54% dos eleitores de Lula não acreditam que ele estará na cédula eleitoral; para 43%, ele será preso

Cláudia Trevisan

25 Janeiro 2018 | 20h04

A condenação unânime do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em segunda instância abalou a convicção de seus seguidores de que ele manterá sua candidatura até o fim, mostra pesquisa do Ideia Big Data com eleitores do petista. Sua eventual ausência na cédula presidencial fragmentará a esquerda e abrirá uma batalha pela conquista de seus votos, avaliaram analistas ouvidos pelo Estado.

O levantamento foi realizado por telefone com 1.000 eleitores de Lula logo depois de o Tribunal Regional Federal da 4ª Região condená-lo a 12 anos e um mês de prisão por corrupção e lavagem de dinheiro. Dos entrevistados, 54% disseram acreditar que o petista não chegará ao fim da disputa. Outros 43% têm expectativa de que ele irá para a prisão.

“O julgamento criou insegurança sobre a permanência de Lula na disputa e seus eleitores logo começão a olhar para o lado em busca de alternativas”, declarou Maurício Moura, CEO do Ideia Big Data. Em conferência telefônica organizada pelo JOTA, ele avaliou que um terço dos eleitores de Lula votarão em um candidato indicado pelo ex-presidente.

A grande questão é o que acontecerá com os restantes dois terços. Surpreendentemente, a pesquisa indica que uma pequena parte poderá ir para Jair Bolsonaro, que está no outro extremo do espectro ideológico. A maioria seria dividida entre outros candidatos da esquerda. “Poderemos ter a candidatura de Ciro Gomes e nomes do PCdoB e do PSOL”, exemplificou.

O brazilianista Matthew Taylor, da American University, avaliou que a condenação unânime de Lula diminuiu a incerteza do quadro eleitoral. Em sua opinião, será difiícil o ex-presidente reverter a condenação, que também enfraqueceu a retórica de que o processo judicial contra ele tem motivações políticas. “Há ampla evidência de corrupção na Petrobras. O fato de quatro juízes terem adotado a mesma posição é uma indicação de que o caso não é uma caça às bruxas.”

Taylor avaliou que quanto mais tempo Lula mantiver seu nome na disputa, mais prejudiciais serão as consequências para os candidatos de esquerda que tentarão herdar seus votos, caso ele seja impedido de concorrer. Nesse cenário, o maior favorecido seria o deputado Jair Bolsonaro. “Sem o Lula, a candidatura de Bolsonaro tende a se esvaziar, porque ele se beneficia muito de ser o anti-Lula.”

Lisa Schineller, diretora-gerente de crédito soberano da Standard & Poor’s, acredita que a decisão aprofundou a já elevada incerteza eleitoral. Mantendo a avaliação manifestada quando a agência reduziu a nota do Brasil de BB para BB-, há duas semanas, ela disse que o cenário atual favorece a eleição de um “outsider”, que pode ter dificuldades para montar uma coalizão no Congresso e aprovar medidas difíceis, mas necessárias, para colocar o país na direção do equilíbrio fiscal.

“O que realmente fará diferença no longo prazo é quais políticas públicas serão implementadas depois da eleição”, declarou em conferência telefônica promovida pelo Atlantic Council. “Seja quem ganhe, ele terá o apoio político no Congresso que permita avanços rápidos em reformas?”, perguntou. Shineller se referiu ao aumento de 18,5% do déficit da Previdência em 2017 e disse que ele é “muito maior” do que pode ser conquistado com a economia de despesas (superávit primário) no médio prazo.

Peter Hakim, presidente emérito do Inter-American Dialogue, afirmou que o julgamento o convenceu de que Lula é culpado. Ainda assim, ele acredita que sua saída da disputa provocará “danos de longo prazo” à democracia brasileira, no momento em que o país vive uma profunda crise de governabilidade. Hakim defende uma saída política que permite a participação do petista na eleição. “Sua ausência vai aprofundar a polarização do Brasil.”