Uma muralha invisível, mas pior que a de Trump
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Uma muralha invisível, mas pior que a de Trump

Xi Jinping parece estar seguindo um script um tanto óbvio: surfar a onda global de instabilidade e incerteza para fortalecer o domínio de Pequim sobre grupos de oposição ou separatistas

Felipe Corazza

10 Março 2017 | 16h49

O presidente chinês, Xi Jinping, disse nesta sexta-feira (10) na sessão anual do Congresso Nacional do Povo que o país precisa construir uma “Grande Muralha de Ferro” para “proteger a estabilidade social” na Região Autônoma de Xinjiang, lar da minoria étnica dos uigures, que professam majoritariamente o islamismo. Mas o que Xi quis dizer exatamente com isso?

Soldados chineses guardam entrada do Congresso Nacional do Povo. TYRONE SIU/REUTERS

Soldados chineses guardam entrada do Congresso Nacional do Povo em Pequim. Foto: Tyrone Siu/Reuters

Não houve esclarecimentos posteriores por parte do governo, mas é difícil que o presidente esteja falando literalmente e pretenda erguer uma barreira física de metal. Parece mais provável que ele esteja se referindo a um reforço substancial na vigilância da região e sua população. A pressão de Pequim sobre Xinjiang já não é pequena, mas o governo tem dado sinais de que pretende aumentá-la.

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No dia 8, no Congresso do Povo, foi anunciado o início de um grande plano nacional de segurança e inteligência. Ontem, o jornal China Daily citou uma autoridade afirmando que o Movimento pela Independência do Turquestão do Leste (MITL) – grupo extremista islâmico que defende a separação de Xinjiang da China – era “o maior desafio à estabilidade social” do país. Ligando os pontos, o resultado deve ser ainda mais repressão sobre a população comum da região, que historicamente paga o preço pelas ações do MITL.

Xi Jinping parece estar seguindo um script um tanto óbvio para o momento: surfar a onda global de instabilidade e incerteza para fortalecer o domínio de Pequim sobre grupos de oposição ou separatistas. O Estado Islâmico foi a primeira munição do líder chinês nessa batalha. Uigures, segundo o Partido Comunista da China, fariam parte das fileiras do grupo extremista na Síria e estariam prontos para regressar a Xinjiang e organizar ataques em solo chinês.

Donald Trump veio como um bônus. Ao se expressar com uma retórica belicista e, logo de saída, ameaçar dinamitar o reconhecimento americano da política de “uma só China”, o magnata americano deu a Xi o motivo perfeito para anunciar mais recursos para as Forças Armadas, subir o tom contra Xinjiang e reforçar suas posições em áreas contestadas do Mar do Sul da China.

Curiosamente, “Grande Muralha de Ferro” é o título de um livro sobre o Exército Popular de Libertação chinês lançado na Austrália em 1989. Essa é, provavelmente, a barreira que Xi Jinping pretende ampliar na “fronteira” entre Xinjiang e o restante da China. Diante dela, o muro que Trump promete erguer na fronteira com o México parece até algo singelo.

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