava o corpo de Eva Perón.

Em “A Novela de Perón”, romanceou a vida do Ditador argentino. “As Memórias do General” é uma longa entrevista feita com Perón antes de seu retorno ao poder.

Com estas obras Martínez já teve sua cota de peronismo satisfeita: “Minha relação literária com o peronismo fica clausurada com este textos. Meu próximo livro é uma história de amor”, me disse nessa entrevista em 1995.

Aqui segue a entrevista:

Estado – Como podem conviver a História e a Ficção?
Martínez – A Ficção e a História escrevem-se para corrigir o porvir. As fronteiras que havia entre elas hoje são translúcidas. É o caso de “O queijo e os vermes”, de Carlos Guinzburg, do lado da História e “Uma História do mundo em dez capítulos e meio”, de Julian Barnes, do lado da Ficção. O gelo dos dados históricos se derrete com o sol da narração. A primeira narração que ouvi foi a da Independência Argentina, com sua proclamação na Praça de Mayo, em Buenos Aires, cheia de patriotas de fraque e sombrinhas. Não me disseram que a praça era um lamaçal, e que as sombrinhas eram raridades na época e que só havia meia dúzia de pessoas. A História, em geral é um pêndulo fatal, oscilando entre o branco e o preto, que não deixa lugar para os tons cinzas. Mas os cinzas existem, escondidos pelos ciúmes da História. Uma história de minha província relata a saga de uma mulher da alta sociedade, chamada Fortunata, que para salvar da vergonha o crânio de um herói, exposto em praça pública por um tirano, seduziu um guarda e assim pode roubar e esconder a caveira em sua casa para logo lhe dar uma cristã sepultura. A verdade era outra. Há anos descobri, fuçando a correspondência de sua irmã, que essa heroína do século passado ficou com a caveira e com ela brincava na cama, como se fosse uma boneca.

Estado – O que isso tem a ver com peronismo e ficção?
Martínez – O peronismo tem a ver com a forma de como nos contaram a História deste país. O passado e o público, sempre se entrelaçaram de uma forma difusa e profusa na História. Se os arquivos foram construídos por minorias letradas e os poderes ditatoriais, e se a História é uma série de exemplos que escamoteiam a verdade, como negar à novela su versão da História? Nossa realidade por si só é novelesca! Ela precisa ser narrada por elementos mais flexíveis, e complexos. Os documentos são percebidos como autênticos ou falsos dependendo do imaginário do país. Por isso os textos fantásticos de Borges…estão baseados em algo real: a sua enorme erudição. Temos que ver a História como cultura, não só como realidade. É o que a própria História faz com a Literatura.

Estado – De detalhe em detalhe o escritor enche o papo?
Martínez – (rindo) A Nouvelle Histoire se dedica aos personagens, colocando ênfase em detalhes, manias e matizes que antes nem haviam sido consideradas como aptas para notas de rodapé! Apropriando-se desses detalhes a Nova História lhes dá vida, e também a Nova Novela, dando cor aos detalhes, símbolos, mitos, desejos, que já estavam ali. O novelista da História sempre se esforçará por recuperar as mitologias da tradição à qual pertence. A ficção cria uma nova realidade e renova os mitos. Já não importa muito se o que foi, foi mesmo de verdade. A frase mais conhecida de Evita é “Voltarei e serei milhões”. Ela nunca a disse. Veja o perfume póstumo dessas palavras…E, apesar que essa frase foi desmentida, insiste em permanecer como legenda de suas fotos. Para as pessoas que adoram Evita, a frase é verdadeira.

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Peripécias do corpo de Evita foram relatadas de forma saborosa em tom de thriller por TE Martínez em “Santa Evita”

Estado – O sr. é um jornalista pertencente ao mesma corrente, a do novo jornalismo, que formou Truman Capote, Gay Talese e Norman Mailer. Foram testemunhas da História. Como será o trabalho dos futuros historiadores quando analisem esta época, de indefinições ideológicas que vocês nunca viveram?
Martínez – Não será fácil contar o que acontece. Será angustiante narrar o desemprego, se alguma vez sairemos dele, narrar a pobreza, caso a deixemos, ou a corrupção, caso alguma vez nos livremos dela. Tenho a esperança de que a Argentina um dia construirá o destino de grandeza à qual estava prometida em 1910. mas as idas e voltas, os golpes militares, a fragilidade desta democracia fizeram com que as coisas escorressem como água. Espero que no futuro possam os jovens narrar estes anos de desesperança com esperança.

Estado – O peronismo é que suscita tantas novelas ou pode acontecer com qualquer tema?
Martínez – Com qualquer uma. Há maneiras novas de escrever a História. É rica em textos como o de Julian Barnes, autor de “O Papagaio de Flaubert”, é rica em qualquer texto que se proponha com seriedade, contar a História, desde a interioridade do personagem, tratar de desencavar que elementos a História oficial ocultou. No caso do peronismo é muito rico porque se escondeu muita coisa sobre o tema.

