As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

China pisa em ovos na questão do Estado Islâmico

Felipe Corazza

18 Agosto 2014 | 10h47

A postura do governo chinês nos fóruns internacionais de discussão – na ONU, notadamente – a respeito do combate ao grupo Estado Islâmico no Iraque e na Síria é, ao mesmo tempo, de estímulo e cautela. A posição chinesa tem relação direta com uma questão interna do país comandado por Xi Jinping: a questão dos uigures em Xinjiang. A Região Autônoma chinesa é dor de cabeça constante desde 1949.

O movimento separatista do Turquestão do Leste, que defende a formação de uma grande nação islâmica abarcando a Província chinesa e áreas vizinhas pertencentes ao Cazaquistão, voltou aos holofotes recentemente com ataques violentos em trens e uma suspeita de atentado frustrado na praça Tiananmen, mas o combate a seus integrantes por parte do governo central nunca parou.

+ Siga o blog no Twitter

Episódios violentos como ataques a delegacias de polícia ou a estabelecimentos comerciais ocorrem com frequência em Urumqi e outras cidades de Xinjiang. Do outro lado, prisões arbitrárias e repressão pesada sufocam a comunidade uigur – nem todos, obviamente, integram o movimento extremista, mas a maioria sofre com as consequências de seus atos.


No primeiro momento, o combate aos jihadistas no Iraque é boa oportunidade para o governo chinês. Puxando a questão para o seu lado, Pequim consegue um argumento forte para a repressão mais acentuada em Xinjiang.

Nas palavras de Liu Jieyi, representante da China na ONU, a comunidade internacional precisaria de um esforço conjunto para fazer cessarem as fontes de financiamento dos militantes do Estado Islâmico e da Frente Al-Nusra, que combate na Síria. Nas entrelinhas, a China pede também que se sufoquem as fontes de financiamento do movimento de Xinjiang, que conta com razoável apoio externo vindo de grupos e indivíduos jihadistas.

Enquanto o lado do combate às fontes do financiamento dos extremistas agrada a Pequim, a decisão de intervenção militar direta externa no Iraque é o ponto em que o Partido Comunista chinês se distancia novamente da comunidade internacional. O governo chinês segue sua praxe de não declarar apoio a intervenções diretas.

A posição chinesa é a mesma há muito tempo em relação a missões militares de “estabilização”. Pequim considera que tais decisões tomadas nas Nações Unidas sempre abrem precedente para uma hipotética intervenção na própria China.

Por enquanto, o ganho político em relação à repressão aos movimentos dos uigures supera, em muito, o temor chinês de uma intervenção externa. Resta a Pequim o temor de que o Estado Islâmico influencie jihadistas a abrirem uma nova frente de batalha na região. A fronteira com o Cazaquistão, apesar da geografia espinhosa e da vigilância constante, ainda é porosa ao ponto de permitir passagem de a