A matriarca de 103 anos da marcha de Selma

Cláudia Trevisan

09 Março 2015 | 01h20

Quando o presidente Barack Obama atravessou a ponte Edmund Pettus, em Selma, ele estava de mãos dadas com Amelia Boynton, a mulher que é a matriarca do movimento pelo direito de voto dos negros americanos. Com 103 anos, ela não tem mais forças para caminhar e fez a travessia em cadeira de rodas. Mas há meio século, Boynton estava entre as 600 pessoas que saíram da Capela Brown de Selma dispostas a marchar até Montgomery para exigir o exercício pleno de sua cidadania.

Do outro lado da Edmund Pettus, o grupo foi dispersado com gás lacrimogênio e golpes de cassetete desferidos de maneira indiscriminada pela brutal polícia do Alabama. Boynton apanhou a ponto de desmaiar e a foto de seu corpo inerte no chão foi uma das imagens que contribuíram para a mobilização da opinião pública dos EUA em favor da reivindicação dos manifestantes.

Naquele 7 de março de 1965, Boynton tinha 53 anos e mais de duas décadas de militância para derrubar as barreiras que separavam os negros das urnas. Nascida na Geórgia, Estado vizinho ao Alabama, ela começou a se dedicar a campanhas de registro de eleitores afro-americanos nos anos 30, ao lado do marido, Samuel Boynton. Ambos se conheceram quando trabalhavam como “agentes de demonstração” do Departamento de Agricultura, uma função destinada a orientar famílias de camponeses sobre técnicas de plantio e gestão financeira. Boynton havia estudado na Universidade Tuskegee, do Alabama, uma das instituições de ensino superior para negros fundadas depois do fim da escravidão.

O casal Boynton se estabeleceu em Selma em meados da década de 30 e passou a se dedicar aos esforços de ampliar a participação política dos afro-americanos. O direito de voto dos negros havia sido consagrado pela Constituição americana em 1870, depois do fim da Guerra Civil que opôs o Sul ao Norte abolicionista. Derrotados, os Estados sulistas impuseram barreiras quase intransponíveis ao registro de eleitores negros. Entre elas, estava a exigência de que o avô do candidato tivesse votado, o que excluía virtualmente todos os negros nas primeiras décadas do Século 20, já que os escravos não eram considerados cidadãos.

Também havia a cobrança de taxa para obtenção do registro, a imposição de testes de alfabetização mais rigorosos que os aplicados aos brancos e a apresentação de perguntas que não tinham respostas, como “quantas gotas de água existem no rio Alabama?” ou “quantas bolhas são produzidas por um barra de sabão?”

Boynton começou a organizar eleitores em 1933, com a criação da Liga de Eleitores do Condado de Dallas, que abrange Selma. Em 1964, ela foi a primeira afro-americana do Alabama a se candidatar ao Congresso, pelo Partido Democrata. Ela perdeu a eleição, mas obteve 10% dos votos em uma região onde apenas 2% dos negros eram eleitores registrados.

No dia 7 de março, ela voltou à mesma ponte em que foi espancada acompanhada do primeiro presidente negro da história dos Estados Unidos. Ambos haviam se encontrado em janeiro, quando Boynton foi ao Congresso dos EUA assistir o discurso do Estado da União de Obama. A ativista de 103 anos era convidada da deputada Terri Sewell, que conseguiu em 2011 o que Boynton havia tentado fazer em 1964: ser a primeira deputada negra do Alabama.

“É por sua causa que eu posso fazer esse discurso hoje”, disse Obama a Boynton em janeiro, segundo relato de Sewell. Ao que Boynton respondeu: “Então faça um muito bom”.