Estado – Até que ponto o escritor pode criar em cima dos detalhes da vida de uma pessoa real? Dizer que Evita ou Marilyn Monroe – que eram castanhas de nascimento – nasceram loiras, não fazem que o leitor que sabe que não foi assim, sinta-se traído?
Martínez – Se o que está sendo escrito é uma novela, deve-se trabalhar sobre o verossímil. Se você descobre um elemento que é falso, a novela perdeu-se. Se descobre que Evita ainda em 1935 era morena e o autor diz que é loira, a obra cai, por melhor que seja o livro. As novelas trabalham sobre a verossimilhança, da mesma forma que a História trabalha sobre a verdade. São dois elementos diferentes. A novela é como um filme. No cinema temos que acreditar que tudo é verdadeiro. Se numa cena um personagem entra por uma porta com uma gravata amarela e ao fechar a porta ela é vermelha, o espectador não acredita mais na história. A História trabalha sobre a verdade: a construção de documentos.

Estado – É a mesma relação que existe entre “A Novela de Perón” e “As Memórias do General”?
Martínez – Descubra em “As Memórias do General” um só elemento falso. E em “A Novela de Perón” eu o desafiaria que descobrisse um só elemento inverossímil.

Estado – Em seu próximo livro continuará investigando o peronismo ou irá para outro lado?
Martínez – Depois de “A Novela…”, que é de 1985, pensava que minha relação literária com o peronismo havia terminado, até que um dia o Brigadeiro Jorge Rojas Silveira me introduziu em algo que nos anos 60s era o mistério nacional: onde estava o cadáver de Eva Perón. A fascinação a que fui submetido era algo difícil para um novelista escapar. E assim escrevi “Santa Evita”. “As Memórias…” são um texto documental que estavam prontas desde 1975. Minha relação literária com o peronismo fica clausurada com este textos. Meu próximo livro é uma história de amor.

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Estado – Quando escreve a novela histórica existe a possibilidade, o risco, de cair no compromisso ideológico e de ser um pouco poético. O que faz para evitá-lo?
Martínez – Deixo que meu coração fale para mim com lealdade, e tento refletir o que minha consciência diz que devo fazer, e ela diz: “sê fiel a ti mesmo”. Cada um dos livros que escrevi reflete o mais alto grau de honestidade que um homem pode alcançar.

Estado – Fica plenamente satisfeito quando conclui a escritura de uma ficção sobre a História?
Martínez – Gosto de uma ideia: as ficções sobre a História e as denúncias das imposturas da História feitas desde o poder. As ficções sobre a História recuperam os sonhos de uma comunidade, e porque permitem que esses sonhos regresem à comunidade, transformados em cultura e tradição. Em “Santa Evita” tentei recuperar a essência mítica de uma personagem central na História argentina, reunindo num só texto tudo o que os argentinos havíamos imaginado e sentido sobre Eva Perón. Esse livro não está terminado, nunca poderia estar, porque as tradições e os mitos são um tecido, cujos fios mudam incessantemente a forma e o sentido do desenho. Isso é o mais importante que acontece com os livros que escrevemos sobre a História. Há livros que nunca terminam de ser lidos, nem de ser escritos, porque a História é como um rio, está num movimento incessante. As mãos que movem esse tear da História não são só do autor, são muitas, são de cada um dos leitores e vêm de infinitas margens, que fica difícil de dizer de que é esta ou aquela página. É assim como passado reescreve nas novelas, as histórias do porvir.

Estado – Mitos como Gardel, Evita e Maradona surgiram da classe baixa e chegaram de forma espetacular ao topo da sociedade. A ideia de mito está no fato de que já que não podemos mudar o mundo, talvez possamos mudar de classe social? Assim se explicaria porque Eva é mito, e Perón, um burguês, nem tanto.
Martínez – (ri) Há diferentes formas de mitos. Há o mito da Cinderela, que Evita encarna. Para Maradona virar mito só falta uma coisa: morrer (ri). Os mitos só aparecem ou constroem-se como tal após a morte. É o caso de Che Guevara, que ainda está na camiseta de muitos jovens, em todo o mundo. Os mitos são criados de formas intrincadas na imaginação popular…

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Tomás Eloy percebeu que o gesto de Perón era pura encenação, que podia ser feito perante uma multidão ou uma única pessoa

Estado – Churchill dizia que não havia grandes homens para seus valetes. Acontece o mesmo com o mito e seu biógrafo?
Martínez – O que lhe responderei, é algo ainda terrível para mim. Havia entrevistado Perón durante quatro dias e quando me despedi dele, me perguntou, após tudo o que havíamos falado, o que ficava sem saber do peronismo.Me aproximei de Perón com absoluta ingenuidade, mas percebi que me manipulava. Dizia-me somente aquilo que ele acreditava que eu queria ouvir. Você sabe que os políticos acariciam a cabeça das crianças para que as pessoas pensem que boa pessoa ela é. No caso de Perón, pensei que era um homem aposentado da política. Poucos imaginavam que ele voltaria da forma tão estrondosa como voltou. Por isso achei que ele me falaria com franqueza. Percebi que não era assim, e isso me incomodou. E quando me perguntou o que eu não havia vivido do peronismo, lhe disse que na época morava no interior do país e havia perdido as aclamações frenéticas que as multidões da capital faziam quando ele falava em praça pública e os chamava de “Companheeeeeeiros!”. Ele me disse: “vou fazer para você”. E ao se despedir, na porta de sua casa em Madri, abrindo os braços com seu gesto típico, falou com seu vozeirão: “Companheeeeeiros!”. Percebi que Perón era um ator e que toda sua ideologia, todo seu projeto político era uma encenação. Senti, nesse momento que Perón tentava me dar algo e ao mesmo tempo que me dava algo, ele o tirava de mim para sempre…

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T.E. Martínez viu os vários ‘Peróns’

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