Brasileiros ensinam o “ABC” do design gráfico aos chineses

Cláudia Trevisan

21 Junho 2011 | 12h06

Xangai está a 18,6 mil km de São Paulo, mas é lá que ocorrerá a primeira a primeira Ilustra Brasil fora do Brasil, em um movimento que segue os passos da Bienal Brasileira de Design Gráfico, que também fez o seu début internacional na cidade chinesa, em 2009, onde foi vista por 190 mil pessoas.

A travessia da obra de ilustradores e designers brasileiros para o outro lado do mundo é comandada por Bruno Porto, que navega nas duas artes e atracou em Xangai em 2006, para dar aula de tipografia no Raffles Design Institute, convidado por outro compatriota que continua em terras chinesas, Itamar Medeiros.

Nos últimos quatro anos, Porto deu aula para cerca de 5.000 alunos, que penaram para aprender a arte da tipografia em letras latinas, tão distintas dos caracteres que integram a escrita chinesa. “Sem o domínio da tipografia, o design gráfico chinês não conseguirá dialogar com o mundo”, sustenta Porto.

Fora da academia, ele se tornou um agitador cultural, com a realização de exposições que promovem o design gráfico brasileiro na China. A mais recente _“Dois Anos em Cartazes”, que está na The Foundry Gallery em Xangai_ reúne trabalhos do próprio Porto, que acabam sendo uma narrativa das atividades relacionadas à cultura nacional realizadas na China e região, como a semana de cinema brasileiro no Vietnã. “O Brasil ainda é uma incógnita para os chineses e os escritórios brasileiros de design gráfico não têm um olhar para o exterior, para a exportação desse serviço”, diz Porto.


O pernambucano Itamar Medeiros foi o pioneiro na trajetória de designers gráficos brasileiros que atravessaram o mundo para ajudar a criar profissionais chineses nessa área. Em 2005, foi contratado pelo Raffles de Xangai para dar aulas de design de interação, no departamento de multimídia. No ano seguinte, Medeiros convidou Porto e Billy Bacon para integrarem a equipe de professores. Bacon voltou ao Brasil um ano e maio mais tarde e, em 2008, a brasileira Sarah Stutz chegou à instituição, por indicação de Porto.

Hoje, nenhum deles está na academia. Depois de criar a comunicação visual do Primeiro Festival de Música Eletrônica da China, que ocorreu no início do mês, Stutz começou a contagem regressiva para voltar ao Brasil. Porto tirou um ano sabático para se dedicar a projetos pessoais e Medeiros trocou a academia pela empresa de software Autodesk, onde dirige o setor de experiência do usuário do AutoCAD, o programa mais usado no mundo por arquitetos e engenheiros para a realização de projetos.

Os três são unânimes em afirmar que a China tem um longo caminho a percorrer no desenvolvimento de design gráfico e apontam a falta de criatividade como a principal deficiência do país. “A educação aqui é como a do Brasil há 50 anos. O melhor aluno é o que consegue reproduzir na prova exatamente o que o professor falou. Há um desestímulo ao pensamento criativo”, observa Medeiros, que é representante em Xangai da Interaction Design Association (IxDA).

Stutz aponta uma dificuldade adicional, que é o fato de o design gráfico ter sido construído a partir da história da arte e de vanguardas ocidentais, que até pouco tempo eram totalmente alheias aos chineses. “Não existe ainda o design gráfico chinês. Eles precisam criar essa identidade para poder aceitar a criação estrangeira.”

A primeira mostra que apresentou o design brasileiro em Xangai foi o Dingbats Brasil, realizado em 2009 sob a curadoria de Porto, com uma segunda edição em 2010. Dingbat é o nome “científico” para pequenos símbolos gráficos, o mais popular dos quais talvez seja a onipresente carinha sorridente.

Na seleção das obras, Porto elegeu as que eram representativas da cultura brasileira, como uma série inspirada no movimento Mangue Beat e outra com referências ao folclore popular. No mesmo ano, a Bienal Brasileira de Design Gráfico viajou pela primeira vez ao exterior e foi vista por 190 mil pessoas em Xangai e 10 mil em Pequim _a mostra tinha 238 projetos de 100 profissionais.

A ilustração tupiniquim será apresentada aos chineses em agosto, no Ilustra Brazil (com z), uma versão internacional do evento que há sete anos é organizada pela Sociedade de Ilustradores Brasileiros. “A ideia é trazer ilustrações brasileiras sobre o Brasil”, diz Porto. Serão 100 obras, acompanhadas de palestras e workshops com o cartunista Orlando Pedroso e o ilustrador Marcelo Martinez. Também haverá exibição de animações, desenhos, vinhetas e comerciais.

A ideia agora não é só mostrar, mas também vender a criação brasileira. Para isso será realizado um seminário de negócios com potenciais compradores, como editores e representantes de jornais e revistas. “Nós queremos sensibilizar o mercado chinês para a ilustração brasileira”, ressalta Porto.