Caso de amor com Putin começa a assombrar Trump

Cláudia Trevisan

14 Fevereiro 2017 | 21h54

No dia 13 de junho de 2013, Donald Trump postou no twitter uma mensagem premonitória de seu futuro relacionamento com o presidente da Rússia: “Vocês acham que Putin irá ao concurso de Miss Universo em novembro em Moscou –e se for, ele se tornará meu novo melhor amigo?”.

Putin não foi ao evento, mas se transformou em alvo de crescente admiração de Trump, que passou a elogiá-lo em sucessivos tuites e declarações públicas. O caso de amor do atual presidente dos EUA com o líder de um dos principais adversários de seu país foi um dos elementos mais intrigantes da disputa pela Casa Branca. Agora, ele começa a assombrar Trump e sua administração.

Michael Flynn, que era chefe do Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca, acaba de perder o emprego em razão da suspeita de que discutiu o futuro de sanções americanas contra a Rússia com o embaixador do país em Washington. Depois de resistência inicial, senadores republicanos se uniram a democratas no pedido de abertura de investigações sobre o caso e os vínculos do governo atual com Moscou.

As dúvidas sobre a natureza da relação de Trump com Putin foram alimentadas pelas posições públicas do atual presidente americano. Na campanha, ele questionou o compromisso dos EUA com a defesa de aliados europeus diante de eventuais agressões de Moscou e criticou as políticas de Barack Obama em relação ao país.

Três dias depois da anexação da Crimeia pela Rússia, em 2014, Trump escreveu no twitter: “Putin se tornou em grande herói na Rússia com popularidade sem precedentes. Obama, por outro lado, caiu para seus mais baixos números. TRISTE”. Minutos depois, outro tuite: “Eu acredito que Putin continuará a reconstruir o Império Russo. Ele tem zero respeito por Obama e pelos EUA!”.

Durante a campanha e depois de eleito, Trump deixou claro que respeita Putin. Em entrevista à Fox News no início de fevereiro, ele minimizou acusações de que o presidente russo ordenou o assassinato de opositores e jornalistas. “Há muitos assassinos. Você acha que nosso país é inocente?”, perguntou em entrevista à Fox News. Trump já havia defendido Putin em dezembro de 2015, quando foi confrontado com a mesma pergunta: “Ele está governando o seu país e pelo menos ele é um líder, diferente do que temos neste país”.

As declarações favoráveis de Trump a Putin se intensificaram depois que o russo fez um comentário que ele interpretou como um elogio incondicional. No dia 17 de dezembro de 2015, Putin disse que Trump era um “homem muito dinâmico, sem dúvida talentoso”, ressaltando que o via como líder da disputa pela Casa Branca. Horas mais tarde, o bilionário respondeu em uma nota: “É sempre uma grande honra ser elogiado por um homem altamente respeitado em seu país e além dele”, declarou. “Eu sempre senti que a Rússia e os Estados Unidos deveriam ser capazes de trabalhar bem juntos para derrotar o terrorismo e restaurar a paz mundial, sem mencionar o comércio e todos os outros benefícios decorrentes do respeito mútuo.”

No dia 27 de julho de 2016, Trump fez um apelo a Moscou para que o país revelasse e-mails de sua adversária Hillary Clinton relativos ao período em que ela foi secretária de Estado. Na época, o WikiLeaks estava divulgando o conteúdo de mensagens trocadas por assessores da candidata, o que abalou a campanha democrata. De acordo com serviços de inteligência dos EUA, os e-mails foram interceptados por hackers russos e sua divulgação fazia parte de uma ofensiva de Moscou para influenciar as eleições americanas em favor de Trump.

“Eu nunca encontrei Putin. Eu não sei quem Putin é. Ele disse uma coisa gentil sobre mim. Ele disse que eu sou um gênio”, declarou Trump na mesma entrevista, exagerando o elogio que recebeu do presidente russo.
Quando perguntado se diria a Putin para ficar fora da eleição americana, ele respondeu que não. “Eu não vou dizer a Putin o que fazer. Por que eu deveria dizer a Putin o que fazer?”